Desilusões

“Qual seu maior sonho?”

“Ficar em recuperação.”

“Sério? Eu fico todo bimestre desde a segunda série e não tem nada de legal nisso”

“Ah, eu nunca fiquei, parece divertido!”

“Então não estude e fique!”

“Mas eu não estudo e mesmo assim não fico.”

Acordar às 10h para ir à aula que começaria às 13h. Não, não era pra fazer tarefa de casa ou estudar para a prova, era pra ver os desenhos legais que passavam naquela hora. Almoçar, ir pra escola, prestar atenção nas aulas, conversar como se esse fosse o intuito principal do ato de “estudar”. Voltar pra casa, ler livros aleatórios, fazer a tarefa de inglês do meu irmão, brincar de barbie, tomar banho, arrumar as unhas, assistir novelas mexicanas, fazer as tarefas de casa e dormir.

Estudar de manhã. Tomar banho e café da manhã antes da aula, o que requeria acordar duas horas antes da mesma iniciar porque lerdeza matinal sempre foi um de meus nomes do meio. Ir pra escola e não entender nada porque não era mais uma escola católica e eu tinha que entender que o mundo foi o resultado de uma grande explosão e que eu na verdade fui um macaco. Mudar tudo que fui ensinada a acreditar com o intuito de ser capaz de passar de ano. Fazer péssimas amizades. Espancar pessoas. Manipular a diretora. Voltar pra casa e dormir a tarde inteira, acordar e assistir filmes ou conversar no MSN. Brincar de Barbie, escondida porque já não era mais criança.

Estudar de manhã, desistir do banho e ficar só com o café da manhã. Pegar ônibus com o irmão e frequentar a escola mais fácil da vida. Não prestar atenção em nada, ficar conversando e lendo coisas aleatórias. Ir bem sem fazer a menor ideia de como. Teatro, natação e aula de inglês. Novelas mexicanas, músicas e unhas pintadas cada dia com uma cor diferente.

Estudar de manhã em uma escola difícil, chegar atrasada quase todos os dias e conseguir ir bem contra tudo o que esperavam. Passar de ano com notas fenomenais sem nunca ter encostado em um livro, sabe-se lá como. Passar as tardes absurdamente encantada com o universo teatral e escrevendo mil e uma histórias, enquanto lia meus mais de cinquenta livros anuais e imaginava um mundo em que eu pudesse apenas fazer isso ao longo de todos os dias.

Estudar de manhã e ter preguiça de tomar café e de estudar e de prestar atenção. Dormir na aula pela primeira vez na vida e em seguida faltar aulas e mais aulas para ir a uma praça perto da escola acompanhar os “amigos errados”. Conseguir, finalmente, a primeira recuperação da vida, na matéria que sempre foi a mais odiada por não fazer nenhum sentido, afinal, qual a utilidade de saber de que uma célula é formada? Passar por essa recuperação e virar freguesa das mesmas, que me acompanharam por todos os bimestres ao longo do ensino médio inteiro. Pegar duas recuperações finais por causa de um décimo e ter vinte dias a menos de férias por isso, sendo motivo de piada do professor que jamais acreditou que era eu naquela situação. “Você desistiu de estudar?” “Não! Eu nunca estudei!”

Ter 14 anos e trocar e-mails com sua melhor amiga, no auge da revolta falar que “tô tão puta que nem vou estudar pra essa coisa de vestibular e aposto que mesmo assim eu passo!” e receber bronca e uma resposta “quero ver você falar isso daqui a três anos” e eu não falei. Mas também não estudei. Eram oitenta perguntas e eu precisava acertar trinta pra passar, era impossível que eu fosse tão burra assim. Não estudei e passei em uma boa posição, porque ENEM – essa prova linda – existe e porque eu escrevo mil e uma histórias e afins desde que tinha por volta de onze anos.

Faculdade. 120 páginas em textos para serem lidos em dois dias na primeira semana, sendo um dos textos de Focault, aquele filósofo que eu nunca entendi. Continuei sem entender e não entendo até hoje, diga-se de passagem. Li todos os textos e fiz todas as provas após estudar um monte. Greve. Quatro meses longe daquele universo. Quando voltei nada mais foi o mesmo. Nunca mais consegui ler um texto x para a aula de amanhã. Passei a acumular tudo para supostamente ler na véspera da prova e quando a véspera da prova chegava eu olhava pras quase mil páginas acumuladas, chorava, lia meu caderno e tentava encarnar alguma pessoa inteligente que saberia responder àquelas perguntas.

E eu passei. Em todas as matérias. Fiz vários trabalhos durante a madrugada porque tinha esquecido da existência, demorei meses a fazer outros porque queria que fossem perfeitos, esqueci de fazer alguns, fiz outros baseando-me em resumos dos textos que encontrei na internet. Tudo mal feito. Tudo nas coxas. Tudo vergonhoso. Tudo pra fazer a pessoa que fui aos treze anos morrer de vergonha.

Aí eu reprovei.

É isso.

Oi, eu tenho dezenove anos e acabo de reprovar em uma das matérias mais fáceis que já tive a oportunidade de fazer porque sou incompetente e ao invés de prestar atenção nas aulas eu dormi. Dormi, saí para passear, fui para o laboratório de informática, fiquei na cantina, no pátio, na biblioteca, em centros acadêmicos que nem eram do meu curso, em casa, ou lá mesmo, mas com a cabeça em qualquer outro lugar. Reprovei porque a primeira prova da matéria foi no mesmo dia que a prova da matéria que envolve matemática e, dado meu histórico de ensino médio nada confiável neste quesito, resolvi que iria estudar para esta. No fim, a prova que envolvia matemática era mais fácil que a outra porque a matéria teria 5 avaliações, enquanto que a outra teria apenas duas. E daí eu fui pessimamente mal na primeira prova e fiquei com preguiça de estudar para a segunda, porque minha procrastinação e preguiça são agudas o suficiente para eu surtar ao ler a primeira frase de um texto de uma matéria que eu sei que nada sei e que não vou passar mesmo que eu tente, então, bem, pra que tentar? E daí eu nào tentei. Não estudei. Fiz a prova de qualquer jeito. A matéria é importante demais para que eu passe sem saber nada, pensei, melhor fazer de qualquer jeito e refazê-la decentemente algum dia. Mamãe concordou com minha linha de raciocínio. Eu deveria estar aliviada. Tudo deu certo. Eu realizei meu sonho. Eu reprovei. Eu. A pessoa que tentou suicídio por ter tirado 6,8 numa prova que valia 7 porque isso faria com que eu não ficasse com 10 na média. Eu. Atingi o nível de desprendimento para com notas que sempre almejei e simplesmente reprovei. Porque eu quis. Porque eu não quis. Porque tive que. Reprovei. É isso. Pronto. Satisfeitos?

Podem rir da minha cara agora. Ou não.

Enquanto passa pela cabeça dos que me conhecem que eu devo estar absurdamente destruída e que “ah, agora ela vai levar a vida a sério”, não. Eu passei a tarde dormindo, depois de ter comido um monte de chocolate e estou prestes a ir comer de novo e a terminar de ler um livro legal para, quem sabe, durante a madrugada terminar algum dos mil e um trabalhos que tenho que entregar na semana que vem. Ok. Reprovei em uma matéria, não quero reprovar em todas, mas não preciso ser super nerd. Não preciso ler todos os textos, saber todas as coisas e ter notas impecáveis. Eu não preciso provar pra ninguém que sou capaz de alguma coisa, eu prefiro a ilusão de que talvez se eu me esforçasse eu seria a melhor aluna do mundo, mas como não me esforço devo contentar-me com o comum. Qual o problema no comum?

Sim. Estou chateadíssima por ter reprovado, porque eu sempre quis reprovar, mas tinha que ser numa matéria difícil pelo menos. Duvido que eu consiga me concentrar para fazer decentemente algum dos meus outros trabalhos porque isso vai ficar martelando na minha cabeça ad infinitum e eu vou me deprimir e vou chorar e me entupir de chocolate e agir como se nada tivesse acontecido enquanto dou risinhos nervosos.

Cadê os abraços e as palavras amigas?

0 thoughts on “Desilusões

  1. Ai May, você é muito única, HAHAHAH. Quem sonhava em ficar de recuperação, meu Deus? Se eu um dia reprovar na minha vida eu fico transtornada e tenho um infarte com o boletim na mão, certeza! Mas que bom que você tá tranquila. Mantenha a tranquilidade e siga sorrindo. Coma chocolates. HAHAHHA
    Beijo! <3

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