E se…

Lá vai ela de mãos dadas com o sortudo da semana. Sorri como se estivesse perfeitamente bem. Ela está bonita hoje, não que não seja bonita naturalmente, mas hoje está um pouco mais, deve ser o sorriso. Acho engraçado vê-la tão sorridente ao lado de alguém que conheceu há dois dias numa esquina qualquer. Ok, podia ser pior, podia tê-lo conhecido em uma esquina de prostituição, não… Foi apenas um cruzamento qualquer, desses que acontece quando você anda distraído pela rua. Provavelmente o distraído da história foi ela, que vive no mundo da Lua…

Almoçaram no restaurante daquela esquina. Tem sido assim desde o dia em que se conheceram. Ela deve ter pego as duas colheres de arroz com um pouco de caldo de feijão em cima e todos os legumes não-verdes do buffet, além de um belo pedaço de carne e um copão de água, com direito a picolé de sobremesa. Ele provavelmente questionou a razão para ela não querer refrigerante e ficou assustado ao ouví-la dizer que nunca provou tal líquido. Serviu-se de todas as iguarias propostas no buffet e riu ao comparar o peso das duas refeições e seus respectivos valores. 

No intervalo das aulas, sem querer passo em frente a sua sala e os encontro abraçados perto do quadro negro, conversando com os outros amigos. É bonitinho vê-los abraçados, parecem uma coisa só. Cutucam-me e quando eu respondo sou comunicado de que o recreio acabou. Fiquei cinco minutos inteiros os observando. Meus amigos vêm até mim falar sobre as garotas novas, sobre os planos para o final de semana e até dizem que a bebedeira do sábado está marcada para ocorrer na minha casa. Eu não ligo. É estranho mas é como se eu não estivesse ali ouvindo-os, como se a distração dela tivesse passado para mim.

Fui eu quem a encontrou em uma reunião tosca de um clube do livro qualquer. Eu que a levei àquele restaurante, ri com a não farta escolha de alimentos em seu prato, fiquei incrédulo ao saber que ela nunca havia experimentado refrigerante e lhe dei uma barra de chocolate de um quilo de presente no outro dia. Foi comigo que ela conheceu o bairro inteiro, andou de mãos dadas e ficou sentada na escada conversando por horas a fio. Eu a ensinei a abraçar decentemente, a não ter medo disso, a olhar nos olhos dos outros enquanto falam, a ser respeitosa e paciente. Ensinei-a até a não ser totalmente histérica! Fui a lojas de cosméticos com ela, estive presente em todos os seus momentos, bons ou ruins. Alertei-a para não ser tão distraída, mostrei-lhe minhas músicas favoritas enquanto ela me recheava de cultura cinematográfica e artística em geral. 

Faz tempo, eu sei. Tempo o suficiente para termos mudado de escola, de casa, de vida. Para entes queridos terem falecido, amizades terem sido trocadas, gostos mudarem, assim como nossas alturas, pesos e o comprimento de nossos cabelos. Faz muito tempo. Desde então eu passo por ela na rua e ela nunca vê, fico no meu canto observando e ela nem nota. Então vou almoçar no nosso restaurante, como em todas as segundas-feiras, e a encontro com um outro qualquer, rindo abobadamente e fazendo as mesmas coisas que fazia comigo, que eram especiais comigo. Meus amigos não entendem, somos homens e não perdemos tempo sentindo coisas por garotas, sofrendo por elas. Mas eu não consigo não sentir. Não consigo olhá-la e não ver os meus olhos refletidos nos dela, não consigo fingir que nada aconteceu e basta estarmos a dez metros de distância para que o imenso filme de lembranças passe novamente em minha cabeça. Eu sei que isso não é comportamento de homem e isso faz com que eu precise mais ainda dela, porque ela me entenderia e saberia exatamente o que eu devo fazer. 

É incrível… Precisou todo esse tempo passar para eu perceber o que realmente estava acontecendo… Não era só uma grande amizade colorida, não foram só duas pessoas se divertindo juntas. Foi muito mais. Pelo menos pra mim. Acho uma bosta isso de menino não poder ser sensível sem ser chamado de gay, sabe? Eu queria só saber como agir numa situação dessas, entende? Vivemos à flor da pele.  À flor da pele DEMAIS. Talvez seja coisa da adolescência, talvez seja por causa dela que tudo parece mais intenso do que realmente é, afinal, bem… Ela era só um dos meus rolos, como tantos outros. Não! Não vou mais colocar culpa na idade. Foram mais de 12 rolos nos últimos meses e sobre ela eu ainda sei muito mais do que apenas o nome e sua forma de beijar. Eu só tenho dezessete anos! Não posso beber, dirigir… não posso nem assistir alguns filmes ou entrar em algumas lojas, não tenho a menor noção da vida, não sei de nada! Como? Como isso é possível? Ãh? Eu sei que eu deveria estar tendo essa conversa com a minha mãe, mas eu não quero, tá? Não quero que ela saiba que botou um filho fracote no mundo. P*rra.

Eis que ele resolve ir pra uma festa qualquer tentar arranjar uma garota qualquer que possa distraí-lo de todo caos que passa em sua mente. No meio do caminho tem uma sorveteria e quando ele se aproxima da tal loja a enxerga sozinha tomando um sorvete na porta. Um impulso corajoso vai até ele e quando vê…

 

Huh. É o seguinte, manda esse seu “namorado” correr porque eu voltei e… Eu te amo.

 

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