(Des)encantada

O mundo está cinza novamente. Os rostos embaçados parecem apenas esboços do que um dia foram. A cada sorriso falso que sou forçada a exalar, sinto um pedaço da minha alma sendo estraçalhado. Já não há mais motivos para mostrar os dentes. Tal motivo foi exaurido pelo tempo árduo que passa ligeiramente sem dar oportunidade alguma de repensar e tentar mudar algo. Tudo flui. E em meio a esse breu e a essa multidão de rostos indefinidos, algo resplandece. Você. Neste exato momento minha traquéia se abre e o ar passa levemente pelos pulmões, levando oxigênio ao sangue que vai ao coração, que trabalha arduamente não importa o quão escuro esteja aqui fora. Olho para você, portanto e já não o vejo mais. Apenas um rosto definido no meio da multidão, mas vazio ali. Inóspito. Um coração não tão límpido. Olho para você e vejo apenas um reflexo daquilo que um dia se foi. Minha traqueia se fecha novamente. O ar volta a ser pesado e meu coração volta ao normal. Penso que talvez eu possa fazer algo para ajudar-te, possa esquecer de todos os meus não-motivos para ser algo e fazer-te sorrir, sem exigir nada em troca. Lembro-me porém que da mesma forma que já não te reconheço, você provavelmente não saiba mais quem sou. Percebo que meus esforços serão em vão. Não sou suficiente para fazer alguém sorrir. Mas não culpo a você, culpo a mim, por ter visto apenas o seu rosto nitidamente, enquanto há milhares embaçados ao meu redor. Já não sinto cheiro de nada. As cores voltam a desaparecer. Viro o rosto e vejo apenas borrões novamente. Sinto-me apta a voltar a fingir. Armo o sorriso falso de sempre e passo desapercepida, como se nada daquilo tivesse acontecido e você não estivesse ali. Desencantada com o mundo, de novo.

Porque as vezes indiretas são necessárias e até eu apelo a elas. Inutilmente.

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