Encontros e Desencontros dessa vida Incerta

Hoje foi o primeiro dia do resto da minha vida, de novo.

Como todos sabem, passei por seis meses super conturbados, onde coloquei em dúvida até a minha existência, pois em um certo ponto nada mais fazia sentido na minha vida.

Então hoje o Sol brilhou novamente, mentira, foi a Lua. Sim, porque ao contrário do semestre passado, agora minhas aulas são noturnas. Isso significa que não vou mais comer sorvete do Gaúcho nos meus intervalos ensolarados, mas isso não importa, porque sempre tem a boa comida da Mira para me satisfazer.

Hoje foi o primeiro dia da aula de teatro! E, bem eu estava super ansiosa e nervosa para esse dia, pois eu fiquei seis meses parada, então teria que entrar numa turma completamente nova, o Cena Hum não seria mais o meu Cena Hum, pelo menos não hoje. Então eu cheguei lá e já na porta encontro a linda e maravilhosa Analu, que estava conversando com suas amigas e me acolheu lindamente, com um abraço delicioso, que só ela sabe fornecer e eu percebi que estava sim na minha segunda casa de novo.

Entramos na escola e logo nos encontramos com a Rafa, a Gabi e muito tempo depois, até a Letícia Cancela resolveu aparecer! Sim, estávamos ali de novo, a diferença é que não era de tarde, não tinha o Leo, o Jeff, a Josy e a Thamy e eu não estava na mesma turma delas, mas ah… Mínimos detalhes. Aliás, nossas salas são vizinhas e antes da aula começar até combinei com a Rafa que se eu odiasse a minha turma conversaria com ela por bilhetinhos, depois fiquei pensando que talvez código morse adiantasse, mas a verdade é que nada disso foi necessário.

A primeira parte da aula foi numa sala com todas as turmas juntas, para que os professores se apresentassem e nos desejassem um bom semestre, segui para a minha sala e tudo que eu sabia é que seria a Sala Teórica (a mais quente da escola, eu vou morrer quando estiver em meados de Outubro, com certeza) e que a professora era a Simone, aquela que fez uma peça MARAVILHOSA de Leitura Dramática no semestre retrasado e que dirigiu a Eléctra apresentada pelos meus amigos queridos, então, bem… Sabia que estava em boas mãos. Mas isso não me impediu de ficar com um frio na barriga enorme quando me sentei na minha cadeira e observei todas as outras pessoas sentando nas cadeiras ao redor, então lembrei-me do que a Cancela tinha me dito “Por que a gente tem medo? Quer dizer, todas as pessoas do teatro são legais!” e respirei fundo, ia dar tudo certo. Então começaram as apresentações, eu morro de medo de apresentações e sentia minha barriga tremer desesperadamente, vi cada uma daquelas pessoas se apresentar e dizer um pouco sobre sua vida, o que as levou àquele lugar, naquele momento, não me lembro do nome de todos, mas lembro de seus rostos e de pedaços de suas histórias, eis que chega a minha vez e é engraçado, porque quando eu sei que é a minha vez, todo o medo, a tremedeira e a timidez desaparecem e eu desabo a falar, desesperadamente, como se nada pudesse me deter, bem tenso. Então estava lá, falando tudo sobre como eu tinha parado de fazer teatro e todas as minhas tentativas fracassadas para retornar àquele lugar que era o meu lugar, e quando eu finalmente cansei de falar, as apresentações continuaram. Depois disso, a Simone contou um pouco da própria história e passou a explicar sobre o que estudaremos nesse semestre, ela falou muitas coisas, vamos estudar muitas coisas e a ênfase principal é no fato de que eu vou ter que diminuir minha quantidade de chocolate porque chocolate suja a voz. Nem imaginem o quanto estou sofrendo por antecipação, desde já. Sim, sou neurótica.

Enfim, tivemos um intervalinho e quando retornamos à sala a Simone passou as ideias que ela tinha para a nossa Leitura do semestre e foi aí que a magia aconteceu. Nos momentos que se seguiram eu tive certeza absoluta de que estava no lugar certo, que é ali que eu pertenço, é aquele ambiente que me causa a maravilhosa sensação de pertence, ali, junto com aquelas pessoas, quem quer que elas sejam, porque elas entendem 90% do que se passa na minha cabeça. Ali eu percebi que absolutamente não estou sozinha, não sou louca, paranóica ou lunática, irresponsável, inconsequente ou sequer burra. Éramos doze pessoas que tinham passado por basicamente a mesma coisa em suas vidas e estavam ali buscando pela mesma coisa. Presenciei os exemplos mais lindos de vidas alheias, histórias que realmente me emocionaram e fizeram eu notar que só o teatro é capaz de me manter realmente viva. Eu senti paixão, presença, tudo. Como a Joung disse, Deus tem que estar na arte, porque não há outra explicação para aquilo que nós sentimos ali, ou então o Patrick que é engenheiro e disse que estudou a vida inteira sobre fontes de energia, mas nenhuma das fontes estudadas por ele se compara com a energia que o teatro nos transmite. Eu via os olhos de cada uma daquelas pessoas brilharem absurdamente enquanto elas contavam suas desventuras, foi maravilhoso.

As ideias da Simone para a peça foram muito interessantes também, mas quando uma das minhas novas colegas de turma disse a ideia que ela tinha tido e todos os outros começaram a desenvolvê-la, chegamos em assuntos maravilhosos, ideias magníficas, sabe… Eu fico tão maravilhada com essas coisas que eu queria que mais gente tivesse presenciado aquela conversa, queria ter filmado tudo aquilo e mostrado para todas as pessoas idiotas da minha escola que estão se matando de estudar para se formarem em algo que não tem nada a ver com elas, só para agradar a terceiros. Quando a Simone começou a contar sobre a própria experiência, o modo de vida dela, o fato de ela não ter muito dinheiro e mesmo assim, com várias dificuldades, deitar a cabeça no travesseiro a noite e se sentir essencialmente feliz, eu percebi que é isso que eu busco para a minha vida, é isso que eu acho certo, é assim que eu acho que a vida vale a pena, quando a gente faz aquilo que a gente realmente gosta.

Olha, eu não sei o que vai vir por aí, não sei como vou lidar com a minha volta às aulas, certamente estou morrendo de medo delas, mas a experiência maravilhosa que eu tive no teatro hoje me fez perceber que eu, mesmo não preparada, preciso dessa experiência e é por isso que eu vou terminar o Ensino Médio e vou passar no vestibular, porque essas experiências são importantes para a construção do ser humano. No fim das contas, posso dizer que me encontrei ali. Descobri que vou sim fazer ciências sociais, serei antropóloga e vou me especializar em antropologia teatral. Um dia novos atores terão que estudar as minhas teorias para seguirem em suas carreiras e além disso eu vou atuar, com certeza. Vou fazer cinema, pelo menos um filme, mesmo que seja de baixo orçamento. Aquelas pessoas me entendem, eles sabem que dinheiro não vale nada se você não está feliz e creio que essa seja a lição principal que vamos tentar passar com a nossa peça de fim de ano, não que a gente saiba qual vai ser o nosso tema, ou qual vai ser o nosso texto, mas acho que a conclusão chegada foi a de que precisamos transmitir algo com a nossa peça e tenho absoluta certeza de que vamos conseguir.

Então, bem, estou aqui escrevendo porque estou realmente feliz, animada, empolgada e sorridente e porque tenho certeza de que continuarei assim por muito tempo, tendo em vista que agora tenho um bom combustível para tal e também para agradecer a Analu por ter sido tão maravilhosa comigo nesses seis meses chatos da minha vida, em que ela ficava falando sobre o teatro e me deixava apaixonada e super ansiosa para chegar a minha vez, bom… Acho que chegou a minha vez e isso não seria possível se você não tivesse me deixado com essa tremenda vontade de sentir, pelo menos uma pontinha dessa paixão avassaladora que você sentia.

Além dela, quero também agradecer a minha nova professora e os novos colegas, sei que não sou a pessoa mais fácil do mundo para conviver, mas acredito que vocês vão conseguir com o tempo! Estamos juntos nessa, com certeza.

No fim, é como o George disse hoje, quando o bicho do teatro nos pica, não tem como fugir dele e com o passar do tempo a gente ama tanto aquele lugar e aquelas pessoas que queria até fazer uma sociedade alternativa e se mudar para lá.

É… Eu amo isso.

0 thoughts on “Encontros e Desencontros dessa vida Incerta

  1. AMO MUITO TUDO ISSO! Acredita que eu já estou triste porque estou no TERCEIRO módulo? Tem noção do que é isso? Quando acabar o terceiro, terá ido METADE. METADE. Um dia desse éramos calourinhos, nos apresentando na sala da lareira.. E meu, o teatro é isso aí, é incrível, apaixonante, avassalador! Aproveite MUITO a leitura dramática, porque cara, é fantástico. Eu repito mil vezes, se precisar, que eu ME APAIXONEI. Faria 10 vezes esse módulo. Se as 10 vezes fossem com a Airen eu ficaria ainda mais apaixonada, sou obrigada a dizer. Mas a Simone é mara também, e tenho certeza que será um lindo trabalho! Nossas salas são realmente vizinhas, então, leia muito, sinta muito, e se apaixone muito! Enquanto isso, eu vou estar brincando de cabra-cega e tomando tombos ali do lado! Vou repetir aqui o fim do meu post passado: QUE SEJA DOCE!
    Te amo, lindinha! Seja bem vinda de volta!

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