Entre agulhas

Eu sempre amei agulhas. Lembro de conviver com pessoas que tinham pavor a injeção e exames de sangue enquanto eu ficava implorando para que meus médicos me mandassem fazer essas coisas, só para poder ter contato com agulhas, porque as achava muito legais.

Eu sempre odiei tomar remédios. Lembro de que os médicos diziam “se você não tomar esse remédio, vou ter que te mandar tomar injeção“, eu sorria e respondia “prefiro tomar cinco injeções do que tomar esse remédio“, lembro que uma vez o médico realmente me mandou tomar cinco injeções e eu achei o máximo. Meus exames de sangue trimestrais eram super bem-vindos. Injeções para mim eram sinônimo de alegria e diversão. Sim, eu me divertia tomando injeções.

Agora você deve estar pensando “Por que o uso do pretérito perfeito nesses dois primeiros parágrafos?” e eu lhes respondo, algo aconteceu que me transformou e agora eu fico completamente apavorada quando escuto falar em agulhas. Meus exames de sangue trimestrais têm sido uma tortura, aliás. Não consigo mais nem olhar para a seringa vindo em minha direção que já entro em pânico!

Em meio a tudo isso encontro-me com quase 17 anos, morando numa das cidades mais frias do país, perto do início do inverno. O que isso significa? Claro. Vacinas!

Faz mais de um mês que fui à médica e ela me receitou duas vacinas, a contra gripe e a contra HPV. Contra gripe eu fui tomar na mesma semana, porque odeio ficar gripada. Não consegui ver o tamanho da agulha, mas a dor não foi insuportável, doeu ali e acabou, só fiquei com um pouco de sono depois, nada demais. Depois disso, mamãe foi à procura de um lugar para aplicar a tal vacina contra HPV. Sou pré-vestibulanda e ainda obrigada a aprender biologia, no entanto não fazia  a MENOR ideia do que era tal doença. Não sabia o que a vacina prevenia, porque era necessária, nada, mas sou curiosa. Então fui pesquisar.

Descobri portanto que HPV é um vírus sexualmente transmissível que pode gerar desde verrugas genitais até câncer de colo de útero e alguns outros tipos. Sabendo o que é HPV dá para se ter uma leve ideia sobre o porquê tal vacina é necessária, afinal, ninguém quer morrer de câncer, certo?

Mamãe encontrou um lugar que aplicava tal vacina e hoje fomos até lá. Descobri que a vacina pode ser aplicada em mulheres de todas as idades, mas tem mais eficácia quando aplicada em quem tem vida sexual inativa, pois a chance de já ter sido exposta a algum tipo desses vírus é muito menor. Fiquei feliz por ter sido informada sobre tal vacina enquanto ela ainda teria êxito em seu resultado.

(Aqui vou adiantar bastante a história pois minhas habilidades descritivas não estão muito apuradas no momento, pularei para a parte em que estou no consultório e a enfermeira está com a seringa na mão preparando-se para “dar o bote”.)

Entrego-lhe meu braço com muito medo, os músculos completamente contraídos e um pouco de palidez no rosto. Ela olha para mim e diz “só para avisar, essa vacina dói bastante, tá? E depois que eu aplicar vai continuar doendo, daí você tem que fazer compressa” ela continuou a falar sobre prováveis efeitos, mas eu já estava desnorteada o suficiente para não conseguir prestar atenção. Olhei para a minha mãe com a mais linda cara de cachorro pidão e disse “por favor, venha aqui para que eu possa te apertar”, mamãe disse que eu estava muito pálida e que era para relaxar, afinal era só uma vacina e eu sempre fui amiga das agulhas, não podia me desesperar agora. Eu tentei, falhamente, mas tentei. Apertei a mão da minha mãe com muita força, enfiei a unha nos dedos dela de tal maneira que eles ficaram marcados por muito tempo. A agulha penetrou em minha pele e comecei a sentir o líquido sendo disseminado em minhas veias. (eu sei que as vacinas não são aplicadas direto na veia, só estou deixando mais dramático) No início doeu bastante, depois eu nem estava mais sentindo. A enfermeira tirou a agulha, colocou um curativo e quando eu estava aliviada o suficiente para recolocar os casacos e retirar-me do recinto ela olha para mim fixamente e diz “Nos vemos daqui a dois meses para a segunda dose”. 

Imaginem a minha cara nesse momento.

Mas tudo bem… Melhor passar essas dores agora do que ficar com câncer, ter que tirar meu útero e não poder gerar toda a minha tão sonhada prole de esquisistranhos.

(sim, fiquei morrendo de medo de pegar essa doença e agradecendo muito por ter tido condições de ser vacinada enquanto há tempo)

0 thoughts on “Entre agulhas

  1. Quando criança, devido a uns problemas de saúde, eu fazia exames de sangue todas as semanas e achava muito de boa. Depois que fiquei um ano sem fazer, comecei a ter medo. E hoje em dia tenho PAVOR.
    Agora com vacinas eu sou bem tranquila, na verdade adoro. haha
    Beijo.

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