Sabe aquela coisa linda e maravilhosa que eu sinto com o teatro? Tentei transmitir um pouco dela nesse post, mas talvez não tenha obtido a eficácia que gostaria. O teatro é aquela coisa que me faz respirar com maior vontade, que me faz ficar com os olhos brilhantes e sentir-me feliz, completa e apaixonada. Não é necessário uma única pessoa para te fazer sentir assim, feliz, o teatro é a minha “droga”. Esse semestre repleto de posts existencialistas e de cunho filosófico, que eram muito chatos e pacatos às vezes, foi um mero reflexo da minha abstinência de tal droga. A verdade é que a vida fica muito mais leve quando se tem o teatro por perto e não há pessoa ou profissão alguma que me faça mudar de ideia.

Concluí portanto que é atrás dessa sensação que todos estão, sempre. É essa sensação que nos faz decidir quais são as pessoas que apreciamos e quais são as que desgostamos, é ela que nos faz escolher as coisas que escolhemos. Tudo que fazemos é com o intuito de nos sentirmos melhor, de algum modo, com aquilo que foi escolhido.

É por isso que algumas pessoas são tão fiéis a Deus, por exemplo. Não estou dizendo que você deve escolher apenas uma droga, claro que não, mas bem… Deus é uma grande droga. Aquela capaz de te transmitir coisas maravilhosas, que te eleva a um estado alfa e te deixa demasiadamente excitado perante à vida. Depois que se conhece a Deus, é difícil se contentar com o mundo normal. É como se fosse um estado realmente transcedental e é por isso que as pessoas retornam à Igreja com certa frequência, leêm a bíblia entre outras coisas. É o jeito que elas encontraram de sentirem-se completas e felizes, sem depender da boa vontade dos outros. Eu, particularmente, nunca senti isso, mas já tive relatos tão lindos e apaixonados que me fizeram entender essas pessoas. Gente que fala de Deus com os olhos brilhando, que é realmente apaixonado por ele.

Do mesmo modo, há pessoas que são apaixonadas pelo seu trabalho. Há gente que é cabeleireira e adora o que faz, aquilo a faz sentir completa, não trabalha apenas para cumprir sua obrigação, mas sim porque aquilo faz parte dela, a completa. Meu professor de biologia transmite muito bem essa ideia a mim. Ele é um cara de meia idade que mora sozinho e tudo que faz na vida é dar aula, mas ele dá aula com uma vivacidade, uma emoção tão grande que você fica incomodado por não gostar muito da matéria e acaba tentando prestar atenção e entender um pouco. Porque é tão lindo e contagiante ver ele dando aula, ele tem uma empolgação tão grande que faz com que o fato de sermos capazes de escrever seja a coisa mais linda e maravilhosa do mundo todo. É impossível sair de uma aula daquelas sem se sentir um pouco mais “amazing”, como ele próprio diria. Sinto isso em diversas aulas, aliás, mas a dele me transmite com uma intensidade imensurável tal emoção.

O fato é que todas as pessoas buscam se sentir um pouco mais completas, amadas, importantes e essenciais. Querem encontrar um lugar que as encaixe e transmita coisas boas e diferentes, que não encontrará em nenhum outro lugar. Assim surgem as grandes histórias de amor, basedas em duas pessoas que estão infelizes com a vida solitária que levam e encaram o outro como a peça que falta para completar o quebra-cabeça de sua vida. Nem sempre tal história tem um final feliz ou agradável, mas geralmente vale a pena cada passo tomado.

Em meio a essa vontade incessante que todo ser humano tem, há aquelas pessoas que não são satisfeitas com o que fazem. Que trabalham em empregos que odeiam, só porque precisam do dinheiro para manterem-se vivos. Que não conseguiram encontrar nada que traga a elas essa maravilhosa sensação de “pertence”. Há pessoas que realmente se sentem sozinhas, mesmo rodeadas de gente. Pessoas que sofrem muito mais do que eu, neurótica como sou, já imaginei sofrer algum dia. Há pessoas que simplesmente não sabem aonde pertencem e acabam não pertencendo a nada.

Então surgem as substâncias químicas. Falo aqui de todo o tipo de substâncias, desde o café ao crack. Essas substâncias psico-ativas que por alguns momentos fazem com que todas as pessoas se sintam bem o suficiente para sorrirem de novo. As drogas reais. O problema é que, ao contrário de Deus, do teatro ou da biologia, tais drogas não trazem somente benefícios. É certo que as sensações são bem boas, mas o vício e toda a dor de cabeça que ele causa talvez não valha a pena. Talvez isso seja apenas mais um texto moralista para você, mas o escrevo com uma intenção muito maior. Estou tentando dizer que ao invés de nos prendermos a substâncias que muitas vezes causam estragos em nosso corpo, fazendo com que nossa vida tenha uma durabilidade muito menor do que a esperada, deveríamos encontrar coisas não destrutivas que causassem o mesmo efeito.

A cada ano o índice de menores de idade que se embebedam por aí aumenta. Junto com ele, o número de fumantes jovens e usuários de todos os tipos de droga também. O detalhe é que enquanto todos esses jovens “entram nessa vida” bilhares de pessoas com meia idade estão lutando para sair dela. Enquanto uma pessoa de 14 anos começa a fumar, uma de 54 toma remédios para sair desse vício. Nós jovens queremos que a sensação de pertence aconteça rapidamente. Não queremos esperar até sairmos da faculdade para sabermos quem realmente somos e como realmente vamos guiar nossas vidas. Achamos que com 16 anos somos maduros o suficiente para saber que não vamos nos encaixar em lugar algum se não utilizarmos tais substâncias. Ao invés de os jovens construírem relações sólidas uns com os outros, vêm crescendo o índice de jovens que constróem relações baseadas em vícios. Pessoas morrem para que você possa fumar um cigarro de maconha no seu apartamento do bairro mais chique da sua cidade. Cada tragada daquele cigarro que talvez seja delicioso ao seu ver e extremamente necessário em sua situação, carrega não somente o peso da ilegalidade da ação, mas a vida de muitas pessoas. Você nunca vai saber se aquela maconha veio da Holanda em um navio clandestino que aportou nos mares pernambucanos e veio numa matula até o seu estado, foi comprada por grandes traficantes que a “melhoraram”, empacotaram e organizaram direitinho para a entrega aos pequenos traficantes que venderam aos seus amigos em faculdades ou nas esquinas, para que você comprasse desses seus amigos e tivesse alguns minutos de prazer ou se a maconha foi plantada no quintal de um pequeno traficante que a vendeu por um preço justo ao seu amigo que lhe repassou. Vale a pena correr o risco? Já pararam pra pensar que ao beber uma garrafa de smirnoff ice na baladinha que você frequenta aos fins de semana é tão errado quanto matar alguém? Porque erros não podem ser quantificados. Todos são erros. Vale mesmo a pena gastar toda a sua mesada em bebidas, cigarros e afins? Tudo para se sentir um pouco mais completo? Não percebem o quão vazio é isso? Porque é que ao invés de se embebedar e ver a vida através de substâncias químicas você não vai correr um pouco, conversar com pessoas diferentes, apliar seus horizontes ou realmente buscar algo que te faça sentir completamente apaixonado por? Já pensou que enquanto você está ali, curtindo a pira que sua substância te causou, você não está agindo conscientemente? Talvez você não se lembre das coisas, talvez a sensação seja tão boa que você precise de mais daquela substância e assim você pode deixar de comer ou tomar água para destinar o dinheiro à manutenção de seu vício.

Eu sei disso porque sou viciada em chocolate. Não é uma maconha ou qualquer coisa assim, mas é um vício tão foda quanto. Não importa se estou triste, feliz, desesperada ou sorridente, preciso de um chocolate para fixar aquele sentimento em mim. Nos momentos depressivos, nada melhor do que o chocolate, para sentir um pouco de amor. Sentir a nostalgia que o amor transmite. Chocolate. Apenas escrever essa palavra já me dá água na boca. Não me lembro quando foi a última vez que passei um dia inteiro sem colocar nada com chocolate na boca. Acho até que nunca fiz isso. Nem que seja o nescauzinho do café da manhã, sempre tem um chocolate na minha dieta. É como se minha vida fosse baseada nisso. Não consigo me imaginar sobrevivendo sem um pouco de chocolate por perto. Tudo bem que não é tão perigoso quanto a cocaína, mas é perigoso. Sei que todos os dias rezo para nunca ter intolerância a lactose. Digo que posso até pegar AIDS, mas intolerância a lactose e diabetes, nunca. Prefiro morrer a ficar sem meu chocolate. Sei que posso estar sozinha e abandonada no mundo, mas se eu tiver um chocolate derretendo na minha boca, tudo vai parecer um pouco melhor.

Escrevo esse texto não com o intuito de moralizar vocês, pelo contrário. Quem sou eu para moralizar alguém. Quem sou eu para julgar os maconheiros e crackeiros existentes no mundo. Cada um age de acordo com aquilo que considera certo e talvez essa tenha sido a única saída encontrada para certas pessoas, mas bem… Sou uma viciada em substâncias psico-ativas, mas se engordei 5Kg no meu semestre sem teatro é porque fazer alguma coisa que me transmita paixão e bons sentimentos diminui um pouco a minha vontade de render-me àquela mistura deliciosa de cacau com leite.

Tudo que buscamos é o amor e como não nos esforçamos o suficiente para conseguí-lo com as pessoas, apelamos para esses meios um pouco menos conscensiosos. Somos todos tolos e drogados. Cada um com a sua droga. Até um amor pode ser uma droga. Tudo que todos querem é a sensação de estar voando, mesmo com os pés no chão. É sentir um frio imenso no estômago e um disparo no coração a cada vez que se entra em contato com a coisa amada.

O amor é suficiente. É tudo que precisamos. Busque-o em todos os lugares.

Ok, agora se você vier fazer um comentário me xingando por minha opinião, fique caladinho em seu lugar. E só pra constar, sou à favor da descriminalização da maconha, porque acho que não cabe ao Estado decidir se os vícios alheios são corretos ou não e que se fôssemos ensinados desde sempre a ter valores morais e a amar incondicionalmente, não precisaríamos recorrer a tais substâncias para nos sentirmos mais completos. Simplesmente seríamos completos. Ou não, porque as pessoas sempre gostam de complicar as coisas. Enfim. Jesus é que estava certo, a gente deve amar o próximo como a nós mesmos. Só isso. Ah sim! E virar a outra face para quem te humilha! É.

0 thoughts on “Em busca da última peça do nosso quebra-cabeças.

  1. Hahaha, é por isso que eu saio por aí dizendo: Tem gente que fuma maconha, eu faço teatro! O o teatro é a melhor droga do mundo! E o melhor: Está longe de ser ilegal, e não faz mal pra saúde! *_*
    Se as pessoas descobrissem os palcos… HAHAHAHA.
    Mas a melhor droga DO MUNDO, é o amor. Com certeza!
    =]

    1. AAAAHHH meu coração saltita quando leio seus comentários e percebo que você me entende <3 ównn
      Acho que o teatro só é assim super potente porque ele transmite amor e paixão, por isso ele é maravilhoso. Porque é um afluente da grande droga, o amor.

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