Devaneios de uma alienígena.

Eu estudo na escola mais cara dessa cidade. Convivo com filhos de políticos, grandes médicos, advogados, psicólogos entre outras categorias renomadas e super valorizadas pela sociedade atual. Sou obrigada a saber sobre os produtos da apple, porque falam tanto neles, que acaba sendo impossível desconhecê-los. Convivo com problemas de origens extremamente fúteis, como entrar em pânico por não ter conseguido comprar um vestido novo para ir a tal festa ou chorar por não ter conseguido um camarote para o show tal. Enquanto isso, vivo numa família de classe média, com um pai desempregado e uma mãe aposentada, em que meu irmão foi obrigado a trabalhar mais cedo para ajudar no sustento da casa. Por causa da escola cara, somos impedidos de fazer muitas coisas, frequentar muitos lugares e até “organizar” a casa do jeito que minha mãe desejaria. Mas, a educação é importante e sob o ponto de vista dela, é melhor estudar numa boa escola do que ter uma casa bonita. Não discordo. O visual da minha casa não me incomoda nem um pouco, muito pelo contrário, eu ficaria demasiadamente incomodada caso fosse uma casa enfrufruzada e cheia de frescurinhas. Estou tentando dizer que me sinto completamente deslocada naquela escola. Uma alienígena. Completamente estranha. Em um lugar que não me pertence. Não reclamo, porém, porque acredito realmente que a educação seja importante e que infelizmente na atual conjuntura do país, o ensino público é muito inferior e não traria o mesmo alicerce que o pago trás. Infelizmente. No entanto, não estou aqui para reclamar do meu ambiente escolar. Depois de cinco anos naquele lugar, passei a aprender a conviver com aquele tipo de gente, adaptei-me e até entro nos assuntos que considero fúteis. Meu irmão sempre diz que eu deveria estudar na escola pública da esquina, porque não há melhor ensinamento do que a vida e a vida burguesa das escolas particulares é completamente mascarada. Uma realidade fictícia. Um mundo visto sob lentes cor-de-rosa. Talvez ele esteja certo.

É ano de vestibular. Sim, mais uma vez estou aqui falando sobre isso. Não porque me importo com o vestibular, não porque acho que ele vai decidir o meu futuro, não porque estudo desesperadamente para ser aprovada nele. Não. Apenas porque é um assunto que me deixa indignada das mais diversas maneiras possíveis.

É ano de vestibular e as pessoas estão decidindo que caminho seguirão em suas vidas. A preocupação principal é aliar algo que goste de fazer, com algo que lhe proporcione bom retorno financeiro. Todos falam sobre isso. Vi muitos musicistas desistirem de seus sonhos por não o considerarem economicamente satisfatório. Vi muitas pessoas desistirem dos sonhos mais diversos simplesmente por crerem que tal profissão não propocionaria a ele uma vida bem sucedida. Acredito que grande parte desse pensamento seja advinda justamente dessa família bem sucedida. É impossível que um grande empresário aceite que seu filho não quer fazer faculdade, quer virar hippie ou qualquer coisa assim. Eles querem filhos tão bem sucedidos quanto eles. Querem propagar a espécie. É o instinto animal falando alto. Sinto-me completamente alheia a isso. Dinheiro não me apetece. Talvez por viver numa família que não liga muito para isso, talvez por perceber que uma boa conta bancária não significa uma vida plena e feliz. Não sei. Só não consigo sequer pensar em planejar meu futuro baseando-me em “dinheiro”.

Quando eu era criança imaginava-me milionária. Uma super atriz, vencedora de vários prêmios, com uma super mansão em cada uma das cidades legais do mundo, cheia de filhos e que ficava revezando entre as casas, para diversificar a cultura e o modo de analisar as situações. Ultimamente quando paro para imaginar o meu futuro, quando penso onde estarei daqui a 10 anos, imagino-me com uma calça larga, uma camiseta regata justa, um cabelo completamente bizarro, o rosto cheio de rugas causadas pelo Sol, um sapato “de velha”, ao lado de um trailler em um acampamento. Vejo-me com uma banca de livros, vendendo-os para conseguir dinheiro suficiente para alimentar-me e pagar a gasolina. Vejo meus filhos voltando de mais um dia na escola, que eles frequentam na cidade dos avós, onde moram, enquanto eu viajo por aí e os carrego nos finais de semana, férias, feriados. Os filhos mais velhos ao meu lado, lendo filósofos clássicos e estudando sobre as coisas mais diversas possíveis, enquanto os mais novos brincam e correm. Vejo uma grande fogueira com uma grande família ao redor, fazendo mashmellows assados e comendo-os, junto com alguns coelhos que caçamos por aí e outros animais da região. Vejo-nos dormindo empilhados em nosso trailler, como uma família grande e feliz. Vejo-me não como apenas mais uma estudante no mundo, uma pessoa que resolveu fazer da vida um grande objeto de estudo. Vejo-me estudando a sociedade através da minha vida, da minha família. Construindo grandes alicerces, simples, mas profundos. Relações de amor. Não só entre eu e minha família, entre todas as pessoas. Vejo-me fisicamente dilacerada, por doar-me tanto ao serviço da vida. Vejo-me ajudando as pessoas, simplesmente por fazer. Fazendo peças de teatro por aí, ensinando música popular para as crianças, dando reforços de matemática ou qualquer outra coisa. Sem pensar no retorno financeiro de tais ações, apenas concretizando-as.

Não vejo sentido em estudar até os vinte e poucos anos, trabalhar até os sessenta e só então ser livre para viver a vida. Talvez eu faça de cada uma das minhas viagens uma grande pesquisa e me fixe em alguma cidade por algum tempo, para publicar minha pesquisa e tentar mudar o mundo através do sistema também. Não quero ser contra o sistema, longe de mim. Só não consigo me ver presa à terra. Talvez minha infância nômade tenha gerado cicatrizes um pouco mais profundas do que meus pais pensam. Eu gosto dessa ideia. De ser livre por aí. As pessoas pensam em juntar dinheiro para comprar uma casa, um carro, um cachorro e depois gastar muito dinheiro com móveis e apetrechos que enriqueçam a casa. Eu me vejo com um trailler. Só quero dinheiro para isso. Depois dele, posso até viver sedentariamente em algum momento, mas em casas alugadas, para poder mudar-me sempre que tiver vontade. Não vejo sentido algum em acumular bens materiais, em ter várias roupas etc. Não quero viver longe da tecnologia, o que seria de mim sem ela? Preciso ver meus filmes, ler meus e-books, blogs e afins. Preciso de um computador para escrever, porque é escrevendo que consigo transparecer tudo que gostaria, ser quem eu sou, sem medo algum. Só não consigo pensar em dar aula sempre no mesmo lugar, fazer sempre a mesma coisa. Rotinas cansam. Não vejo necessidade delas. Para que dinheiro? Vale mesmo a pena trabalhar a vida inteira para estar velho demais para usufruir tudo que economizou quando tiver disponibilidade para isso? Trabalhar para deixar seus filhos com uma vida boa? Desculpem-me, mas 70% das pessoas da minha escola sofrerão muito quando forem lançadas no mundo real, aquele que não gira em torno delas e que ser filho do fulano não vai adiantar em nada. Mais uma geração de super-protegidos é o que realmente precisamos?

Entristeço-me com essas coisas… Considero tais pensamentos fúteis e superficiais. Metódicos demais, sistemáticos demais, alienados demais. Não me vejo inserida nesse sistema. Não me vejo trabalhando em algo “sério”. Vejo-me fazendo qualquer coisa, menos isso. Talvez meu sonho do trailler não se concretize e eu vire uma atriz frustrada como muitas outras, que mora em uma kitnet porque nunca conseguiu criar relações profundas o suficiente com alguém. Talvez eu vire uma professora chata e frustrada, que cria gatos e bebe para esquecer da vida. Talvez eu seja corrompida das mais diversas maneiras possíveis. Só sei que muitas coisas podem acontecer na minha vida e eu concluí que devo estar aberta a elas, disposta a encará-las, sem preconceitos e julgamentos. Deixar as coisas acontecerem. Acho que com toda minha experiência de vida até agora, posso dizer que sou um camaleão, não porque meu cabelo muda de cor constantemente, porque me adapto às mais diversas situações com uma facilidade incrível. Vivo nos mais diversos meios sem me impressionar muito com eles. Admiro essa qualidade em mim mesma, pretendo explorá-la.

Talvez esse texto não faça o menor sentido e ninguém tenha paciência de lê-lo por inteiro e talvez quem o ler não reflita sobre nada e continue levando sua vidinha normal de sempre, mas eu tentei. Tentei passar a minha ideia de que um salário de vinte mil reais não vai te deixar mais feliz do que o brilho nos olhos de alguém que aprecie o seu trabalho. A nossa meta de vida deve ser encontrar pessoas, amá-las. Amar, como se nada mais fizesse sentido. Dinheiro pode até ser útil, mas é algo secundário. Todos sabemos que ele é necessário, mas é possível viver com pouco e ser mais feliz do que os que vivem com muito. Acredito no amor utópico, embora tente desvencilhar-me dele das maneiras mais diversas possíveis. Acredito que amar é a melhor maneira de viver. Por isso me vejo dilacerada daqui a dez anos. Sugada, como se cada uma das pessoas que eu amo roubasse um pouco do meu sangue, um pedaço do meu coração. Na verdade elas realmente fazem isso. Vejo-me dilacerada porque nem 10% das pessoas que amo retribuem e a não retribuição dos outros 90% é capaz de estraçalhar-me.

Porém, sei que mesmo que eu seja pobre, feia, tosca e chata, terei a minha família. Os meus pais, irmãos, sobrinhos, meus 10 tios, 50 primos e todos os agregados e futuros descendentes que virão. Sei que onde quer que eu vá haverá alguém por mim, que faça tudo valer a pena e que mesmo que os olhos de mais ninguém brilhem ao me ver, os deles brilharão e isso é o suficiente. Pelo menos por enquanto.

Acredito piamente que mesmo tendo uma renda deveras inferior à do resto das pessoas da minha escola, o amor que minha família transmite torna-me infinitamente mais feliz e se a felicidade é o nosso objetivo aqui, isso é o suficiente. O amor é suficiente.

0 thoughts on “Devaneios de uma alienígena.

  1. Mayra, lindo. Sabe, a Sônia falou uma vez, na aula de ética, uma frase de um livro, que eu não lembro que livro é, mas a frase é apaixonante, e me marcou MUITO: “As pessoas que amam o que fazem são aquelas que fazem o que amam”. Simples, mas a gente demora tanto pra perceber. É aquela história do “trabalhe com o que ama, e você nunca trabalhará.” Eu fico pensando nisso quando assisto uma peça de teatro e morro de vontade estar no palco, ou quando me apaixono pela peça que estou fazendo e me entrego completamente. Sou tão inteira ali. Se um dia eu GANHAR por isso, serei mais que realizada. Um dia, deitada no chão da sala de aula, a Airen sentou de sopetão e falou: “Gente, eu amo o meu trabalho. Vocês já viram alguém trabalhar DEITADO no chão da sala?” E é assim. Teatro é tão amor. E no fim, como você disse, amor é suficiente.

  2. Nunca tinha lido esse post, acredita nesse absurdo?
    Sabe-se lá porque você lembrou de mim relendo, mas que foi divino, foi! Li tudinho pensando em como eu conhecia cada sentimento desses. Quando eu estava tentando decidir o que fazer da vida, pensava exatamente assim! A ideia de estar em um escritório muito bem decorado, com pessoas muito sérias e com o ego no céu, fazendo algo em que eu não acredito me assustou sempre e continua assutando. NÃO QUERO!
    Não quero esse sentimento de frustração de ter feito minhas escolhas baseadas em dinheiro, pra depois eu ser vazia como a maioria das pessoas que eu vejo por aí.
    Pode parecer contraditório, já que eu acabei escolhendo Relações Internacionais, que é tido como um dos cursos que “dá dinheiro”. Aliás, eu sempre ouço um “que chic, vai ser rica” quando fala que estudo RI. Mas acho isso uma tremenda babaquice e é por isso que não gosto e metade das pessoas da faculdade. Tem muito ego, muita ambição.
    Mas eu sabia que seria assim. É por uma causa maior: fazer algo que realmente mude um pouco o mundo. Ir mudando o mundo que está ao alcance da nossa mão pra no final, alguma diferença ter sido feita. E é claro que isso fica ainda melhor se eu puder viajar o mundo todo. Não em hotéis cinco estrelas, não só na Europa. Eu quero ir pros lugares mais ferrados do mundo, onde tem miséria e fome. Que botar a mão na massa.
    Vejo você por aí no seu trailer então! 🙂
    Beijo! <3

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