É Claro que eu Tenho um Trabalho pra Fazer

Não sei se vocês sabem (e se não sabem, deveriam saber) que sou a maior das procrastinadoras que já pisou na Terra. Considerando isso, devo informar que preciso entregar amanhã a primeira parte de uma etnografia – exercício que está sendo feito durante todo o semestre para a disciplina de Antropologia Urbana. É claro que a minha vontade de começar a escrever é nula, considerando que sei muito bem a dor de parto que é produzir algo que eu considere minimamente legível. Exceto quando se trata deste espaço (razão pela qual gosto tanto dele e uso e abuso). Aqui eu falo o que eu quero, quando quero, do jeito que eu quero e se você não gostou é só apertar o x e nunca mais voltar. Nos meus trabalhos eu tenho que me adaptar aos métodos dos professores e de todo um sistema já imposto (um sistema-fato-social, talvez). E, como é de se notar, eu sou uma lástima quando o assunto é cumprir regras. Assim, acho irrelevante comentar a dificuldade absurda que é seguir os padrões em alguma coisa – ainda mais quando se trata de escrita.

Considerando toda a epistemologia existencial que me cerca e não se distancia, venho por meio deste afirmar que uma das minhas novas teorias é a de que todo texto é uma etnografia. Faz uns dois anos, lá quando li “A Culpa É das Estrelas”, percebi que livros são nada além do ponto de vista de algum autor e que se fossem escrito sob a perspectiva de qualquer outro personagem, seriam completamente diferentes. Da mesma maneira, um livro com a mesma história e plot, mas escrito por outro autor também não seria igual. É claro que eu já tinha pensado isso lá na oitava série, quando li Dom Casmurro e concluí que não dava para julgar a Capitu sem ouvir a versão dela da história. A questão é que nós sempre estamos presos a apenas um ponto de vita e uma perspectiva.

Talvez seja inútil considerar que lendo um texto da Veja sobre assunto x e um da revista Piauí sobre o mesmo assunto você estará entrando em contato com perspectivas que se opõem/se complementam. Talvez elas nem possuam a mesma base epistêmica no fim das contas, pertencendo a categorias diferentes e como eu aprendi – se é que aprendi alguma coisa – categorias diferentes são incomparáveis (tendo a acreditar que tudo o seja).  A elucidação em questão é: talvez textos sejam incomparáveis. Talvez a gente seja absurdamente malvado em considerar que autor tal é ruim porque escreveu tal coisa, vai ver foi só um dia ruim, com palavras mal colocadas e na verdade ele seja uma pessoa incrível. Talvez não seja possível julgar as pessoas pelo que elas escrevem e, se for parar para pensar, é disso que se trata toda a base da minha futura profissão.

Primeiro a gente fala sobre um determinado grupo de pessoas. Sob o nosso olhar. A nossa perspectiva já infectada pela nossa cultura (tão vã quanto a ideia de um jornalismo neutro é a de que é possível abster-se de sua própria cultura no exercício de tentar elucidar a do outro). Depois a gente escreve tudo aquilo que depreendemos desse nosso olhar, já infectado, inventado e de certa maneira falso. Depois a gente pega aquilo que a gente observou, depreendeu e escreveu e relaciona com outras coisas que outros autores já escreveram sobre fatores semelhantes àqueles que nós encontramos. Tais escritas, por sua vez, já infectadas pela perspectiva unilinear daquele autor utilizado. No máximo o nosso texto se torna um jogo de cintura entre perspectivas diferentes de pessoas que intentam o mesmo fim, mas como saberemos que a interpretação que fizemos da perspectiva daquele autor estava correta?

Do mesmo modo que não sou capaz de inferir que Machado de Assis escreveu Dom Casmurro com a certeza absoluta de que Capitu era fiel e Bentinho insano, não posso sair por aí afirmando que autor x, por ter escrito frase y, quis dar-se a entender z. A interpretação, por si só, é algo muito subjetivo, que também envolve o meu próprio modo de enxergar as coisas. É por isso que eu acho absurdo o fato de alguns professores darem notas ruins para interpretações/relações textuais, quem são eles para dizer que penso errado, só porque penso diferente de um padrão estabelecido sabe-se lá por quem e que eles decidiram seguir?

Acho que se o sistema castra o nosso pensamento, não conseguimos produzir coisas inovadoras – que é justamente o que o sistema quer que façamos. Logo, eu não sei o que fazer. As vezes penso em escrever o óbvio. As vezes penso em ficar em casa dormindo. As vezes penso em rir da cara da humanidade e escrever que é muito mais inteligente que a povoação tenha ocorrido na época da Pangeia enquanto eles podiam caminhar entre os continentes do que depois, quando tinham que esperar a água baixar para passar da China pro Alasca. A minha lógica está errada? Prove-me. Ou reprove-me. Infelizmente, a burocracia ainda me domina.

Pois é, tem uma barra numa página branca que insiste em piscar querendo dizer “preencha-me”, já consciente da armadilha da cilada iminente. Eu realmente adoro estudar.

P.S.: Gravei um vídeo novo! 

2 thoughts on “É Claro que eu Tenho um Trabalho pra Fazer

  1. Sempre achei prova de interpretação de texto uma coisa muito burra. Na verdade, é nada mais nada menos que uma prova de memória: se você decorou tudo o que o professor falou sobre o texto, é dez. Se você de fato interpretou o texto, é zero. Tudo seria muito mais inteligente se fosse feito na base do debate e as notas dadas pela participação, não pelo “mérito”. É assim que nós viramos papagaios que não sabem pensar – condicionados desde criancinhas. Tenho sérias divergências com o sistema educacional clássico e amei seu texto. Beijos <3

  2. As interpretações que cada um de nós fazemos, não só de textos, é tão nossa e tão correta, mas também tão destoante do padrão que a sinceridade, numa prova ou na vida, do que você pensa sobre tal coisa, na grande maioria das vezes, não será bem aceita, tanto pelo fato de que o sistema tá aí e realmente “castra nosso pensamento”, quanto pelo fato de que todos outros tipos de interpretação das outras pessoas irão se destoar da minha e da sua.
    Me identifiquei com o texto ^^
    sete-viidas.blogspot.com

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