Eu gosto é de bolacha.

Sabe-se que sou uma nômade nata, pelo menos é o que dá para notar pelo fato de eu ter mudado de cidade 5 vezes até os 10 anos de idade, para quatro cidades diferentes, em três estados diferentes. O fato recém percebido, no entanto não foi que isso fez com que eu me adaptasse muito rápido a novos lugares e situações, me desapegasse rápido das pessoas (tão rápido quanto me apego) ou aprendesse a apreciar estilos de comida diferente, não. O fato notado é que essas mudanças fizeram uma completa bagunça no meu modo de falar.

Imaginem comigo uma maranhense do interior, uma cidade muito pequena que nem asfalto tem direito. Agora imaginem um paranaense do interior, de uma cidade muito pequena que nem aparece nos mapas. Imaginem agora Brasília, a capital do país, onde essas duas pessoas estavam morando por motivos distintos e imaginem que essas pessoas se conheceram de uma maneira muito não convencional e se casaram e tiveram dois filhos, que nasceram ali mesmo, na capital do país. Pronto, vocês acabaram de imaginar a minha família, pelo menos o básico dela.

O problema é que eu comecei a aprender a falar enquanto morava em Brasília, então fui jogada em Curitiba, um lugar completamente diferente e aqui eu aprendi a falar de verdade, aprendi a ler e escrever e com três anos era a melhor aluna da classe de espanhol, mas daí eu fui pro interior e descobri que por lá as pessoas não sabiam o que era penal, Deus sabe o quanto isso me impressionou. Lembro até hoje que todos os alunos tinham que deixar o estojo na escola, me falaram isso milhões de vezes mas eu não fazia a menor ideia do que diabos era um estojo, então fiquei esperando que todos os outros alunos deixassem o estojo na prateleira indicada, fui até lá, descobri que eram penais, peguei o meu penal, deixei lá e voltei para casa indignada perguntando para a minha mãe por que diabos todas as pessoas daquela cidade falavam errado, porque penal se chamava penal e não estojo. Minha mãe apenas riu e me explicou que algumas palavras podem mudar de acordo com a região do país que você vive. Tarde demais. A confusão já tinha começado.

Sei que até hoje eu não faço a menor ideia de qual é o meu sotaque. Tenho para mim que não tenho sotaque algum, mas várias pessoas dizem que tenho sotaque de sulista (absurdo), outros que tenho sotaque de interior mesmo, porque falo o “r” igual caipira, porém quando eu converso com meus primos nordestinos ou até mesmo quando meu avô morava aqui, falavam que eu tinha sotaque nordestino. Do mesmo jeito quando eu vou para Brasília, três dias lá e já me pego falando “velho“, sei que é uma confusão tão grande que me irrita completamente. Por ter sido criada em meio a tantas misturas, acabo nem sabendo quais palavras são meros regionalismos e quais são usadas em todos os lugares do país.

Se tem duas palavras “curitibanas” que eu certamente nunca me sentirei à vontade para falar são as famosas “piá(que seria “garoto”, “menino” e afins) e “vina(que seria salsicha), porque… Bem, que diabos é piá? Quem foi que inventou isso? O que tem a ver? Nunca vou me conformar com o fato de as pessoas falarem isso e vina? Os meninos chamados “Vinícius” que estudaram comigo em todas as outras cidades eram apelidados de vina, não é agradável sequer imaginar a frase “Comerei vina hoje”, não engulo isso. Mesmo. Outra coisa que me irrita é o tal do “Leite quente dá dor de dente“, essa frase era falada por toda a minha família curitibana desde sempre para me mostrar o “Jeito curitibano de falar as coisas“, só que gente… Como me irrita essas pessoas que falam assim. Sério. Pior que quem nunca ouviu essa frase no bom tom curitibano nem vai entender minha indignação, mas ah, é chato. Eu odeio o sotaque curitibano e isso é desde sempre, tanto que quando fiquei sabendo que voltaria a morar aqui a primeira coisa pensada foi “Eu nunca posso deixar de falar porrrrrta. Nunca posso falar vina e nunca posso chamar alguém de piá.”, mas outro dia eu descobri que as vezes chamo as pessoas de “Piá” e gente, isso é total perda de identidade. Sério.

Então eu comecei a pensar sobre sotaques e concluí que todos são irritantes, o menos pior é o mineiro e em segundo lugar o gaúcho, quanto ao resto todos possuem peculiaridades extremamente irritantes. O que ocupa o topo da irritação ao meu ver, porém, é o sotaque paulista e isso é terrível considerando o fato de que eu sonho desde sempre que vou morar em São Paulo quando for adulta. Como poderei sobreviver em um lugar que as pessoas falam de maneira tão irritante, escrota, chata e impossível de ouvir o dia inteiro? Tal indagação tirou várias noites de sono minha, pode ter certeza.

Outro dia estava conversando sobre o assunto com uma prima que é curitibana, não gosta do sotaque dela, mas não mudaria por nenhum outro e estava eu contando que não gosto de sotaques, não quero ter apenas um só, gosto dessa minha capacidade de mudar o modo de falar dependendo do interlocutor e gosto principalmente de usar palavras que as pessoas “comuns” desconhecem, é ótimo usar regionalismos maranhenses perto desses curitibanos que acham que eu estou falando grego, é incrível ver a cara deles. Adoro isso. Então estava contando para a minha prima que a única coisa que aprendi aqui e vou levar para a vida inteira é a palavra “Penal“, porque nunca vou engolir o fato de olhar para aquilo e dizer “Estojo“, penal faz muito mais sentido, sendo que era usado para guardar penas na época que as penas eram as canetas, estojo é muito amplo, sabem? Pode ser estojo de maquiagem, estojo de esmaltes, estojo de ferramentas, estojo de muitas coisas. Estojo é uma palavra que necessita de complemento, já penal não. É explícito que quando você fala “Penal” você não está pedindo por uma caixa de ferramentas, você está pedindo por uma bolsinha que tenha canetas, lápis e afins. Auto-Explicativo. Depois de meia hora expondo minhas opiniões acerca dos artifícios linguísticos e da nossa maneira de falar as coisas, minha prima olha fixamente e me faz a seguinte pergunta “Passatempo para você é o quê?“, eu olho imediatamente e respondo “Bolacha, uai!” e isso faz com que ela ria um monte, então eu fico indignada e digo “Não creio! Nos outros estados tem outro nome para isso?” e ela me conta que todo mundo chama de “biscoito recheado” e não “bolacha recheada” e é exatamente isso que está escrito no pacote. Isso desestruturou todo o meu modo linguístico de ver a vida. Descobri que bolacha não é uma palavra digna, então fiquei naquele grande impasse “Será que agora vou ter que parar de falar bolacha??“, mas logo concluí que não. Afinal, bolacha é bolacha e sempre será bolacha. Quem chama de biscoito é porque é bobo. Qual a graça de falar biscoito? É uma palavra chata. Bolacha é tão mais legal. Só de pensar nessa palavra já imagino um pacote de Passatempo chamando para que eu coma, como é que eu posso mudar agora o nome da comida que me acompanhou a vida inteira? De jeito nenhum. Eu gosto é de bolacha e os biscoiteros de plantão que se danem.

Eis porém que toda essa discussão culmina na aula de Teoria da Voz que tenho no curso de teatro. Para quem não sabe, existe toda uma teoria complexa sobre como manter as cordas vocais em bom estado, como preservar a voz e até como falar certo. Para se dar bem nessa matéria você precisa mudar seus hábitos alimentares, fazer exercícios diários de respiração e vários exercícios de alongamento e aquecimento dos órgãos fonoarticulatórios (boca, língua, bochechas e toda a musculatura envolvida) e esses exercícios dóem. Jamais imaginei que dava para sentir dor de cansaço na região bucal, mas é possível e não é agradável.

Enfim, durante as aulas de Teoria da Voz, além de todos os exercícios, dietas e recomendações, a gente aprende a falar corretamente e eis que a querida professora olha para a minha cara e diz que eu pronuncio errado palavras como “Pente“, “Sapo” e “Dia“. Tudo bem que pode ser por causa do aparelho dentário – que eu infelizmente uso – , pode ser também por ter a mandíbula torta ou algo assim, mas a explicação que eu concordo mais é a de que fiquei tão perdida sobre como pronunciar as coisas enquanto estava aprendendo a falar que isso desestruturou completamente minha capacidade de adaptação lingual. Fora isso, tem o fato de desde sempre eu achar super legal ver a Britney Spears cantando com a língua toda para fora enquanto pronuncia palavras com a letra “L” ou com “Th” e ficar tentando imitá-la o tempo todo. A professora disse que a Britney é o pior exemplo de dicção existente e que ela tem arrepios ao vê-la falar. Ainda não me conformei com o fato de ter feito tudo errado a vida inteira. Agora preciso fortalecer a minha língua e tentar condicioná-la a ficar dentro dos dentes em todas as palavras que eu pronunciar, mas isso é extremamente complicado! Ainda não acredito que normalmente as pessoas falam todas as palavras sem que a língua ultrapasse seus dentes, é impossível para mim! Sorte que estou disposta a tentar, isso é um grande avanço considerando quem estamos falando.

Bem, no fim das contas cá estou eu, repleta de problemas de identidade linguística e agora com problemas para pronunciar as palavras. No dia que eu for para alguma aula e descobrir que sou boa em algo vai chover tanto que as pessoas vão morrer e ninguém vai ficar feliz comigo por ter feito algo certo.  Enquanto esse dia não chega, limito-me a perceber que mesmo após 17 anos de tratamento intensivo para sobreviver à vida em sociedade, estou pouquíssimo preparada. Pelo menos ainda há tempo de tentar reverter a situação. Tomara que eu me mantenha disposta a tentar por bastante tempo ainda!

 

Adendo: Eu adoro sotaques, mas não gosto da ideia de ter apenas um. Gosto de vê-los nos outros, em mim eles devem estar misturados. Os únicos que realmente desgosto são os de paulista e carioca, esses são péssimos em qualquer um.

0 thoughts on “Eu gosto é de bolacha.

  1. Hahaha, pensei em TANTAS coisas pra comentar nesse post que já me perdi! Menina, como você escreve, tô precisando passar perto de você pra ver se pego um pouco da sua criatividade, hahaha. Esse foi mais um post que eu adorei, assim como aquele do arroz, hahaha.
    Deixa eu ver.. Meu sotaque é bem misturadinho, porque essa é minha terceira cidade, eu pego sotaque muito fácil, e misturo regionalismos. Resumindo, tenho um dialeto só meu. Ao contrário de você eu ADORO a palavra PIÁ, e rapidamente aderi a isso. É muito mais prático que MENINO. Mas também DETESTO Vina, apesar de só chamar os Vinícius de Vini. HAHAHA
    E poxa. Bolacha é tão feio. BISCOITO é MUITO mais bonito. E o Edu da peça tinha cheiro de biscoitos amanteigados, eu logo imagino aquele biscoitinho fofo com cheirinho de manteiga. E essa era uma das falas preferidas da tia Airen na peça. Ou seja, ela gosta de BISCOITOS, assim como eu, e danem-se as bolachas. Aliás, se você chegar no Rio de Janeiro pedindo uma bolacha alguém vai te dar um soco na cara, porque pra eles, bolacha significa soco. HAHAHAH.
    Deixa eu ver o que mais. AH, adoro repetir: LEITE QUENTE QUE DÓI O DENTE em sotaque curitibano, acho um sarro.
    E ao contrário de você, eu AMO sotaques, amo todas essas religionalidades e palavras diferentes também, dão um tom delicioso a um país, sabe?
    E P**A, penal não né? É sacanagem. Essa merda dessa palavra só fazia sentido quando REALMENTE se carregavam PENAS dentro do ESTOJO. Mas hoje em dia só usamos canetas e lápis, portanto, ESTOJO, e não penal. o.O
    Agora sobre a aula de voz, sim, exercícios de voz cansam.. Mas valem à pena. A dieta também, principalmente a do chocolate. Não sei até agora como fiquei 15 dias pré-peça sem eles, mas valeu a pena. E se divirta com a tia Cynthia. Ela é engraçadíssima, hahaha. SÓ NÃO PIGARREIE PERTO DELA, POR FAVOR. Ela morde. E tira pontos. HAHAHA
    Agora chega, que comentário gigante.
    BEIJOS, minha filhinha que não liga mais pra mim!

  2. Eu sempre quis ser cosmopolita – morar em todos os lugares e pertencer a lugar algum.
    Talvez, por isso, inconscientemente assumo um sotaque do Sul do Brasil ao telefonar para desconhecidos. E sou baiana, já viu a ambiguidade?
    Estou quase indo morar em Sampa, obrigatoriamente, por decisão de terceiros, contra a minha vontade.
    Sotaque? De todos os lugares, espero.
    Um beijo.

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