Cersei, de Game of Thrones, disse para seu filho malvado e insuportável nunca amar alguém. “O amor enfraquece”, ela disse. “Mas você me ama”, ele respondeu. “Você é minha fraqueza”, ela replicou. E eu achei um absurdo. Fiquei boladona, em plena madrugada. Que tipo de mãe diz ao filho que o amor enfraquece? Meu mundo só não caiu porque eu lembrei de Harry Potter, a história bonitinha em que tudo dá certo só porque Lily e James amavam seu neném. O amor pode ser a força também, foi o que aprendi com Dumbledore e sua turma. Só que com o passar do tempo eu comecei a entender a Cersei. Amar pode nos fazer lutar por algo, mas não faz com que a gente seja sensato quanto aos motivos para lutar. Amar deixa a gente bocó. Faz com que abdiquemos o nosso próprio bem estar em prol do outro e no contexto do jovem rei insuportável que eu não lembro o nome e estou com preguiça de procurar (Joffrey?) é plenamente compreensível que isso não seja aceitável.

As vezes eu me identifico com essa linha de raciocínio. Eu sempre tive uma dificuldade absurda em me conectar com as pessoas e sempre detestei que isso ocorresse, porque sempre acarretou em noites irreparáveis de choro ou tortura mental, baseados em descobrir se o amor era recíproco ou não. Se recíproco, a tortura limitava-se ao fato de que eu jamais seria digna de ser amada por qualquer pessoa sem ser da minha família, então tinha que dar um jeito de parar de gostar da pessoa, pra ela parar de gostar de mim e a vida voltar a ser normal. Se não recíproco, a tortura consistia em lamentar o fato de que eu realmente sou inamável.

Não sei lidar com quem gosta de mim porque acho tudo falso e bonitinho demais para ser verdade. Eu recebo e-mails dizendo que “EU TE AMO TANTO QUE NÃO SEI COMO É POSSÍVEL O RESTO DO MUNDO NÃO DE AMAR COM A MESMA INTENSIDADE PORQUE VOCÊ É MARAVILHOSA.” e morro de rir, automaticamente desconsiderando. Ou a pessoa é lunática, ou ela está simplesmente feliz por algo que acabei de fazer por ela. Vai passar. Ninguém é capaz de tornar o ato de amar a mim um estado perpétuo. Sempre é efêmero. E a dualidade que isso causa em mim já é parte da angústia existencial que aprendi a chamar de “vida”.

Só que quando eu passo a gostar da pessoa, a me sentir conectada a ela e a querer estar perto dela a maior parte de tempo da minha vida, imaginar que há 1% de chances de frases como a de cima serem sinceras, faz com que eu durma feliz. E a existência do resto da humanidade faz com que eu fique triste no mesmo segundo. É que quando eu gosto de alguém eu sou bem brega. Cafona mesmo. Eu mando músicas do Wando e do Bruno e Marrone e de Chitãozinho e Xororó e digo que simbolizam o nosso relacionamento. Eu escrevo cartas completamente sem sentido, porque nunca consegui dizer “eu te amo” pra alguém que não fosse da minha casa, sem ser em momentos de euforia e aí me rendo a cartas que poderiam ser resumidas em “eu amo você, por favor se esforce para ser feliz e estar sempre bem porque o seu sorriso é a melhor coisa da minha vida”, mas que nunca são resumidas. Eu escrevo e-mails enorme narrando micro-detalhes da minha existência e todas as minhas crises existenciais, na vã esperança de que a pessoa se importe pelo menos um pouco, porque o pouco dela já me faz transbordar de felicidade.

E eu fico com ciúmes. Eu vejo que as bandas e seriados e vídeos que nós tanto conversamos sobre, na verdade não são só nossos. Vejo que existem outros amigos. Outras pessoas importantes. Tento ponderar “veja bem, ela também não é a única na minha vida”, mas a sensação temerosa de que qualquer um possa vir a ser mais legal e digno de amor do que eu faz com que o medo de perder apareça e a partir daí o desespero começa a tomar conta. De repente estou tentando descobrir quem são as outras pessoas que rodeiam a minha e o que elas têm de mais legal do que eu e deito na minha cama me sentindo a pior e mais possessiva pessoa da face da Terra. Sinto-me o próprio Smeagol gritando “my precious” pra algo que nem é meu, porque é uma pessoa e não um objeto e pessoas não são passíveis de serem possuídas, a escravidão foi abolida e tal.

Aí eu estava vendo The L Word e de repente a Alice, que era super centrada, se torna a pessoa mais maníaca do universo. Ela finalmente consegue fazer com que o amor de sua vida a ame e não sabe lidar com a ideia de talvez perdê-la, então passa a sufocar a pessoa de todas as maneiras possíveis e acaba se tornando insuportável. Alice fica com ciúmes de amigas, ex-namoradas e chega ao cúmulo de pedir para morar junto com a pessoa por pura falta de segurança. Logicamente o relacionamento termina e isso rende uma epopeia de acontecimentos terríveis para Alice, que ficou obsessiva, criou um mural com fotos e todas as lembranças possíveis e passou a perseguir a ex em todos os lugares imagináveis, perdendo a hipótese de ter sua própria vida.

Eu não gosto de gostar de pessoas porque eu tenho medo de virar a Alice. Eu tenho medo de me tornar obsessiva compulsiva a ponto de nunca mais conseguir fazer nada não relacionado a tal pessoa. Essa ideia me atormenta tanto que eu nunca me permiti ser fã de nada, a ideia de ser obsessiva compulsiva por alguém sempre me deu uma aflição terrível. Se eu nunca consegui gostar de verdade de mim mesma, o que me torna apta a ser um peso na vida de outra pessoa? A me introduzir tanto assim em sua existência? A viver mais a vida dela do que a minha? Nada disso faz sentido. Nada disso está certo.

Desgosto do que gosto porque sei que gosto e as vezes acho que o saber é que é o problema. O auto conhecimento é que é o vilão. A ignorância perante si mesmo parece muito mais fácil de ser vivida. Não identificar os problemas é bem mais tranquilo do que tentar lidar com eles. O que os olhos não veem o coração não sente, não é? Eu queria ser cega perante essas coisas. Não perder tempo pensando nelas. Ou aprender magicamente a lidar com elas, porque a vida humana gira em torno da construção de laços sociais e afetivos. Da completude. Do fazer-se bem quisto. E eu não sei se quero ser bem quista. Não sei se sei lidar com isso. Não sei se quero despertar sentimentos tão doentios nas pessoas quanto elas despertam em mim. Não sei se quero me sentir ainda mais vulnerável enquanto busco ser um pouco mais forte.

Desgosto com gosto do gosto de gostar. Essa é a conclusão do dia.

2 thoughts on “Desgostar de Gostar

  1. Má… mais uma vez digo: o quanto somos parecidas! Achei um pouco pesado o seu post, mas acabo no fundo me identificando com muita coisa. Sei que é fácil falar, mas a gente tem que se amar mais. Me encontrei muito nessa frase: “Não sei lidar com quem gosta de mim porque acho tudo falso e bonitinho demais para ser verdade.” e no parágrafo seguinte também. Mas já melhorei quanto a isso. Acho que é muita falta de amor próprio mesmo. Mas eu a entendo muito!
    Beijoos!

  2. Olha fiquei meio sem palavras lendo seu post, eu não sou muito neurótica quando gosto de alguém, muito menos me tornaria no que a Alice se tornou. Mas um dos meus grandes defeitos é ser ciumenta e stalkear muito a pessoa em redes sociais, dói na hora mas deixa com os pés no chão. Na realidade acho que é uma versão um pouco mais amena do que você sente. Ultimamente não quero gostar de alguém por gostar de ser solteira, mas acho todas as coisas em volta da paixão e amor muito deliciosas, acho que não é certo se privar delas por causa das consequencias, acho que só é necessário saber se controlar. E na verdade, acho sim que temos que nos amar antes de amar alguém. beijos!

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