Diário de Bordo

Assim que minha mãe retornou de viagem foi logo me informando que passaríamos um final de semana em São Paulo, para assistir as apresentações da minha tia. Tudo bem, sorri e concordei. Iríamos de avião e voltaríamos de ônibus, no entanto o avião estava mais barato que o ônibus e acabamos comprando passagens aéreas de ida e volta.

Sábado saí mais cedo da aula para ir correndo ao aeroporto, embarcamos tranquilamente e chegamos em Congonhas na hora prevista. O detalhe é que estávamos eu e minha mãe, soltas em São Paulo e isso não é algo muito confiável, tendo em vista que somos capazes de nos perder na esquina de nossas casas.

Saímos do aeroporto em busca do ponto de ônibus que nos levaria até a casa da minha tia, que tinha nos explicado mais ou menos como chegar lá. Pegamos o ônibus certo, seguimos as instruções e quando chegamos no nosso ponto, ela estava nos aguardando para nos guiar até sua casa. Senti-me segura e tudo estava bem.

Fomos até a casa dela, comemos e logo era a hora de nos encaminharmos ao teatro. Tia Ila aposentou-se e resolveu ser atriz, fez uns cursos aqui em Curitiba mesmo, mas resolveu ir para São Paulo viver artisticamente. Faz dez anos que ela mora por lá e agora faz parte de um grupo de teatro que adapta obras literárias que caem no vestibular e as apresenta para escolas e afins. Minha tia participa de três peças e neste fim de semana haveria uma apresentação de cada uma, então fomos assistí-la, porque eu nunca tinha ido e porque cai no vestibular, né. O detalhe é que ela tem quase 70 anos e eu fiquei simplesmente boquiaberta com sua habilidade artística, o fato de ela saber todos aqueles textos e atuar muito bem para quem nunca fez cursos extensos a respeito! Fiquei super orgulhosa dela e tal. Nesse dia, que era sábado, ela apareceu somente em uma “O Cortiço” e foi super interessante assistir a essa peça, no entanto a segunda do dia – “Vidas Secas” – foi linda! Tinha uma iluminação maravilhosa e a história era muito interessante e bonita. Amei.

Depois dessas peças voltamos para casa, jantamos e fomos dormir. Domingo acordei já era 12h, fui obrigada a tomar café da manhã e depois disso minha tia nos disse que gostaria de passar o dia sozinha para se concentrar para as duas peças da noite, então nos ensinou a pegar um metrô que nos levaria a um shopping onde deveríamos almoçar e permanecer durante a tarde, até a hora de ir para o teatro, que aprendemos a ir de metrô também. Mamãe e eu nos encaminhamos até o tal shopping, passamos uma hora dentro de uma loja de decoração (uma de nossas maiores fontes de diversão em shoppings, perdendo apenas para as livrarias e o cinema) e depois resolvemos comer. Quando terminamos, olhamos uma para a cara da outra e concluímos que não estávamos afim de disperdiçar um dia lindo e ensolarado como aquele dentro de um shopping, então resolvemos entrar num metrô e vermos se tinha algum lugar legal para ir com ele. Acabamos parando na Liberdade, subimos a estação e nos deparamos com uma feira, no meio de uma praça. Mamãe e eu adoramos feiras, então nossa tarde estava feita. Para melhorar era uma feira com coisas típicas do Japão e além disso as ruas da região eram todas repletas de detalhes de arquitetura japonesa, super lindo de se ver. Senti-me em um matsuri que não era um matsuri, foi super legal. Pra completar ainda tinha um monte de lojas de chineses por perto, cheia de coisas baratas e divertidas, supimpa para que passassemos o resto da tarde inteira observando. Mamãe comprou uma saia daquelas que hippies usam, super longas e franzidas e acabou puxando papo com a vendedora que nasceu numa cidade próxima da que meu pai nasceu e que não se adaptou à vida paulistana, por isso mora numa cidade perto que só tem mato e vai para São Paulo só nos dias de feira. Achei super interessante a vida dessa mulher.

Enfim, fomos andando por uma rua que se chamava “Galvão Bueno” e eu juro que fiquei pensando seriamente em que o Galvão Bueno fez de bom para o mundo para merecer uma rua em seu nome, sem ser narrar futebol, mas minha tia disse que o nome não foi dado em homenagem a esse Galvão Bueno. Menos mal. O fato é que nessa rua tinha um tal “Jardim Oriental” que era a coisa mais linda do universo e que a gente não foi até o fim para não ficar muito arrependidas pelo fato de não termos levado a máquina fotográfica. Pelo menos agora temos uma boa desculpa para voltar àquele lugar que gostamos tanto! Mamãe disse inclusive que quando eu for morar em SP ela vai querer morar perto da Liberdade e estava até planejando onde seria sua barraca na feira. Pois é.

O tempo passou e tivemos que ir embora dali. Pegamos o metrô rumo ao teatro e descemos num lugar chamado “República“, que tinha outra feira! Essa estava fechando já, infelizmente, mas mesmo assim fomos até lá dar uma olhadinha. Tinha uma barraca com umas calças muito legais, mas eram enormes e caras. Super triste. No fim, desvencilhamo-nos da feira e andamos rumo ao teatro. Acabamos nos deparando com uma Igreja e era Domingo e mamãe é extremamente católica, então acabamos entrando na tal Igreja, que se chamava “Igreja da Consolação“. Achei super linda! Era toda pintada, os tetos, as paredes, tudo. Detalhadamente pintado, bem trabalhado, extremamente bonito, mesmo! O mais engraçado, porém, era o fato de ser uma Igreja relativamente pequena para a cidade e ser do tamanho da Catedral de Curitiba, que é a maior Igreja daqui. Depois de ficarmos alguns minutinhos assistindo uma missa – na verdade eu estava sentada porque meus pés estavam me matando – levantamo-nos e caminhamos rumo ao teatro!

Chegamos lá em cima da hora, trocamos nossos ingressos e fomos assistir a “Dom Casmurro“, peça essa que eu já havia visto três montagens diferentes, mas nunca uma que mantivesse exatamente as mesmas palavras que o livro, o mesmo vocabulário complicado e que transmitisse exatamente o que eu sempre imaginei enquanto lia essa tão admirável obra do querido Machado de Assis. Minha tia estava linda como Dona Glória, fiquei super orgulhosa a assistindo, foi realmente legal! Depois que essa peça acabou, veio a outra que se chamava “Memórias de um Sargento de Milícias“, juro que a história é completamente diferente dessa coisa “séria” e “chata” que o nome nos faz imaginar, na verdade foi a peça mais engraçada dentre as quatro que eu assisti e achei realmente interessante, pretendo ler esse livro em breve! (Nunca li porque sempre achei que seria alguma coisa chata sobre histórias de guerras contadas por um velho reservista)

Acabada essa peça, ficamos esperando minha tia sair e enquanto isso mamãe aproveitou para conversar com um menino que estava sentado ao nosso lado. Ele era bonito, com um ar de surfista e tinha visto as duas peças do dia, na primeira fileira, tendo sido convidado a subir ao palco na segunda. Mamãe conversou com ele sobre diferenças culturais e sei lá mais o quê e o menino ficava com aquela cara de “Preciso ir embora“, mas ela não se tocava e eu ali do lado morrendo de vergonha, lógico, porque ao contrário dela, eu fui criada em Curitiba e aqui você nunca puxa papo com desconhecidos, em hipótese alguma. Então, para mim aquilo foi um grande absurdo e quando o menino foi embora minha mãe ainda me disse que eu deveria ter sido mais simpática porque ele era da minha idade e fazia teatro. Sem comentários.

No fim, fomos para casa e nossa janta se estendeu até duas horas da manhã, quando resolvemos parar de conversar sobre todas as coisas possíveis e imagináveis e resolvemos dormir, finalmente. Nossas duas horas de conversa foram extremamente construtivas, diga-se de passagem, porque eu nunca tinha parado para pensar em todas as dificuldades que a minha tia enfrentou para que pudesse ser atriz e ser reconhecida por sua família, muito conservadora que ia assistí-la apenas para prestigiá-la, porque era apenas uma terapia para ela. A dificuldade que ela enfrentou para ser reconhecida como atriz de verdade, para que a encarassem como profissional foi algo extremamente interessante de se ouvir, mesmo porque me ajudou a entender que quando eles acham que eu faço teatro para brincar não é por mal, simplesmente foram educados a pensar que arte nunca pode ser profissão, sempre hobby. Tolos. Sorte minha que por causa das peripécias da tia Ila eles vão aceitar mais facilmente quando eu resolver fazer meu intercâmbio para estudar cinema francês.

Enfim. Dormimos e quando era oito horas da manhã minha mãe me acordou dizendo que eu deveria levantar pois iríamos procurar meu vestido de formatura. Deus sabe o quão ansiosa para encontrar esse vestido eu estava. Minhas amigas sabem que falo dele desde o começo do ano e que meu principal objetivo nesse ano é ter uma formatura linda e maravilhosa, com um vestido maravilhoso, uma maquiagem impecável e o cabelo perfeito. Sim, porque eu sonho com meu baile de formatura desde a quinta série e ele tem a obrigação de corresponder às minhas expectativas. Tanto que até entrei na comissão de formatura, tudo para ter a absoluta certeza de que meu baile será perfeito e vai ser, mesmo que eu não tenha um par e tenha que dançar com o meu irmão, é.

Enfim. Tomamos café da manhã e fomos para a rua José Paulino, uma rua repleta de lojas que vendem roupas. Foi a manhã mais bizarra da minha vida porque eu olhava para toda vitrine e pensava “Queria ser milionária para poder comprar todas essas roupas” e bem, eu não sou consumista, não gosto de roupas, não ligo para moda e abomino pessoas que são ricas demais, porque creio que quando tudo é fácil você não valoriza e a vida fica muito mais sem graça quando você pode ter tudo o que deseja. Enfim, passeamos por uma rua imensa, enorme, inacabável, repleta de roupas lindas e maravilhosas e não podíamos comprar nada porque estávamos procurando exclusivamente meu vestido de formatura. Vestidos, havia muitos vestidos bonitos naquele lugar! De todos os preços possíveis, para todos os gostos possíveis, vestidos lindos e maravilhosos e eu, que sempre amei vestidos, me sentia péssima por não poder carregá-los todos para a minha casa. O interessante foi descobrir que a Moda Verão desse ano é simplesmente maravilhosa! Vestidos rodados com bastante renda e estampas de flores, abuso de algodão e cores fantásticas! Isso sem contar na redundância de Lesies, babados e rendas. Sério, eu dormi noite passada sonhando em como seria ter pelo menos um daqueles vestidos maravilhosos para mim. Tinha saias super legais também e casacos, blusas, tudo que você imaginar. Sério, aquela rua é o sonho. Pretendo voltar lá quando tiver juntado bastante dinheiro porque as coisas não são assim super baratinhas…

Andamos a rua inteira entrando em todas as lojas, provando milhões de roupas e quando fomos na última loja e não encontramos o meu vestido eu já estava desanimada e com vontade de voltar correndo para casa. Percebemos então que tínhamos andado apenas do lado esquerdo da rua e ainda havia o direito inteiro para ser explorado! Foi aí que resolvemos atravessar e na primeira loja que entramos a magia aconteceu. A vendedora era super legal, olhou para mim e pegou todos os modelos de vestido que achava que ficariam bons em mim e foi trazendo, provei muitos vestidos e ela arrumava todos no meu corpo, dizia onde precisaria fazer o ajuste, a cor do sapato e até dava dicas de cabelo e maquiagem. Vesti muitas roupas, muitos vestidos magníficos, mas nenhum deles era o meu vestido. Não tinha rolado a química. Então, quando eu estava quase desistindo e comprando o menos pior só por estar cansada demais de ficar andando naquela rua interminável, ela apareceu com o vestido perfeito. Provei e ficou tão bom que não precisava nem fazer ajuste e isso é impossível, considerando que eu sou magra, desengonçada, torta, despeitada e extremamente pequena, mas ele serviu, perfeitamente. Então não tive dúvida, aquele era o meu vestido. Experimentei todas as cores que tinha e acabei escolhendo aquela que eu tinha sonhado que seria a cor do meu vestido de formatura. A felicidade foi imensurável. Saí daquela loja me sentindo tão bem e feliz que o cansaço até foi embora e percorri o resto da rua sem nem reclamar. O melhor foi que além do meu maravilhoso vestido, também encontramos um lindo para a mamãe e agora nós duas temos vestidos perfeitos para a minha formatura! Não vejo a hora do dia 17/12 chegar! *-*

Acabamos voltando para casa, encontrando a minha tia, almoçando e depois resolvemos passear na 25 de Março, porque mamãe sempre diz que ir em São Paulo e não passar na 25 não é ir em São Paulo. Descemos na estação São Bento e Jesus amado, a ladeira que temos que descer ali é muito íngreme, é horrível! Não sei como tem gente que se dispõe a subir aquela ladeira todos os dias. Sim, para chegar até a 25 devemos descê-la, mas para retornar à estação devemos subí-la e não vejo um modo não dolorido de fazer isso. Passeamos pela 25, mas não achamos nada de divertido por ali, nada legal, que fizesse nossos olhos brilharem ou nos dessem vontade de retornar àquele lugar. Sinceramente? Não era a mesma 25 que eu frequentava na minha infância, quando fazia papai gastar fortunas com canetas coloridas e cadernos da barbie para mim. Agora não tinha a menor graça. Por isso logo fomos embora e nos arrumamos para irmos ao aeroporto, onde pegaríamos nosso avião de volta para a nossa terra.

Fomos de metrô até o lugar que tinha um ônibus executivo que nos levaria até o aeroporto de Guarulhos, super emocionante. Entramos naquele aeroporto enorme e nos encaminhamos até nossa sala de embarque, lá percebemos que ainda faltava muito tempo para que o avião chegasse, então resolvemos ir comer alguma coisa. A sala de embarque doméstico de Guarulhos é péssima no quesito refeição. Enquanto do outro lado, o lado do embarque internacional, os restaurantes eram bonitos e tinham cara de ter comidas deliciosas, no nosso lado tinha uma cafeteria – que estava lotada – e nada além disso. Mas eu estava com fome e por isso nos dispomos a gastar uma tremenda fortuna em um lanchinho mequetrefe. Mamãe comeu um Cookie e um Capuccino e eu um Muffin e um Mocha. Eu adoro tomar Mocha e estava morrendo de vontade de tomar o da Starbucks, mas não passamos por nenhuma Starbucks, então tive que aceitar o daquela cafeteria mesmo. O detalhe é que a mesa em que estávamos era bamba e quando eu coloquei os cafés lá e mamãe parou de conversar com a moça da mesa ao lado (Porque sim, ela é tão comunicativa que sai conversando com qualquer um que dá trela e eu morro de vergonha disso)  o café dela derrubou um pouquinho, eu só olhei e disse “Eia mãe…“, assim que fechei minha boca, porém, o meu café desabou, inteirinho. Segundos depois minha calça estava encharcada de Mocha, eu estava fedendo café e quando fui olhar para o copo, a procura de um golinho que fosse, só para matar a minha sede e ânsia por beber aquela coisa deliciosa, notei que não havia mais nada. Uma fortuna desperdiçada. Imediatamente fiquei vermelha, não sabia o que fazer, estava toda encharcada, minha bolsa estava encharcada, assim como o chão, a mesa, a cadeira, tu-do. Mamãe olhou, pediu um pano úmido e foi tentar limpar minha calça – em vão -, acabamos limpando apenas a bolsa e a funcionaria da cafeteria se encarregou de limpar o chão, a cadeira e a mesa. Enquanto isso, mamãe já tinha ido pedir um novo Mocha para mim e quando ele chegou e eu tomei o primeiro gole estava feliz novamente, olhei para ela, sorri e agradeci. Estava tudo bem. Terminamos de comer e quando fomos nos levantar para ir até o lugar do embarque, notei que minha calça estava realmente encharcada, eu estava realmente fedendo café e não tinha a menor condição de entrar num avião encharcada e fedendo daquele jeito. Não havia outra calça na minha mala, as calças da mamãe não me servem, então lembrei-me da saia que ela havia comprado na feira da Liberdade, sim, porque eu não ia colocar meu vestido de formatura numa situação dessas. Então, fomos até o banheiro, tirei a calça molhada, passei papel úmido nas minhas pernas para tirar o melado, acabei tendo que limpar também os sapatos e tirar as meias que estavam completamente sujas de café, enxuguei-me e coloquei a saia dela. Aquela coisa azul, enorme, hippie e que me dava uma sensação esvoaçante imensa, que somada à sensação de “Estou ridícula e está todo mundo me olhando” tornou tudo ainda mais desagradável. Para completar a situação, enquanto terminava de ajeitar aquela sala imensa em meu pequenino corpo mamãe me olha e diz “Isso aí! Estás treinando para ser socióloga!“, então eu olhei para ela, com a cara mais vermelha que consigo ter e implorei para que parasse de me zoar porque tudo já estava humilhante demais.

Saímos daquele banheiro, eu com aquela terrível sensação de desconforto rezando para que entrássemos logo no avião e eu pudesse finalmente me deitar na minha poltrona da janela e dormir até chegar em casa, onde dormiria um pouco mais e me levantaria saltitante para ir para a escola, onde ninguém saberia que um dia usei uma saia longa e hippie e eu poderia ter uma vida normal. O avião chegou e enquanto estávamos na fila para entrar, fui olhar os lugares e descobri que era minha mãe quem estava na janela, então eu disse que lá dentro a gente trocaria, porque só sei viajar se for na janela e tudo bem, entramos. Nossas poltronas eram 13A e 13B, fui andando e procurando e quando chego na 12 e preparo-me para sentar na próxima fileira, reparo que a próxima era a 14. Passo o meu olhar por aqueles números várias vezes seguidas e minha mãe diz “Anda, senta logo!“, então eu lhe explico que da fileira 12 pula para a 14, não tem a 13 e nós não temos um lugar no avião e ela fica indignada, chama um comissário que nos manda sentar na fileira 15, que estava vazia. Nessa altura do campeonato, mamãe já tinha feito amizade com a moça que sentaria na poltrona 13C, que tinha ido para SP para deixar o filho que estudava no Bom Jesus e estava indo fazer um intercâmbio nos EUA. Incrível essa capacidade que a minha mãe tem de saber a vida inteira da pessoa em 30 segundos. Sim, porque ela já sabia onde a mulher trabalhava, onde o marido trabalhava e mais trocentas coisas a seu respeito, enquanto eu estava preocupada com aquela saia terrível e com o fato de ter que me sentar na poltrona do meio, porque a 15A, que seria a da janela, já estava ocupada por um senhor deveras fofinho que me lembrava o Zagalo. Pois é.

Em meio ao desconforto de sentar-me ao meio surge um novo impecilho, aquela era a fileira da saída de emergência e o comissário foi nos ensinar a como agir caso ocorresse alguma situação de emergência e eu sou a pessoa mais covarde do universo inteiro, então olhava para a minha mãe e dizia “Por favor, vamos sentar em outro lugar! Eu não ia conseguir salvar nem a mim mesma, quanto mais me responsabilizar pelos outros! Vamos para outro lugar! Não quero ficar aqui!” e continuei com meu drama até que minha mãe cansasse de ouví-lo, olhasse para a minha cara e dissesse “Já deu, né? Sente-se, coloque o cinto e tente dormir. Não vamos precisar fazer nada. Nunca acontecem acidentes aéreos e nós não vamos morrer. Relaxe.“, eu ali, toda apavorada, tentei respirar fundo e caçar lá no fundo uma vontade de dormir e um pouquinho de conforto para esticar minhas pernas mesmo estando com saia. Depois de uma hora dentro do avião, resolvem dizer que ele finalmente vai decolar. Sim, quando você pega avião em São Paulo raramente sai no horário certo. Como se não bastasse o trânsito altamente congestionado, aquela cidade ainda possui um aerporto extremamente congestionado. Infelizmente.

Quarenta minutos depois da decolagem, quando eu já tinha relaxado, conseguido dormir um pouco e o lanchinho do avião já havia sido servido, o piloto diz que o aeroporto de Curitiba estava fechado por causa de um nevoeiro e nós estávamos indo para Florianópolis. Neste momento eu disse para minha mãe alegremente “Viva! Vou conhecer Florianópolis!” e ela me olhou com uma cara à lá Sheldon Cooper e eu respirei fundo e fiquei calada. Então o senhor que estava sentado ao meu lado começou uma incrível conversa com ela sobre como os aeroportos no Brasil são precários, como a Esquerda é ruim, como o Lula f*deu com tudo e como éramos burros por acreditar que tudo se consertaria para a Copa. Mamãe sorria e concordava, enquanto tentava falar que a esquerda não é tào ruim assim. Eu estava com sono e resolvi não me intrometer. Minutos depois o senhor fala “Tomara que Florianópolis não tenha nevoeiro, porque se tiver e tivermos que ir até Porto Alegre, duvido que tenhamos combustível o suficiente e daí sim precisaremos utilizar as saídas de emergência.“. Agora imaginem a minha situação: Eu estava apavorada ali e o cara ainda falava coisas desse tipo! Estava quase levantando e saindo correndo a gritar, então resolvi respirar fundo e parecer civilizada, afinal correr de saia seria desastre na certa, eu acabaria tropeçando e não seria nada legal.

Finalmente pousamos em Florianópolis. Já não aguentava mais aquela viagem e queria muito estar na minha cama. Pensei que acabaríamos em um hotel, mas não… Ao sairmos do desembarque uma comissária disse que havia um ônibus esperando por nós para nos levar até Curitiba. No fim das contas, eu acabaria voltando para casa de ônibus. Sorte que eu e minha mãe fomos correndo até o ônibus, porque ele já estava quase lotado e não faço ideia do que iam fazer com quem não coubesse no ônibus. Melhor não pagar para ver. Já não havia mais dois lugares juntos, sentei-me então na primeira fileira e ela logo atrás de mim. A sorte é que o ônibus era super confortável. Poltronas macias, revestidas de couro e que se reclinavam tanto que parecia que eu estava deitada. Foi o paraíso. Dormi a viagem inteira, sonhei com minhas aventuras em São Paulo e acordei quando estávamos na esquina da Rodoviária, com mamãe ligando para que papai fosse nos buscar. Chegamos em casa, finalmente, já era quase 5h da manhã e meu pai olha para a minha cara e diz “Você vai querer ir para a aula?“, então eu olho sorridente e lhe respondo “Deus que me livre. Vou dormir e acordar só quando tiver vontade!” e foi o que eu fiz.

No fim, aprendi que qualquer viagem pode ser uma aventura imensa, que o aeroporto de Curitiba não é nada confiável e que ônibus sempre é a melhor opção! Aprendi também que é possível se sustentar sendo atriz, que eu teria coragem de morar em SP, desde que não fosse muito no Centro porque aquela agitação sem tamanho me deixa afoita demais. Aprendi, principalmente, que eu amo Curitiba! Ela é uma mini-mini-mini-mini-São Paulo, super arborizada e fria, onde as pessoas não se comunicam muito, andam devagar nas ruas, não falam “Porra Meo” o tempo todo e são até aparentemente mais felizes. Sim, porque São Paulo pode ser linda, maravilhosa, aconchegante, perfeita, movimentada, bem sinalizada e todas as outras coisas que sem dúvida é, mas é impossível ser feliz naquele Centro, em meio a toda aquela agitação, com toda aquela gente em todo lugar. Deve ser terrível ter que pegar aqueles metrôs nos horários do “Rush“, sim em Curitiba existem os biarticulados extremamente lotados, são super desagradáveis e tal, mas sempre dá para ir a pé, sempre tem outros meios de se chegar ao lugar desejado e mesmo os biarticulados lotados não são tão desagradáveis quanto aqueles metrôs repletos de gente. São Paulo é imenso, você conhece muitas e muitas coisas, mas ainda não conhece nada. Você anda por vários lugares e continua parecendo turista. É bizarro. Morar lá deve ser bom, maravilhoso, desde que você more na Vila Mariana e tenha muito tempo, seja tranquilo e bastante esperto. Eu adoro São Paulo e esse fim de semana me fez perceber que depois que eu terminar minha faculdade e meu curso de teatro e antes de eu ir à França fazer meu curso de cinema, devo passar uns tempos por lá, fazendo minha pós graduação na USP e estudando cinema em algum lugar interessante da região, porque viver ali é muito bom para nossa noção de vida. Acho que todos devem passar por essa experiência, não por muito tempo, porque viver lá por mais que 15 anos deve ser realmente cansativo, mas acho válido.

No fim das contas, todo esse texto é para dizer que eu adoro São Paulo e que o sotaque paulistano não é tão irritante assim, pois a cada 10 pessoas somente 2 o possuem, o resto fala nordestino, carioquês ou até mesmo sulistense. Mas prefiro Curitiba, porque aqui o ar é mais puro, a vida é mais simples e você é capaz de conhecer a cidade inteira em poucos anos. Pretendo morar em São Paulo, mas se for para ter uma casa fixa em algum lugar, vai ser por aqui mesmo. Tomara que isso seja bom!

0 thoughts on “Diário de Bordo

  1. São Paulo é tudo! Hahaha
    Guria, to louca pra ver seu vestido de formatura, você vai ficar tãoo lindinha! Tire muitas fotos, hahaa.
    Eu pensei em um monte de coisas pra comentar, pra variar, mas me perco no meio do texto e vou esquecendo!
    Acho que o mais importante é que acho que finalmente as pessoas por aqui (digo, pais) começaram a se tocar de que eu não brinco de teatro, eu realmente quero fazer isso da vida, HAHHAHA.
    Meu pai outro dia: Já pensou se depois que você terminar o Cena Hum você ja mudar pro Rio e começar a fazer testes?
    E eu: Interessante, pai..
    (Eles ainda só conseguem pensar em tv, mas eu ainda ensino que o palco é muito mágico e eu não preciso sair correndo pra malhação..) HAHAHHA
    Beijos

    1. Sair correndo pra Malhação é fim de carreira, viu? HAHAHA
      Ou eu vivo de palcos ou vivo de cinema, televisão só se um dia inventarem um seriado MARAVILHOSO ou uma novela boa, porque as atuais são um lixo.
      Não pretendo disperdiçar meu talento na Globo, né.
      Inspiro-me no Rodrigo Santoro, quero ser tão foda quanto ele, é. Isso aí. HAHA
      Vou ficar linda mesmo! Tirarei muitas fotos e te mostrarei depois 🙂
      Beijos!

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