Deisi

A primeira Deisi que eu conheci foi há uns cinco anos e é a mãe da namorada do meu irmão. Até então, tal nome tinha aparecido apenas em um par de filmes e nada além disso. Mas, por algum motivo que nunca descobrirei qual, eu sempre soube dele.

Minha primeira aula de inglês foi aos oito anos, quando resolvi fazer curso da língua. Era horrível e eu acordava super cedo duas vezes por semana só para aprender a falar algumas coisas. Eu gostava bastante do professor e da apostila do curso, mas detestava o fato de a aula começar às oito da manhã, sendo que eu estudava de tarde e jamais acordaria nesse horário sem motivo. Além das minhas aulas eu fazia a tarefa de casa do meu irmão, que tinha preguiça e me dava bombons em troca das palavras que eu só tinha que procurar no glossário e escrever com uma letra feia na página certa. Larguei dessa vida quando nos mudamos de cidade, primeiro porque perdi a paciência e segundo porque eu teria inglês na escola. Logo, a primeira aula de inglês na escola foi aos 11 anos e eu só sabia o básico do básico do básico. Nada além disso. Como a sexta série eu fiz na escola pública e você passava só de saber o alfabeto de cor, tirei dez em todos os bimestres e continuei sem saber nada, ouvindo um monte de músicas sem entender, fazendo pirraça para com filmes legendados e cantando as coisas de maneiras bem bizarras.

Na sétima série o inglês da escola era difícil, a professora não falava português com os alunos e eu tinha que ir pra aula de reforço. Depois acabei voltando a fazer curso particular, mas só aguentei por seis meses, não tinha a menor paciência. Nesse ponto da vida eu comecei a assistir seriados e descobri os sites que diziam o que as letras das músicas significavam e então fiquei amiga do inglês e acabei aprendendo um pouco mais dele, escrevia algumas coisas na tal língua e nos momentos de angústia os desabafos só saíam se fosse nela. Tosco e desnecessário, mas era como eu funcionava. Então fui para Nova York e voltei me achando o máximo porque tinha conseguido me virar e continuei com essa cosia de pegar uns livros aleatórios e ler e assistir seriados sem legendas e filmes com legendas em inglês pra tentar entender e a tentar entender as músicas sem ler as letras e a coisa foi andando. Aí eu descobri o omegle e alguns outros sites em que a gente conversava em inglês com desconhecidos, fui a guia de uma intercambista na escola e no fim das contas me achava A mestre do inglês.

E é claro que eu não sou. É claro que aprendi tudo nas coxas e de qualquer jeito e que tem coisas muito básicas que não faço ideia do que são, mas nas experiências em outros países não passei nenhum apuro. Na leitura dos textos acadêmicos na língua também não. Nem nos blogs, revistas ou livros literários. Mas não tenho a audácia de sair por aí falando que sou ótima em inglês, porque nunca fiz um TOEFL ou tive um diploma que dissesse algo assim.

Só que com três anos eu não sabia nada. Eu falava espanhol na época, a escola ensinava e eu era a melhor aluna. Vivia cantando “la cucaracha” por aí  e meu livro infantil preferido era inteirinho em espanhol e eu sei a história de cor até hoje. Mas não sei falar espanhol. Eu consigo ler a coisa e lembro de algumas regras ortográficas e é só, tentar entender o que eles falam é plenamente impossível, porque é muito rápido e cheio de coisas e eu me perco e fico agoniada. Acabei virando uma pessoa do inglês, embora meu eu infantil duvidasse piamente dessa habilidade.

Com três anos eu sabia que “mãe” era “móder”, com essa pronúncia bem errada mesmo. E que pai era “fáder” e irmão “bróder” e nada além disso. Só que eu sou a mais nova da família e enquanto tinha três anos, eu tinha primos com treze ou mais e eram eles que iam na minha casa quase todo dia e ficavam brincando e conversando comigo. E eu não convivia com gente da minha idade, mas sabia como era o mundo das pessoas com doze ou treze anos e eles viviam fazendo palhaçadas e rindo da minha cara, porque eu devia ser engraçada, sei lá. E, com três anos eu era Deisi.

Por algum motivo que jamais saberei, eu conhecia a frase “what’s your name?”, mas não devia saber o que significava. Provavelmente vi isso em algum lugar, eu não sei o motivo. Meus primos também não sabem. O fato é que todos os dias, antes de ele falar “amucê”, ele me perguntava “mayra, what’s your name?” e eu respondia sorridente “my name is deisi” e todo mundo começava a gargalhar e eu não entendia nada, mas era Deisi. E era feliz.

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