Escassez Literária

Eu leio. Desde os quatro anos de idade é o que eu mais faço ao longo dos meus dias. Se no começo lia apenas os outdoors e placas de trânsito, pouco depois comecei a ler de verdade, livros considerados “sérios“, aqueles que ninguém da minha idade tinha paciência para ler.

Eu sempre gostei de ler. Sou daquelas que devora a maior quantidade de livros possíveis sem o menor esforço. Leio não por obrigação, mas por prazer. Nada nunca vai se comparar ao maravilhoso cheiro de livro novo ou ao maravilhoso cheiro daquele bom livro guardado há anos. Nada nunca vai se comparar a terminar aquela leitura tão aguardada ou a sensação que se tem quando  o livro dos seus sonhos é encontrado.

Ler é e sempre será a melhor coisa já inventada pelo homem, porque com isso a gente desenvolve o nosso raciocínio, melhora a capacidade de escrita, argumentação e até o modo como pensamos. Acredito que dentre todas as matérias inúteis que aprendemos na escola e dentre todas as falhas do sistema de ensino, o fato de eles sempre nos obrigarem a ler pelo menos um livro por bimestre é maravilhoso. Acredito que se todos os alunos realmente lessem os livros que lhes são indicados, a quantidade de idiotas existentes no ambiente escolar diminuiria consideravelmente, o problema é que ao invés de abrir um livro a maioria das pessoas prefere assistir Malhação ou ler coisas com 140 caracteres no twitter.

Eu acredito piamente que a tecnologia está estragando com essa tão maravilhosa invenção humana. Depois que resolveram transformar os melhores livros em e-books ou fazer deles meros arquivos em PDF, o prazer anteriormente encontrado na leitura decaiu bastante. Qual é a graça de ler um Machado de Assis num e-book? Você não pode nem virar as páginas, não sente aquele cheiro maravilhoso, não consegue ver suas lágrimas se espalharem pelas folhas de papel assim que caem sobre ela. É completamente sem graça. Não entendo como é que certas pessoas conseguem substituir o magnífico universo do papel encadernado por essa coisa tosca chamada e-book. Eu sou super cabeça aberta e tal, mas nunca vou me contentar com essa invenção. Sério. Nem adianta vir me falar das vantagens disso, não acredito e ponto.

Fico triste em saber que ao invés de com o tempo a cultura de leitura brasileira evoluir, está é decaindo. Entristeço-me ao ver que cada vez menos gente se interessa por clássicos, enquanto continuam se interessando por Paulo Coelho e afins. Não há nada de errado em ler best-sellers, mas livros educativos, clássicos literários e aqueles que tem o intuito de te fazer refletir sobre algo são sempre melhores. Best-sellers são necessários, porque há momentos em que os livros densos acabam te enchendo o saco, mas acho bobo quem só lê isso e se digna conhecedor da cultura literária. Por favor, não ofenda os livros dessa maneira. Obrigada.

Enfim, o que me motivou a escrever isso, no entanto, foi um fato muito triste. Esse ano há alguma coisa muito errada acontecendo comigo, eu não estou conseguindo ler! Exato. Leio um capítulo e já estou morrendo de sono, cansada ou com vontade de fazer outra coisa. Ler está sendo tão cansativo que as vezes faço somente por obrigação, embora a vontade de conhecer palavras, histórias e momentos novos seja abundante, o ato de ler está se tornando muito chato. Acredito que seja porque é ano de vestibular e tenho que ler 15 livros por obrigação. Eu adoro ler, sempre adorei, mas ler por obrigação, sendo pressionada a compreender as coisas nunca foi algo muito apetecedor. Gosto é de ler livros que ninguém lê e não aqueles que todo mundo sabe a história, nesse último caso, a graça de comentar simplesmente some. É tão chato.

Fora isso tem também o fato de que sempre que estou na metade do livro começo a protelar o final da leitura, porque não quero me despedir dos personagens. Acho que isso eu herdei de Harry Potter, porque terminar aquela série foi tão doído, despedir-me daquelas pessoas foi tão triste que desde então conhecer novos personagens para dizer tchau a eles semanas depois tornou-se algo tão difícil de ser feito que tenho preferido nem ler. O resultado disso é que esse ano só li 5 livros inteiros e já estamos em Agosto e até Novembro é para eu ter lido mais 9, só não sei como isso vai ser possível, tendo em vista que está sendo um tremendo sacríficio permanecer numa leitura por muito tempo.

Eu realmente não sei o que está acontecendo e isso me entristece muito. Morro de vontade de passar minhas tardes na biblioteca, devorando histórias, personagens e palavras, mas não tenho forças para isso. Acho que estou cansada demais de ter que conhecer novas pessoas e despedir-me delas pouco tempo depois na vida real e acabo levando isso para obras literárias também. Quer dizer, quando você para de falar com as pessoas, pelo menos sabe que elas ainda existem e continuam levando uma vida normal, mesmo sem você por perto, mas e os personagens dos livros? O que acontece com eles depois da última página? Morrem? Acabam? Ficam ali para sempre? Sei lá, isso é muito triste. Não gosto da ideia de ter abandonado a Mia, por exemplo. Assim como não gosto da ideia de ter que abandonar o Mr.Darcy quando terminar de ler Orgulho e Preconceito. Não é agradável.

Sabe, a Analu diz que é muito apegada às pessoas e que eu não sou assim, eu pratico o desapego. Verdade. Pratico mesmo, mas só aparentemente. Sorrio e finjo que não estou sentindo a menor falta das pessoas ou das situações previamente compartilhadas, mas diversas vezes isso está me matando por dentro. É a incrível habilidade de ser falsa para manter a felicidade alheia. Sou mestra nisso. Também sou boa no contrário, lógico. Afinal, fazer-se de triste e sofredora é sempre válido. No entanto, quando tenho que parecer desapegada de pessoas tudo bem, sei que elas existem, mas com os personagens não funciona desse jeito e não é legal.

O fato é que estou passando por uma época negra na minha vida, em que estou com muito medo de um dia olhar para um bolo de livros e pensar “Como é que alguém consegue ler isso?“, quer dizer, se eu parar de gostar de ler, preciso repensar toda a minha vida, porque até o meu curso da faculdade foi escolhido baseando-se no fato de ter leituras abundantes. Se eu parar de gostar de ler, o que vai ser de mim? Não posso fazer isso comigo mesma! Quer dizer, eu sou a menina que participou de uma “entrevista” sobre a leitura entre os jovens, como posso trair tanto o movimento? Logo esse movimento?

Sério, estou com muita vergonha de mim no presente momento. Preciso de ajuda.

0 thoughts on “Escassez Literária

  1. Em primeiro lugar, CALMA guria. Não é porque você anda cansada que você está deixando de gostar de ler. Agora, minhas inúmeras constatações sobre seu post. Livros são vida, mesmo. Eu também leio desde os 4, e era daquelas crianças que ia andando e lendo os outodoors em voz alta. meu tio fala que o livro é praticamente uma extensão do meu corpo, afinal, pareço estar SEMPRE segurando um. Eu não consigo estar sem ler um livro, por isso, termino um, emendo no outro, e assim vai. E eu acho que a literatura está aberta a tudo. Não leio só livro ‘cult’ e nem leio só bestseller. Esse mundo é muito grande para nos retermos a rótulos, sabe? E apesar de ser uma amante da tecnologia, não consigo nem pensar na possibilidade de ler um e-book. Eu hein. Meu negócio é segurar o papel, acariciar as páginas, cheirar.. Sou dessas! Sabe aquela frase de Clarice que diz: “então ela não era mais uma menina com um livro, era uma mulher com seu amante”. Yeah, that’s me!
    Agora sobre livros da escola, eu não sei se essa ‘obrigação’ da leitura é aplicada da forma correta, porque muitos passam a achar chato porque são obrigados. E eu não sei se o meio da adolescência é a fase ideal para sermos introduzidos a certas obras clássicas, sabe. Eu fui ‘obrigada’ a ler Dom Casmurro aos 14. Muita gente pode fazer isso porque quer, aliás, eu fiquei bem ansiosa quando vi que ele estava na lista, louca para ler. E achei um saco. Não tinha maturidade para aquela leitura. Resultado: Peguei birra com Machado de Assis, e tenho MUITA vergonha de ter uma birra com um dos gênios da literatura nacional. Ainda quero ler Dom Casmurro de novo, afinal, Capitu com seus olhos de ressaca têm um valor inestimável, e toda essa birra é culpa de um livro que me foi introduzido na hora errada. Aos 18 anos eu peguei por conta própria um Dostoiévski e resolvi encarar. Não achei a 7ª maravilha do mundo, mas certamente é um livro riquíssimo, e eu consegui apreciar a história mesmo tendo lá as minhas ressalvas. Porque? Porque eu já tinha maturidade. Eu acho que tudo tem momento na nossa vida, hahaha.
    Divirta-se e e apaixone-se aí com Orgulho e Preconceito. E jamais se despeça de Mr. Darcy, ele é apaixonante mesmo. Eu, a tia Airen e a Clara achamos! hahaha
    Falando em Clara, cuidado com a margaridinha dela, outro dia mesmo ela estava pensando em como ela estaria.. hahaha
    Depois que você terminar Orgulho e Preconceito eu vou te emprestar Memória de minhas putas tristes, eu to no meio dele. A linguagem é bem particular, narrativas bem emocionais e pontuais. O livro é curto, mas tem que prestar um pouco de atenção, quando você percebe, viaja junto com ele, nunca tinha lido Gabriel García Márquez, está bem interessante!
    Essa é outra magia da literatura.. Sempre tem novos mundos e autores a serem descobertos. Como futura atriz eu ainda fico pensando nessas obras adaptadas num palco. Quando li “As virgens suicidas”, se não me engano, em maio, super pirei na história, e queria que meu época fosse com essa história, hahaha. ENFIM, livros são uma delícia! <3
    Desculpa o comentário gigante justo em uma fase onde você não está com muita paciência para ler, hehe.
    Beijos, minha neném leitora de clássicos que me deu entrevista!

    1. Ai gente eu não estou com paciência para ler livros, por isso é preocupante. Coisas internetescas eu acabo lendo por horas a fio se me permitirem, muito ridículo isso. Sério.
      Mas ah, amei seu comentário gigante e posso dizer que entendo essa coisa de que ler clássicos antes da idade certa acaba ferrando com tudo, mas se a escola não pedisse para os alunos lerem algo, certamente grande parte das pessoas jamais sentaria para ler um livro. Acho que as listas devem ser mais planejadas e tal, mas querendo ou não com 17 anos você não tem maturidade para entender perfeitamente todas as obras vestibulescas e acaba sendo obrigado a lê-las, então ter tido alguma experiência com clássicos antes é válido. (não ter maturidade foi algo muito generalizado, eu li Dom Casmurro com 13 anos, achei lindo maravilhoso e reli com 14, 15 e fiquei puta por não ter que relê-lo para o vestibular, adoro. Mas isso vai da pessoa, né. Não sou melhor que ninguém por isso.)
      Dostoiéviski é um que eu sempre tive vontade de ler, mas morro de medo de não gostar e pegar birra, então vou esperar mais um pouquinho. O detalhe é que eu adoro filosofia, então acabo querendo ler uns livros muito complicados para a minha capacidade e isso é terrível, porque daí perco a paciência e embirro de vez. Infelizemente.
      Quero muito ler Memórias de Minhas Putas Tristes, mas não sei quando terei tempo para tal, assim que eu tiver tempo lhe peço emprestado, pode ser?
      Essa coisa de imaginar os livros em peças de teatro é uma loucura total! Sempre imagino, ou no teatro ou em filmes, mas SEMPRE imagino. Tenho vontade de adaptar um livro para o teatro algum dia, deve ser um trabalho explêndido de se fazer.
      Mas ahh… livros são mesmo uma delícia <33
      Beijos e feliz dia do ator!

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