Criar raízes é uma completa novidade para a minha pessoa. Nunca tive que fazer isso, sempre me aproximei dos outros com o botão “delete” já armado na mente para usar assim que a pessoa me irritasse. Eu não sei manter relacionamentos, não sei permanecer nos lugares por muito tempo, não sei terminar o que começo e sei muito menos contentar-me com o sedentarismo – no seu sentido literal.

Só que meus pais me obrigaram a fazer uma faculdade. Tentei encontrar um curso de dois anos que me agradasse, tentei escolher uma em outra cidade, um curso aleatório, algo que garantisse um intercâmbio no meio do caminho, ou uma faculdade gigante para eu poder mudar de sala o tempo inteiro. E quando vi que teria que estudar em Curitiba E na ufpr, tentei convencê-los a mudar de casa e não deu certo, porque já moro perto o suficiente do campus universitário em questão.

Redescobri que eu sofro. Não consigo me imaginar indo ao mesmo lugar por tanto tempo, encarando as mesmas pessoas, tendo as mesmas conversas, comendo as mesmas coisas na cantina, ouvindo as mesmas histórias, lendo textos que me fazem sempre concluir coisas muito semelhantes e voltar pra casa maravilhada com um universo sensacional, mas incapaz de imaginar uma maneira de colocá-lo em prática e ficar frustrada e ir dormir chateada porque a vida é chata e eu não tenho com quem compartilhar os brilhantismos que concluí, porque não há ninguém interessado na minha pessoa, porque como eu fico com a ideia fixa de que não consigo manter contato com os outros por muito tempo e com muita intensidade, acabo afastando-me involuntariamente e ninguém tem paciência de tentar me pescar de novo e eu me sinto cada vez mais sozinha e largada e acabo escrevendo em um dos meus mil cadernos e durmo sonhando com o dia em que a vida vai mudar e eu vou conseguir me sentir satisfeita e feliz.

Só que não importa o quanto eu resita, continuarei tendo que ir todos os dias pela manhã para aquele ambiente que me atormenta mentalmente por mais três anos. Terei que continuar vendo as mesmas pessoas, ouvindo as mesmas histórias, conversando sobre os mesmos assuntos e comendo os mesmos salgados sem graça da cantina. Vou continuar me sentindo sufocada, entediada e insatisfeita com o simples fato de existir. Mas vou continuar ali. Em um único lugar. E pela primeira vez na vida vou ter que aprender na marra como é que se relaciona com gente, como é que se mantêm legal e com assunto por tanto tempo. Como é que se estreita laços afetivos e os cria. Como é que se vive em sociedade no mundo real e não no ideal ou no virtual. Pela primeira vez na vida, estou condenada a uma realidade palpável, sólida, danificada, sem graça e sem perspectivas de mudanças ou melhorias. Sem hakuna matata. Com preocupações.

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