Há coisas que provas não consertam.

          O resultado do ENEM foi ao ar no último final de semana e a surpresa ocorrida foi a seguinte: mulheres feministas, que passam o ano inteiro militando pela causa, tiraram notas piores na redação do que homens que criticam e xingam o movimento feminista durante o ano inteiro. Por que isso aconteceu?

          Tenho duas razões em ordem de hipótese:

          1. Fuga ao tema

          Quando a pessoa milita por determinada causa, sofre de excesso de argumentos para defendê-la. Então, o que pode ter ocorrido é que as meninas se confundiram e acabaram falando mais sobre feminismo do que sobre violência contra a mulher – que era o tema da redação em questão. Veja bem: o feminismo luta para combater diversas coisas, dentre elas a violência contra  a mulher. Mas as duas coisas não são sinônimas. Então, utilizar-se da redação para um discurso feminista que não versasse a respeito da violência contra a mulher não traria um bom resultado. Infelizmente, a alegria por se sentir representada na maior prova de acesso à universidade do Brasil, pode ter feito com que algumas pessoas perdessem o foco. Em se tratando de ENEM, isso não é novidade. Todos os anos, a maior quantidade de notas baixas nas redações ocorrem por causa de fuga ao tema.

     2. Redação é receita de bolo

          Veja bem: se a pessoa estuda em um cursinho ou escola privada, onde o terceiro ano do ensino médio já vem com cursinho embutido, se ela faz aulas particulares e afins, aprende desde o início do ano preparatório para o vestibular a seguinte coisa: redação é receita de bolo.

          O que isso significa? Que há uma série de proposições a serem seguidas e que se você construir o argumento, defender e mostrar alguma aplicabilidade para ele, vai conseguir a nota. Essas escolas de alto escalão dão um foco muito grande para o ensino do método de fazer redações nas provas de acesso à universidade e os alunos têm a oportunidade de aprender uma coisa muito simples: basta seguir aquele passo a passo, que você consegue. Não precisa de conhecimento prévio sobre o tema. A própria prova do ENEM fornece uma série de textos, gráficos e afins que inserem o estudante no tema, para o caso de ele nunca ter ouvido falar sobre o assunto. Então, se você consegue seguir aquela receita, utilizando-se simplesmente do que a própria prova te forneceu, pronto.

          Assim sendo, não é necessário ser feminista, militante do movimento, ter consciência de que violência contra a mulher é errado ou qualquer coisa semelhante. Porque, no fim das contas, aquilo ali é a redação que vai te dar acesso à universidade, não é um medidor de caráter. Se você escrever uma boa redação e for uma pessoa horrível que canta meninas na rua, acha estupro um ótimo jeito de manter o relacionamento e se a mulher não te quiser mais, considera bastante razoável matá-la, não vai importar. Pelo contrário, você vai ser o escroto que teve acesso à universidade, enquanto a garota que sofre com violência diariamente e nunca teve coragem de contar pra ninguém, ficou ali, paralisada e não conseguiu escrever duas linhas.

[TW]

          Agora eu preciso falar para vocês sobre Trigger Warning (aviso de gatilho). Eu participo de muitos grupos no facebook de acesso exclusivo para garotas, onde discutimos coisas que, se fossem feitas em meio a homens, nos ridicularizariam em dois segundos. Nestes grupos, é necessário que antes de publicar uma postagem você deixe algumas palavras entre chaves, para explicar do que ele se trata. As mais populares são [OT], que significa Off Topic e demarca um assunto que não seja correspondente ao tema principal do grupo, e [TW], que demarca quando a publicação pode trazer lembranças de traumas relacionados ao machismo.

          Por exemplo: o grupo é sobre cultura nerd, mas saiu um texto muito legal que discute a gordofobia e a ditadura da beleza. Esse texto tem que receber as duas marcações, por quê? Bom, porque o texto é direcionado para um nicho específico de discussão – que envolve beleza e pessoas gordas – e isso é um assunto que agrega milhares de traumas, construídos durante toda uma vida. Se a pessoa é gorda e não se sente confortável com discutir isso em um grupo do facebook, ela simplesmente não lê a publicação. O aviso de gatilho serve para mostrar exatamente que a discussão a seguir vai versar sobre assuntos que podem te fazer reviver seus maiores traumas. E, bom, pelo menos nos grupos que participo, esse aviso é levado muito a sério.

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          Voltando ao assunto do ENEM:

          Temos todo esse cuidado para abordar temas delicados e que envolvem o psicológico das pessoas em grupos do facebook. Mas o ENEM pede para que todos os alunos do Brasil escrevam articuladamente sobre como a violência contra a mulher cresceu e é fatal. Se eu sofro na pele de formas catastróficas essa violência todos os dias da minha vida, você realmente espera que seja tranquilo realizar essa atividade? Não passa pela sua cabeça que ao pensar em argumentos eu vou me lembrar de fatos e de situações tenebrosas e só vou conseguir pensar em chorar, fugir ou fazer o que muitas garotas fizeram e utilizar a prova como denúncia? “Ah, mas isso é ótimo, uma oportunidade de sair do silenciamento“, bom, eu concordo. Porém das cerca de 55 pessoas que o Ministro da Educação afirmou terem utilizado a redação para fazer denúncias, quantas atingiram nota suficiente para ingressar em algum curso superior? Não foram elas também alvo da alegação “fuga ao tema”? Essas informações eles não nos passam.

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          Então, imaginem a cena comigo: você quer muito entrar na faculdade e passa o ano inteiro fazendo o que pode para se dedicar aos estudos. Não consegue ter a mesma dedicação que o colega que estuda em escola privada a vida inteira, porque você sempre teve que estudar na escola pública e ao voltar para casa realizar uma série de afazeres domésticos que te impediam de estudar da forma que gostaria. Mas, como é ano de vestibular, você se esforça ainda mais. Dorme menos para conseguir utilizar melhor o tempo e faz todos os sacrifícios que consegue.

          Só que nos outros âmbitos da sua vida, tudo continua igual, ou seja: seu pai bate em você e na sua mãe toda vez que chega bêbado em casa. Seu namorado diz que quer transar e nem espera você dizer se está ou não afim para começar os trabalhos. Seu irmão nunca lava a própria louça ou roupa, sobrando para você. E quando você sai sozinha para comprar pão tem que lidar com quatro ou cinco carinhas dizendo que você é “linda” e “gostosa“. Então você se agarra com todas as forças à ideia de entrar na universidade, ninguém da sua família conseguiu isso ainda. Se você ingressar na universidade pública, que é gratuita, vai poder ter um emprego decente em breve e sair de casa, dar um jeito de ajudar a sua mãe e construir a sua vida longe daquele ambiente que te maltrata.

          Só que você chega pra fazer a prova que te dará essa oportunidade e tem que escrever justamente sobre o maior trauma da sua vida, de forma técnica e coesa, sem fugir do que é pedido – e apresentar alguma proposta de resolução do problema. A sua forma de resolver seria entrar na universidade, mas agora precisa escrever uma coisa global e generalista na prova e nada vem à sua mente.

          Desculpem-me, mas me parece cruel. O assunto já não é abordado em todas as escolas. O Brasil já não tem as melhores escolas públicas que existem. Colocar esse tipo de questão, sem ressalvas, para alunos de escolas que têm mensalidade de R$3000 e alunos que tem renda familiar mensal de um salário mínimo, em um país onde não há igualdade nenhuma de ensino, pois a diretriz escolar é ampla o suficiente para que cada escola lecione o que bem entender, é provar que não se conhece o país onde se mora. É dizer que está promovendo a igualdade e ampliando as oportunidades com provas que apenas minam elas ainda mais. Vivemos em uma sociedade hipócrita e mesquinha, que até hoje não entendeu a razão para a existência de cotas, que considera a pessoa que não vai para a universidade “vagabunda”, que denigre e oprime mulheres dia após dia em todas as situações possíveis. Se nós temos como melhorar? Claro que sim! Mas precisamos fazer isso provendo educação de qualidade desde o maternal até o pós-doutorado. Para todos e não apenas para quem pode pagar. Enquanto a gente não conseguir oferecer oportunidades iguais e formações equivalentes, será absurdo colocar em provas de ingresso ao ensino superior temas que afetam tão subjetivamente algumas pessoas. É desrespeitá-las e desconsiderar seu sofrimento. Ou achavam o que? Que quem faz ENEM não sofre violência?

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          É inocente pensar que trazer um tema desse porte em uma prova de ingresso à universidade vá trazer alguma mudança efetiva para a vida das mulheres. A discussão é válida e louvável, mas deve ocorrer em outras situações e ao longo de um grande período. Deve gerar reflexividade, é um tema muito sério! Não é algo para cumprir uma receita de bolo aprendida no cursinho e passar na universidade. É uma questão que precisa ser refletida a ponto de fazer as pessoas mudarem a si mesmas e não se faz isso ignorando o problema o tempo inteiro e trazendo a tona em uma situação dessas. Porque ao invés de promover igualdade, isso reforça as diferenças e inibe que vítimas de agressão consigam pensar tão claramente sobre o assunto quanto não vítimas.

         E o que mais me incomoda em toda essa situação é que a alegria de se sentir representada e ter suas questões abordadas em caráter nacional foi tão grande para os movimentos feministas, que a tão pregada sororidade foi esquecida. Sororidade é um termo que prevê empatia, ou seja, o sofrimento do outro é respeitado, mesmo que seja diferente do seu, e por ser mulher e ter um objetivo comum com aquela pessoa, você se junta a ela contra o que a oprime – mesmo que não te oprima. Enquanto muitas feministas escreviam que “machistas não passarão no ENEM”, poucas pensaram nas vítimas que também não passariam. E considero isso um problema gigante do movimento e um reflexo enorme do fato de ser um movimento encabeçado por brancas, acadêmicas e de classe média/alta.

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