Você percebe que a vida virou de ponta cabeças quando acorda assustada ao se olhar no espelho e estar morena. Fugi tanto da angústia pelo fim das minhas cores, que nem vi quando ela se instaurou. Olho-me no espelho e vejo mayra-de-dezesseis-anos ouvindo simple plan e chorando pra webcam em um de seus vídeos diários completamente babacas. É como se todo o período em que meus cabelos foram diferentes tivesse ficado em um universo paralelo, no qual eu era saltitante e extremamente contente e empolgada com a vida.

O susto remeteu-me a Junho, quando acordei e meu cabelo estava verde neon e eu estava com vergonha de existir. O susto fez-me lembrar que não sou mais um ponto de referência e que não tem a menor graça andar na rua, porque ninguém vai fazer piadas hilárias. O susto fez-me lembrar da invisibilidade recém instaurada e de como isso afetou o momento em que estava enfrentando. Cabelo. E eu dizia que era “só” cabelo.

“Cansou das cores?” na verdade não. Na verdade todas as vezes que eu tomo banho e a espuma sai branca me reconheço um pouco menos. Na verdade não faço a menor ideia de quem a mayra-morena é, só sei que não é a mesma que a mayra-colorida. Na verdade, isso me assusta ainda mais, porque meus familiares me abraçam e dizem “estava com saudades de você, fazia tempo que não te via!” e na verdade eles sempre me veem, mas para eles eu não andava sendo eu.

“É esquisito, né?”, disse Analu, que em Setembro pediu pra eu voltar ao normal só porque ela não se lembrava mais como era. Sim. É muito esquisito. É muito de volta a um passado que não esperava voltar. É muito não eu. E é fantástica essa experiência de poder se estranhar por causa de… cabelo. Na verdade, foi exatamente isso que me atraiu desde o começo. Porque nós, como indivíduos, nos construímos diariamente e a gente acaba naturalizando nossas atitudes e passamos a ver tudo que a gente faz como “normal” e, por vezes, “certo”. Quando seu cabelo é laranja neon, você não é normal. Você é uma cenoura, é a Hayley Williams, é qualquer coisa, menos “normal” e ao fato de você ter um cabelo colorido, automaticamente é inserido o de você ser “rebelde”. Com cabelo colorido regras não são limites, porque “quem pinta o cabelo dessa cor, não tem medo de nada”.

Eu aprendi a não ter medo de muitas coisas. Como sabia que todos me olhariam (ascendente em leão, estrelinha feelings, bjs), passei a não me importar em usar roupas comportadas e condizentes com as dos outros. Eu podia me vestir do jeito que eu quisesse, podia andar pulando, podia fazer qualquer insanidade que me desse vontade e nada seria mal visto, só porque eu tinha cabelo colorido.

Os mendigos e usuários de crack viraram meus amigos e todos os dias quando eu ia pra faculdade e passava por eles eles falavam algo engraçado sobre a minha existência. Os pedreiros das mil e uma construções sempre tinham uma referência capilar. Eu não sofria com aquelas cantadas tenebrosas, porque todas elas eram referentes a cores e pessoas com cabelos parecidos e era tudo tão divertido e engraçado, que até esquecia de todo o problema que é essa coisa de ser cantada na rua.

Eu convenci velhinhas a pintarem o cabelo e dei dicas para infinitas adolescentes insanas. Eu gastei mais da metade de todos os meus salários e acumulei uma quantidade absurda de cosméticos que não faço ideia da serventia que terão agora.

Eu cresci. Passei a andar sozinha sem ter medo. Passei a ter bem menos medo de existir. Comecei a voltar para casa depois das 20h andando e não tive a menor vergonha de olhar na cara das pessoas e dizer “não me identifico mais com você, tenho amigos mais legais agora… tchau tchau” e não exitei em responder que “só porque não amo você não quer dizer que não saiba amar” após declarações altamente ofensivas. Eu criei uma coragem de enfrentamento de coisas que sempre fugi e não me vejo nem um milionésimo vitoriosa, porque continuo sendo a pessoa mais fujona e covarde da face da Terra. Mas eu voltei à terapia e nunca faltei um dia, nem o psicólogo acredita na minha proeza.

Pode ser que seja “só cabelo” visto de fora, mas para mim sempre foi muito mais do que isso. E hoje descobri que estou com saudades.

2 thoughts on “Digressões Capilares

  1. Realmente engraçada essa teoria de como uma coisa passa a ser ‘normal’ quando a gente se acostuma com ela. Foi tão estranho te ver de cabelo castanho de novo, só porque era uma cor ‘normal’ para os outros e nada normal pra você! HAHAHA
    Mas tava lindinha! <3

  2. May!!! Não acredito que você tá morena!!!
    Quando vi você comentando na minha matéria da 21 falando do cabelo colorido num verbo passado eu me desesperei. E como eu amei esse texto! Faz tanto sentido! E faz mais sentido ainda pensar que embora fique essa impressão, quem conseguiu tudo isso foi você, e não o seu cabelo. E mesmo que ele esteja diferente, continua sendo você e nem uma espuma branca é capaz de tirar isso.
    Você é foda e sempre vai ser minha amiga de cabelo roxo, esteja ele preto, branco ou colorido.
    Beijos!

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