Eu também sou Malala

Resolvi ler o livro da Malala, embora todos os meus amigos paquistaneses tenham me dito para não fazê-lo. Entendo o medo deles, de que histórias como esta, ao se tornarem públicas, façam com que o medo que o Ocidente tem do país deles aumente. Mas, veja bem, eu já fui lá, já sei que não é uma guerra civil e constante em toda esquina e que o Talibã age em locais localizados e não continuamente. Também aprendi que a violência urbana é a mesma que enfrento aqui o tempo todo. E aprendi que as mulheres não são escravas obrigadas a se cobrirem por inteiro, como muitos de nós insistem em pensar. Então concluí que saber a história da Malala não ia me fazer, repentinamente, odiar o Paquistão. E estava certa.

Com o livro acabei por conhecer mais sobre a história do país, sua trajetória política, a formação do Talibã, como ele ganhou força, quais suas principais atitudes e quem, quando e como começaram a reprimí-lo. A Malala morava justamente no Swat, divisa com o Afeganistão. E era Pashtun, um povo que vive também no Afeganistão. Era o alvo lógico para o Talibã, após ter obtido êxito no Afeganistão. O azar foi Malala ser filha de um dono de escola, adorar estudar e ler e acreditar piamente que sem a educação seu povo e seu país seriam eternamente manipulados pelos políticos corruptos. Azar maior foi o pai dela ter sempre instigado o senso falante dela para que ela não tivesse medo de se expressar e acabasse, assim, sendo a queridinha dos ativistas na região. E, com isso, alvo do Talibã que a indiciava por secularização da juventude, ao tentar introduzir um modelo Ocidental de educação, o que afastaria os jovens – em especial as meninas – das práticas religiosas apoiadas pelo Talibã.

Foi com esse livro que consegui processar algo que tinha ficado na minha cabeça desde que conheci o Paquistão: o quanto somos países parecidos. O quanto o sofrimento das mulheres é parecido. O quanto o feminismo precisa ser regionalizado para atingir as causas contextuais, mas ao mesmo tempo não deve se perder no extremo relativismo, mas sim se ater ao fato de que todas as mulheres do mundo sofrem com esse patriarcalismo que eu, sinceramente, ainda não descobri da onde vem.

No Brasil a gente também espera que a educação faça com que as pessoas parem de eleger políticos corruptos e parem, em primeiro lugar, de serem corruptas elas mesmas. Temos a concepção iluminista-kantiana de que o esclarecimento é a nossa salvação. Sabe-se, porém, a quantidade absurda de problemas que temos neste campo. Desde professores mal pagos, a lugares interioranos onde ninguém sabe ler ou escrever. E, assim como nas vilas do Paquistão, o problema é pior para as mulheres. Porque se a família não tem condições de dar estudos para todos, tende a preferir fornecer o estudo ao homem. A mulher vai se virar cuidando de casa – se não for a casa dela, pode ser a casa de outra mulher.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa sozinha. Não que tenha alguma lei que a proíba disso. Não há. Em ambos os países. Mas sabe-se que é muito mais arriscado para a mulher sair sozinha do que acompanhada por um homem. A solidão feminina tende a ser vista na rua como fragilidade, como potencial para roubos, sequestros ou a temida violência sexual – seja ela verbal ou física.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa com a roupa que estiver com vontade. É claro que, enquanto nossos problemas são sair com shorts curto ao invés de calça jeans, na cabeça delas nem passa a ideia de shorts ou saia. Porém, isso é questão de costume. Independente do tipo de roupa que eu ou elas querem usar, o fato é que antes de sair de casa, inevitavelmente, temos que pensar nos tipos de olhares que aquela roupa pode atrair. Porque, sendo mulher, o tipo de olhar importa muito.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui, vivem com medo. Medo de não poderem se expressar, de terem que viver em funções de homens, de ficarem “para a titia”, de não poderem ter filhos. De não quererem ter filhos e serem chamadas de estéreis ou de desumanas. De não serem femininas o bastante, ou de serem femininas demais. De não terem as mesmas oportunidades de estudo ou de trabalho e de serem vistas primeiro como “mulher” e depois como pessoa. Sendo sempre reconhecidas pela diferença em relação aos homens e não pelas inúmeras igualidades.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui querem ser ouvidas. Acham absurda a marginalização feminina, especialmente das mulheres que vivem nas periferias, no interior, nas vilas, nos sertões e semelhantes.

E, bem, se uma menina de dezesseis anos ganha o prêmio Nobel da Paz justamente por dizer que não aguenta mais essa coisa de que mulheres só servem para cuidar ou educar, significa que nossos problemas não são tão diferentes assim. Como Malala e seu pai sempre diziam, para que mulheres sejam educadas por outras mulheres (o que é bem importante para o Islã – e até para a “filosofia” Talibã), primeiro algumas dessas mulheres precisam ser educadas por homens, para aí se tornarem professoras e ensinarem as outras mulheres.

Sororidade é um termo que diz respeito justamente ao sentimento de irmandade que deve existir entre as mulheres e os diferentes feminismos. Não importa em quais âmbitos, todas as feministas querem a igualdade. Todas querem os mesmos direitos. Civis e humanos. No mundo inteiro. Com a ciência de que uma mulher paquistanesa preza por obter os mesmos direitos que um homem paquistanês, ao passo que uma mulher brasileira, preza pelos mesmos direitos que um homem brasileiro.

Feminismo é um termo que diz respeito à luta feminina pela conquista de direitos iguais, independente do gênero a qual o indivíduo pertença. Não diz respeito a dominar e tão pouco a ser dominada. Diz respeito a co-existir e conviver. Mútua e respeitosamente, no mesmo espaço – seja ele público ou privado. A gente não odeia homens, a gente só detesta a ideia patriarcalista reproduzida por eles – e por nós, afinal, também vivemos aqui – de que só é possível pensar no feminino a partir do masculino. O feminino existe em essência e não depende do masculino para tal. Mas já que ambos estamos no mesmo barco, tá na hora de aprendermos a navegar.

P.S.: Caros Talibãs, por favor, parem de matar crianças em escolas. Eu juro para vocês que elas não vão ser menos islâmicas por isso, pelo contrário, elas vão ficar tão inteligentes que vão entender melhor o que o Profeta falou e vão conseguir colocar mais em prática aquilo que ele disse. Elas vão ser boas pessoas e, se não forem, serão julgadas na hora correta. Só que essa hora não é agora então, por favor, parem. Apenas parem. De alguém extremamente chateada com o ataque a Peshawar.

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