E aí você entrou em minha vida…

Lembro-me de estar no final de Março encantada com as propagandas da nova novela das 18h que seria exibida pela Globo. Nunca gostei de novelas. Há muito tempo não gosto da Globo. Mas Cordel Encantado era diferente.

Acostumada com novelas realistas, que narram coisas não tão impossíveis de se acontecer, de uma maneira chata, superficial e banal,  surpreendi-me com as propagandas dessa que seria minha companheira por cerca de cinco meses.

Ao contrário das tradicionais novelas sobre empresários, que possuem problemas familiares que acabam levando-os à falência, que a mulher sempre trai o marido (ou vice-e-versa), que o galã está comprometido, mas conhece a mocinha, separa-se da anterior e acaba ficando com a mocinha, que é cheia de triângulos amorosos mau contados (e mau resolvidos), de casais sem a menor química e de famílias mau estruturadas (ou bem estruturadas demais) que acabam por entristecer os telespectadores que voltam à realidade percebendo que sua vida é simplesmente inferior a mostrada, novelas em que os atores nem são tão bons, mas por serem bonitos (ou malvados, ou justiceiros) acabam sendo idolatrados por milhões de pessoas país a fora. Novelas que vem sempre com os mesmos atores, diretores, roteiristas e estão sempre agregadas a um cd nacional e um internacional, de uma trilha sonora nada condizente com a história, que a embala somente por estar nas mais altas “paradas de sucesso” no momento, Cordel Encantado surge com uma temática completamente diferente. Repleta de atores jovens, não tão bonitos (e uns estrondosamente bonitos), atores novatos, que trabalhavam apenas no teatro, atores antigos, mas reinventados, cenários graciosos e angustiantes, músicas condizentes com todos os momentos, desconhecidas pela maioria, mas perfeitas para a ambientação do enredo. Enredo muito bem elaborado, repleto de histórias entrelaçadas, muito bem adaptadas e reinventadas. Figurino magnífico, com roupas lindas da corte e outras lindas do sertão. Uma novela antiga, de época, mas que consegue ser atual e bonita. Eis que surge Cordel Encantado para mudar toda a minha ideia a respeito das novelas, porque se fosse para fazer uma novela como essa eu iria para a Globo.

A história se passa no Sertão Nordestino, na época do Cangaço. Em um reino distante, um rei tem uma filha chamada Aurora. Seu reino estava em guerra e para selar a paz ficou prometido que Aurora se casaria com Felipe (príncipe do reino vizinho), assim que virassem adultos. O reino entra em crise e o rei descobre que há um tesouro escondido no Brasil e ele deve ir até lá procurar o tesouro, vai e leva toda sua família junto. No sertão nordestino aparecem os cangaceiros, que ficam sabendo do tesouro e querem pegá-lo para sí. Junto com isso há a “duquesa má“, que veio do reino distante para matar a esposa e a herdeira do rei, fazendo assim com que sua filha fosse a próxima no trono. A duquesa consegue matar a mãe de Aurora, mas ela deixa a menina com uma família de sertanejos que prometem cuidar dela para sempre. Enquanto isso o chefe dos cangaceiros também tem um filho e, impossibilitado de cuidar dele, o deixa com o grande coronel da cidade, que seria seu padrinho e o criaria da melhor maneira possível. O rei não encontra o tesouro e acaba voltando ao seu reino, sem sua esposa e filha.

Isso foi contado no primeiro capítulo.

O segundo mostra Aurora, criada no Brasil sob o nome de Assussena, já adulta, apaixonada e prestes a casar com Jesuíno, o filho do cangaceiro. O rei acaba sabendo que sua filha está viva e volta para o Brasil para procurá-la.

Em meio a encontros, desencontros, pessoas loucas, corruptas, endiabradas, bondosas e proféticas a história vai se desenrolando, repleta de personagens notórios e núcleos muito bem especificados.

Uma das autoras foi entrevistada e disse que a novela era baseada na história de vários contos de fada, adaptados e entrelaçados. Aurora era a Bela Adormecida, Antônia a Rapunzel, Maria Cesária virou a Cinderella e Doralice incorporou Diadorim (personagem principal de “Grande Sertão Veredas”, importante livro da literatura brasileira escrito por Guimarães Rosa), a obra de Guimarães Rosa influenciou muito na escrita também, assim como noções básicas de história e fatos como a chegada do cinema ao país.  Úrsula, a duquesa má, era a personificação de todas as vilãs que conhecemos muito bem dos contos de fada. Era egoísta e maníaca, com traços de bruxa, capaz de enganar a todos com sua implacável cara de santa.

Então chega no capítulo do baile. Não me recordo mais dos motivos para que tal baile ocorresse, mas eles não são importantes. Isso é importante: 

Depois que eu vi esse episódio tive uma crise romântica muito grande. Debulhei-me em lágrimas ao perceber que no mundo real jamais existiria alguém tão principesco quanto o Inácio. Jamais alguém falaria coisas como essas para mim e jamais alguém se submeteria ao que ele se submeteu em amor a Antônia. Inácio tornou-se meu personagem preferido. Meus olhos brilhavam e meu estômago se contorcia a cada vez que ele aparecia. Eu sonhava com alguém como ele. Pela primeira vez na minha vida tive o sonho burguês de constituir uma família, ter filhos e criá-los numa casa com um quintal bem dotado. Queria realizar esse sonho, desde que fosse com alguém como o Inácio. A novela foi passando e a cada dia ele ganhava mais um pouco de meu coração. Ele abandonou tudo, toda sua riqueza e até a Antônia para ajudar os outros na Vila da Cruz. Ele foi um “São Francisco” do sertão e quando Antônia aceitou tornar-se sua “Clara de Assis”, seu filho até falava com pássaros.

Então, em meio aos meus encantamentos pelo príncipe em questão, surge o justiceiro do sertão. Jesuíno. Eu não gostava da Assussena, tanto que nem sei a grafia correta de seu nome. Ela era muito chata e por muito tempo eu torci para que Jesuíno ficasse com Doralice, ela o amava e o Príncipe Felipe sonhava com a Aurora dele desde que se entendia por gente, merecia ficar com ela. Mas o Jesuíno também. Ele era o melhor homem que poderia exsitir. Não digo isso unicamente pelo fato de ele ser interpretado pelo Cauã Reymmond, o que já o faz um grande personagem, mas a essência daquele ser era linda, pura e justa. Seu lema de vida era “Pelo Justo e Pelo Certo!” e ele fazia tudo que era possível para manter o sertão nordestino justo e correto. Lutava com quem fosse preciso e em determinado momento até passou por uma fase “Hobin Hood“, ato extremamente louvável de sua parte.

O fato é que enquanto Inácio era bonzinho e encantava por ser encantador, Jesuíno encantava por ser batalhador e justiceiro. Todas as vezes que algo ruim acontecia, ele vinha e salvava e ele amava muito a Assussena. Tanto que até dava inveja. A menina era chata, birrenta e exigente e ele nem se importava, bastava vê-la correndo um fiapo de perigo para arriscar sua própria vida em prol da dela. Ele supre todos os esteriótipos que a grande massa faz de seu futuro amor, ele era o amor de todas. Por cinco meses meu principal assunto com as minhas amigas era Jesuíno. Porque é completamente impossível que exista alguém com tanta substância quanto ele, é impossível que exista alguém meramente semelhante a ele e a utopia nos prende, nos apaixona. Éramos um grupo de meninas suspirando por um personagem de novela e não tínhamos a menor vergonha disso.

A questão é que mesmo eu idolatrando perder uma hora do meu dia assistindo a essa novela, mesmo eu amando cada um daqueles personagens e suas histórias de vida, mesmo que eu gostasse muito de tudo aquilo, não tive paciência o suficiente para assistir a novela inteira. No segundo mês eu já havia desistido. Continuava sabendo tudo que acontecia, porque todos falavam. Continuava gostando da história e surpreendendo-me a cada vez que resolvia assistir a um episódio, que geralmente era feito para agradar minha mãe, sedenta por companhia.

Depois de Cordel Encantado, nossas aulas de história do Brasil nunca mais foram as mesmas. Sabíamos tudo sobre o cangaço. Acredito que se cair uma questão a respeito no vestibular eu certamente acertarei. Em nosso simulado do ENEM perguntaram em qual história era baseado o romance de Jesuíno e Doralice. Ri desesperadamente ao ler tal questão. Realmente estavam perguntando aquilo para mim?

Então eu começo a ver na televisão propagandas de uma nova novela. Achando que substituiria a pacata novela das 19h, nem liguei. Semanas passaram e descobri que a tal nova novela viria para substituir a minha novela. Em poucos dias eu não teria mais uma novela para assistir. Dito e feito.

Essa foi a última semana de Cordel Encantado e eu não pude ver todos os episódios, porque agora faço aula de teatro e tenho que sair de casa bem na hora que a novela começa, então eu só sabia o que acontecia porque me contavam. Chegou quinta-feira e eu já estava lamentando terrivelmente o fato de estar findando-se aquilo que me acompanhou pelo ano mais tortuoso de minha existência. Estava lamentando por ter que abandonar meu idolatrado Inácio e eu não pude ver o último capítulo, nem na sexta e nem no sábado. No auge do meu desespero, corri para o youtube, procurando meu último capítulo. Não podia deixar que minha novela terminasse sem que eu soubesse como. Estava enfeitiçada pela coisa. Então encontrei na internet o último episódio.

Encontrei e quando ele terminou nada eu podia fazer, além de debulhar-me em lágrimas.

Senti dor semelhante à sentida quando tive que me despedir de Harry, Hermione e Rony, meses atrás. Foi terrível. Agradeço por ter minhas aulas de teatro, porque se eu tivesse que ficar em casa na hora da minha novela e não tivesse mais a minha novela, não sei o que faria. Surtaria. No mínimo.

Então cá estou eu, nessa fatídica tarde de domingo, jurando novamente para mim mesma que não assistirei mais novelas. Porque se demorei 13 anos para superar o fim de Chiquititas, não consigo prever quanto demorarei para superar o fim de Cordel e não posso iniciar toda essa babaquice de novo.

Só queria agradecer a todos os meus personagens amados por terem aparecido em minha vida no exato momento em que eu precisava. Principalmente, queria agradecer ao Inácio por ter feito com que eu ansiasse por um príncipe e tempos depois percebesse que não quero um príncipe, quero apenas alguém que me ame e saiba demonstrar isso. No fim, é o que todos querem.

Então é isso… Adeus meu Cordel Encantado.

0 thoughts on “E aí você entrou em minha vida…

  1. Ahhh, eu ouvi falar muito bem dessa novela mesmo. Mas, eu não assisti. Primeiro pa já fazia um bom tempo que não assisti novela (até entrar morde e assopra na minha vida – kkk) e segundo que eu saio do trabalho as 18h e não chego a temo de assisti-la. Estou curiosa pra assistir essa que entrou no lugar dela, mas sei que não vou chegar a tempo de segui-la também. Etão por enquanto sigo Morde e Assopra mesmo, e assim mesmo ás vezes perco uns capitulos durante a semana pq dou aula a noite tbm..rsrs. A verdade é que novela para a nossa vida. kkk. Mas gostei do seu texto. To vendo muitos textos criativos aqui na máfia, rs

    Beijos!!!

  2. Eu não vi essa novela por causa do horário, mas achei interessante a idéia. Pena que a maioria das pessoas não gostaram (assim como não gostaram de Bang Bang, que eu adorava). Essas novelas atuais são muito falsas! A começar pelos pobres que sempre tem uma baita casa, mesa farta e celulares modernos. Quero ser pobre assim também! ¬¬ as tramas são todas parecidas e os personagens idênticos. Tu vê uma, vê todas!
    :*

  3. Ai que linda *-* Cara, eu me apaixonei por essa novela também, e o Inácio também me mostrou que eu não preciso de um Príncipe, só preciso que ele mostre que me ama! Foi a melhor novela que a Globo já fez, foi a novela que eu acompanhei inteira e a novela na qual eu chorei no último capítulo, pois ela me mostrou que o amor pode sim ser real, pode sim acontecer de qualquer forma e que amores verdadeiros existem! Amei amei amei amei *-*

  4. Gente, 13 anos pra superar o fim de chiquititas? E eu achava que eu lidava mal com finais, haha. Espere você se apaixonar loucamente por uma peça SUA, que nem aconteceu comigo, e veja ela terminar pra você ver o que é sofrer. Meu Deus, hahaha.
    Eu não assisti nem uma mísera cena dessa novela. Sei que todo mundo que normalmente odeia novela estava completamente apaixonado por ela e eu não sei de nada, hahaha. Mas, noveleira que sou, ou pelo menos, que era, sei bem como é se apaixonar por uma novela! Eu era completamente louca por Cabocla, Coração de Estudante e Laços de família, e demorei horrores pra entender que elas tinham realmente acabado, hahaha. Beijos, May!

  5. Eu não assisti todos os capítulos, mas assistia sempre. Era uma novela muito gracinha mesmo! Essa é a droga dos personagens bons: eles viciam! Beijos

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