Dilúvio de uma gota d’água.

Não sei se vocês sabem, mas eu sou daquelas pessoas que se debulha e se tortura por pura falta de auto estima. Daquelas que deita às 22h e fica chorando até 4h da manhã, jurando a Deus e ao mundo inteiro que não passará dessa noite simplesmente porque não é digna de pisar em chão algum.  Sou dramática mesmo, desde que me entendo por gente. Sempre. Daquelas que transforma qualquer coisa numa calamidade e que ao invés de “cagar e andar” como sabe que deveria fazer, se importa mais do que tudo, com tudo e por isso sofre. Acho que tenho mania de sofrer e sinto como se a vida não fizesse sentido quando eu simplesmente estou leve e sorridente por aí. Sei lá. Tudo que sei sobre a minha pessoa é que eu choro, berro, me machuco interna e externamente, abro a janela do quarto e fico caçando motivos para me jogar e quando acho que tudo isso está passando, logo arranjo um meio de sentir tudo de novo. Como se dependesse disso. Eu sou uma sofredora nata, que tem como profissão e modo de vida o ato de sofrer. Brinco que serei daquelas pessoas contratadas para chorar em velórios, unicamente porque gosto de chorar, mas na verdade é porque gosto de sofrer. Digo que terei uma prateleira só com as cinzas de todos os mortos da minha família, só para me lembrar de sempre sofrer. É esquisito, mas eu me sinto culpada quando estou feliz, culpada porque acho que não tenho esse direito enquanto há milhares de pessoas a beira da morte no mundo todo. Acho que minha sede por justiça e paz é apenas uma maneira de tentar aliviar meu sofrimento, embora eu saiba que quando ele passar, tratarei de sofrer por outra coisa.

O fato é que vivemos em um mundo feliz. Superficial e feliz. Em que as pessoas simplesmente impõem sua felicidade e a mostram com tanta vontade que realmente nos faz crer que elas estão felizes. Sei, no entanto, que não passa de uma grande mentira. Porque ninguém é feliz o tempo inteiro. É impossível. Mas a necessidade de se mostrar bem, o medo de tornar as outras pessoas magoadas e tristes acaba por obrigar a todos, inclusive a mim mesma, a fingir-se feliz. Não há nada pior do que isso. Eu me irrito com as pessoas que andam por aí sob um óculos de sol cor-de-rosa que faz com que o mundo inteiro passe de cinza, para rosa, de triste para feliz e assim levam a vida, falando besteiras e futilidades simplesmente para manter tudo na boa. Porque a verdade é que todo mundo sabe que se forem conversar sinceramente com alguém, acabarão por demonstrar que são fracos e sofredores. Impossível que seja só eu.

A verdade é que eu sou mais trouxa do que todas as outras pessoas, porque eu sei que estou sendo trouxa e mesmo assim continuo sendo. Não há como ser pior. Sou trouxa porque sei que a gente precisa é de complexidade, de profundidade, mas mesmo assim insisto em zilhões de relacionamentos superficiais. Eu sou capaz de sofrer e sorrir por tanto tempo que quando simplesmente canso, acabo por magoar mais gente do que teria magoado se tivesse sido sincera desde o começo. E olha que meio mundo diz que eu sou uma das pessoas mais sinceras que existem. Se sendo sincera continuo sendo trouxa, imagino como seria se eu fosse tão omissa quanto o resto do mundo. Eu não sei conversar sobre a minha pessoa, com ninguém, nunca. Por diversas vezes escrevo o que sinto, seja aqui ou em um diário, ou em um e-mail ou em uma conversa de um chat qualquer, mas absolutamente nunca eu converso olhos nos olhos com alguém sobre a minha pessoa, muito menos sobre a pessoa do outro. Porque ninguém tem essa coragem. E isso é terrível.

Minha mãe me fez ir ao psicólogo por muitos anos e mesmo em um psicólogo eu dava meu jeito de falar trivialidades ao invés de simplesmente dizer tudo que sentia. Eu sofro, mas não gosto que os outros saibam nem do fato e nem das razões. Tem que ser tudo silencioso, exclusivo, meu. Mas eu não aguento mais toda essa babaquice na qual me meti. Não aguento mais ter zilhões de relacionamentos baseados em “legal o seu esmalte” ou “viu que o fulano pegou a beotrana?”, não. É chegado o momento de eu me centrar e de fato ser o que acho certo. De “cagar e andar” somente para o que merece e de dar devido valor a somente o que merece também. É chegado o momento de eu ser sincera quanto ao que sinto, com quem eu sinto. É chegado o momento de eu conseguir conversar com alguém, olhos nos olhos sem desabar a chorar, sem aumenter, sem fingir, sem sofrer. É chegado o momento de eu mostrar ao mundo tudo que se passa por baixo desse cabelo blurple. E eu sei que é triste e dolorido, mas o momento chegou e eu não posso deixar passar a oportunidade de ser o que creio que devo ser. É chegado o momento de uma gota d’água ser apenas uma gota e não algo digno de se chamar a Arca de Noé.

Eu sei que isso decepciona muita gente e de certa forma decepciona a mim mesma, mas é preciso.

Não sei mais o que vou escrever aqui, qual será a frequência, a importância ou o conteúdo. Mas esse lugar existirá para sempre, porque é o meu único refúgio restante e não pode morrer.

Estou velha demais para continuar a chorar por qualquer coisa simplesmente por medo de mostrar a verdade. Estou velha demais para desconfiar do mundo inteiro, inclusive de mim mesma. Estou velha demais para continuar a viver e pensar como criança. Velha demais. Só espero não estar tão louca.

0 thoughts on “Dilúvio de uma gota d’água.

  1. Mayra, você é uma coisa, sabia? <3
    Eu raramente consigo conversar com alguém sobre o que tem de errado comigo porque eu não consigo fazer isso sem chorar e detesto chorar na frente das pessoas. É. Eu comento quase nada com as pessoas mais próximas e depois tento parecer bem. Ou tento esquecer e me distrair, não sei. Acho que ficaria melhor se eu conseguisse botar pra fora, mas que jeito? Cadê tomar coragem pra isso? E aí não sei o que fazer. Um dia eu sigo seu exemplo e chego lá. Lá no que é melhor pra mim.
    Beijo!

  2. a escrita como refúgio é fundamental em tempos de guerra. é ela que muitas vezes nos mantem vivos.
    sou o contrário de você e quase nunca choro, mas felicidade é um conceito totalmente abstrato e, me parece, utópico.

  3. Eu tinha pensado em um monte de coisas para comentar aqui, enquanto ia lendo. Ia falar da total identificação, porque olha eu sou tão ou mais dramática do que você. Também sofro e choro demais, demais. Porém, quando eu li o final do texto…. Olha, May, você não é velha coisa nenhuma. Você acabou de fazer 18 anos, não tem nem como ser velha, nem de idade nem de alma: para ser velha de alma você precisa viver muitas coisas ainda, e com 18 não deu tempo para quase nada, certo?
    Não entendi o que está acontecendo com você, mas saiba que tem meu total apoio “onipresente” :DDD
    E nem adianta tentar parar de sofrer agora, você não vai conseguir, May, a gente sofre até o fim da vida, viu? Ainda tem muita coisa pela frente. Eu acredito que a solução é ir vivendo e aguentando o tranco, chorando quando der vontade, porque se fingir de valentão não é nobreza para ninguém.

    Se mantenha de pé, May.

  4. Eu também sou muito dramática e cheguei a desconfiar se sofria de depressão. A felicidade é sim bastante superficial, e o ruim é que estamos condicionados a procurar por uma utopia. Temos que tentar ser alegres com as pequenas coisas da vida – e não desabar mundos por qualquer situação. Tento fazer disso um mantra pessoal. Abraços.

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