O essencial é invisível aos nossos olhos

A internet parou de funcionar. Abri o bloco de notas, abandonado desde que inventei de fazer esse blog e cá estou eu, escrevendo desesperadamente, de novo.

Tento recordar o que eu fazia antes de escrever, não sei. Não lembro, não consigo. Foi há muito tempo.

Treze anos se passaram desde que descobri a magia das palavras. Treze anos é uma vida inteira já. Minha vida, construída por mim mesma, com os meus pontos de vista, de acordo com as minhas crenças.

Eu. Egoísta como sempre, egocêntrica como nunca. Simplesmente eu. Mas quem sou eu?

Essa pergunta vêm me assombrado ultimamente. Olho para o meu rosto no espelho e fico a pensar em qual seria minha real identidade. A aparência? Pff. Se ela comandasse as coisas, a Mística seria mais instável do que eu.

Demorou, mas eu aprendi que mudar meu corte de cabelo ou a cor das minhas mechas não vai mudar quem eu sou. Quem eu sou. Serei eu algo? Talvez.

Paro para pensar sobre todas as coisas já construídas por mim ao longo da vida, não há nada. Apenas relações afetivas com as pessoas, relações estas que são levadas muito a sério nos primeiros meses, mas logo são abandonadas, jogadas por aí.

Amigos? Os tenho. São tudo o que tenho, mas ultimamente tem sido difícil olhar para a cara deles e realmente ser algo. “Olhar” para a cara, porque realmente enxergá-los é algo muito raro nesse mundo completamente virtualizado no qual fui inserida.

Então cá estou eu, sozinha (como sempre), numa noite fresca na minha cidade preferida, cá estou eu, vulnerável e límpida, uma folha em branco, que havia sido muito rabiscada, rasgada e ido parar no lixo, mas foi recuperada pelas forças reciclantes.

Apenas uma folha de papel em branco, com uma caneta entre os dedos da mão esquerda, pensando no que vale a pena ser escrito, o que vale a pena ser mostrado. Buscando, em meio a tamanha infinidade de erros, os acertos que fizeram com que tudo valesse a pena.’

Não sei mais ser quem sou. Quatro anos nessa busca constante pelo auto-conhecimento, rejeitando ao máximo as influências alheias, em busca da excentricidade, de todas as coisas que me fizessem especial e única, tudo isso foi em vão.

Quem eu sou é algo que jamais será desvendado. Podem saber meu modo de agir perante as coisas, minhas manias e alguns dos números que me definem, mas quem eu sou, essencialmente, nem eu descobri ainda.

Por isso escrevo. Escrevo como se não houvesse amanhã. No fim das contas, é a única coisa que sei fazer mesmo.

Treze anos. Há treze anos vivo presa nesse mundo de palavras, escrevendo cada mísero detalhe dessa vida completamente normal. Quantas árvores já gastei para escrever o que penso?

Não me arrependo. Nunca arrepender-me-ei de tal fato. As palavras me descrevem melhor do que qualquer outra coisa.

Escrevo entusiasmadamente, sobre tudo aquilo que tenho vontade. Escrevo enquanto espero alguém para compartilhar as coisas, sem precisar das palavras para isso. Enquanto espero alguém que saiba quem eu sou, simplesmente por estar ao meu lado por tempo suficiente para saber detalhadamente tudo que me diz respeito.

Escrevo enquanto sonho. Sonho porque existo. Existo porque tenho esperança. A esperança me move. Esperança de que em algum momento, todas as desventuras me levem a um lugar bom e agradável.

Escrever é tudo que me resta a fazer.

Encontrei no meu antigo livro de inglês a seguinte frase “Não escrevo esperando que alguém leia, escrevo simplesmente porque é a forma que encontrei para me libertar das coisas”. Foi aí que eu me perdi. Foi aí que esqueci a principal parte da minha personalidade.

Foi quando deixei meus cadernos de lado para prestar atenção nas aulas e na vida que passava ao meu redor que eu perdi a minha essência. Se meus quatro anos de auto-conhecimento foram em vão foi simplesmente porque eu desisti de escrever cada uma das minhas novas descobertas.

“O que você vai ser quando crescer?” “Escritora”, eu respondia. Por muitos anos era essa a minha resposta. Ledo engano. Cá estou eu, uma folha em branco com uma caneta na mão esquerda, mas sem a anterior capacidade para preencher as linhas.

Escrevo porque não lembro da minha vida sem isso, mas não sou mais tão boa assim. Minha mente não viaja mais. Sou racional e tenho os pés no chão. Perdi meu encanto de Alice, o deixei lá no País das Maravilhas. Abandonei o Peter Pan na terra do nunca e vim morar na Terra.

O que eu fiz comigo? Como foi que acabei aqui, completamente sem identidade? Onde foi parar a Mayra que eu gostava? O que eu fiz com ela? Será que eu cresci? Mas eu jurei a Deus e ao mundo jamais crescer. Deixei toda a minha família de barbies ali, intacta e arrumadinha, para lembrar-me sempre do quão bom é ser criança.

Terei eu finalmente crescido? Não queria isso.

Sinto-me completamente perdida, porque além da falta de identidade, nem escrever eu sei mais.

O que será de mim agora?

“Have you ever been so lost? Known the way and still so lost?” *

O pior é saber exatamente qual foi o veneno que me fez chegar a esse nível. Aquele momento em que você encontra um pouco do seu universo imaginário na realidade e decide abandonar todos os seus sonhos e viver o real. Voltei minha vulnerabilidade para um certo alguém, com todas as minhas forças e, ah… Era tudo tão forte que não consegui aguentar.

Desabei. Voltei a escrever, textos mórbidos com meros restícios de tudo aquilo que um dia foram. Voltei a escrever, mas não era a mesma coisa. Sentia-me como a “Sininho“, quando estava perdendo a sua luz. Eu estava apagando e não sabia como me reacender. Ainda não sei.

Precisava de férias maiores, para recompor melhor as minhas ideias, reformular com mais clareza quem eu sou, escrever novamente, em meus cadernos e com lápis e borracha na mão. Precisava de mais tempo. Tempo. Sempre a coisa que falta.

Espero encontrar quem procuro, em meio a esse emaranhado de ruas escuras jogadas no universo infinito. Quem sabe, um dia.

*Lost – Katy Perry

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