Eu tenho um Complexo

É fato. E não é uma coisa do tipo “não gosto de mostrar os cotovelos porque são gordinhos”, eu jamais deixaria de gostar de qualquer parte da minha pessoa. A coisa é mais complexa, eu tenho algo que gosto de chamar de “complexo romântico”. Provavelmente vocês não fazem ideia do que significa, explico. Eu abomino a ideia de beijar um desconhecido em uma festa e nunca mais falar com ele. Na verdade, acho que abomino o conceito “festa”, primeiro porque as mulheres passam horas se produzindo para encontrarem rapazes com calça, camiseta, tênis e cabelo bagunçado. Elas pagam menos para entrar nos estabelecimentos, como forma de garantir que sempre haja mais mulheres do que homens nas festas. Elas próprias se desmerecem e acabam por usar roupas lastimáveis que as desvalorizam de um tanto que elas acabam por ser somente objetos prontos a satisfazer os desejos dos homens vorazes. É assim que eu vejo o mundo. Você sai para dançar e se divertir com os amigos e tem que ficar sempre de olho nos caras que passam por ti com um tremendo “olhar de gavião”, pra não dizer “comendo-te com os olhos” e eles vêm, bêbados e grotescos tentar de agarinhar de algum modo primitivo. Mas as mulheres estão tão acostumadas com esse ciclo que acham normal e legal o fato de serem desejadas por esses homens bizarros, tanto que se vestem para eles e contam para o mundo inteiro o que conseguiram na noite. Eu não sou assim. Eu abomino esse padrão com todas as minhas forças.

Começo pelo termo “pegar”. Acho esquisito ouvir que “fulana pegou sicrano” porque pegar é algo que você faz com um objeto. Você pega um copo. Você pega um táxi. Você pega um lápis e assim vai. Quando você diz que “pega” uma pessoa, está desmerecendo-a. Prefiro dizer que “fulana enlaçou-se romanticamente com sicrano”, porém esse termo não se encaixa com os fatos reais, devido ao fato de que não há romance nenhum, sentimento nenhum, apenas um monte de gente solitária que quer provar para o mundo que é mais legal ser solteiro do que comprometido, mas não está a fim de parecer desesperado o suficiente para estampar na cara “a procura de uma gata” e resolve sair na balada pra provar sua potência com o sexo que lhe atrai. No fim das contas, o termo adequado para o que realmente ocorre é “pegar” e isso é absolutamente triste. Eu sempre digo que da mesma maneira que não tomo refrigerante, não tomo bebida alcoólica, o fato é que ultimamente eu tenho me imaginado fazendo ambos, mas nunca tive coragem e nunca terei. A mesma coisa acontece com o “ficar”. Não sou do tipo de gente que “fica” com pessoas, já me imaginei fazendo, como creio ser normal, porém é algo que não faz parte da minha personalidade. Quando vou a festas e vejo minhas amigas “ficando” com desconhecidos eu acho esquisito e quando um desconhecido vem falar comigo em festas eu me sinto TÃO desconfortável que tenho vontade de sumir na hora. Porque em festas nenhuma pessoa nunca vai chegar para falar com você sem segundas intenções. E eu não gosto de sequer imaginar essas segundas intenções. Eu sei que eu tenho dezoito anos, sou solteira e deveria aproveitar a vida, mas a questão é que isso pra mim não é aproveitar coisa nenhuma, é desperdiçar. Desperdiçar saliva, energia e boa vontade com gente que a gente nem sabe de onde surgiu. Não.

Sou do tipo que acha absolutamente poética a música “I wanna hold your hand” dos Beatles, porque relacionamentos deveriam ser baseados unicamente nisso. Em querer pegar na mão do outro. Porque quando pegar na mão da pessoa for a coisa mais legal e maravilhosa do mundo para você naquele momento, aí sim vale apena resolver beijar a pessoa, se ambos estiverem dispostos a tal, claro. O mundo precisa é de amor e não de mais relacionamentos superficiais criados unicamente para extravasar desejos não realizados. Talvez eu soe medieval, mas sempre achei tão bonita a imagem que a minha mãe narrava de seu primeiro namorado, ela e ele sentados em um banco sozinhos na praça, enquanto um integrante da família de cada um os vigiava e eles conversavam e riam e um olhava pro outro fofamente e tã-dã eles davam as mãos. O auge do namoro era dar as mãos! Não que as outras coisas sejam ruins, garanto que não devem ser, mas a questão é que não consigo ver como elas podem ser boas sendo feitas de maneira indevida. Banal. Eu não gosto de ver gente tratando gente como objeto, não gosto de ver gente que se trata como objeto. Não gosto de ir a festas porque sei que terei que passar por tudo isso e fico tão aflita com toda a situação que as vezes desisto da festa. Isso é terrível, porque eu adoro festas. Eu adoro dançar. Adoro me vestir bem e fazer uma maquiagem divertida e dançar, porque dançar é divertido, é algo que não precisa ser compreendido, mas que faz tão bem às vezes que se torna necessário. Só que dançar agrega tantas coisas hoje em dia que se torna chato. Odeio quando coisas que eu gosto de fazer tornam-se chatas.

Eu sou do tipo que precisa estar apaixonada para agir romanticamente. E eu jamais me apaixonaria por um estranho que conheci numa festa. Principalmente considerando que a maioria deles são burros a ponto de nunca terem ouvido falar do meu curso. Jamais me apaixonaria por alguém que não sabe o que é o meu curso, que não gosta do que eu gosto e que sai por aí azarando menininhas em festas! NÃO! Assim sendo, talvez eu morra solteira ou isso ou conhecerei o cara dos meus sonhos em uma biblioteca na sessão de Marx. No teatro aprendi que “beijo técnico” é beijo sem sentimento e por mais que a maioria das pessoas dê “beijos técnicos” o tempo todo eu tenho a mais absoluta certeza que os restringirei apenas para âmbitos profissionais, isso se eu tiver coragem. E eu sei que isso é absolutamente esquisito de ser lido e que todos vocês discordarão de mim e tentarão escrever comentários para dissuadirem a mim de minha ideia, mas vou logo avisando que não há condições. Não há. Eu tenho complexo romântico e isso significa que sem amor não dá. E que meu estômago se embrulha com o fato de o amor estar tão em falta no mundo ultimamente. Prefiro ser a velha solteira dona de gatos do que a que se maquia e diz ser feliz em um casamento puramente superficial, de fachada. Eu prefiro coisas reais. Eu prefiro intensidade. Eu prefiro profundidade. Eu prefiro o conteúdo ao invés do pacote. E além de tudo, eu prefiro absurdamente um coração que fale mais alto que um cérebro.

0 thoughts on “Eu tenho um Complexo

  1. Mayra, te amo!
    Você disse absolutamente tudo que eu penso nesse post. Tu-do! Eu também não consigo ficar por ficar. Essa ideia me traz um vazio enorme. Eu sou do tipo que se define como super intensa e ultra romântica, mas eu tenho uma necessidade enorme de ver sentido nas coisas. Não vejo sentido em simplesmente pegar alguém. Não julgo quem o faça, mas não funciona pra mim. Essa coisa de beijar e se atracar com uma pessoa que nunca vi na vida e provavelmente jamais verei não combina comigo. Não me sinto à vontade. Da mesma forma que não consigo pensar em relacionamentos sem compromisso, o estado de ~estar ficando~ com alguém simplesmente por ficar. Vários amigos meus se pegam ocasionalmente e tipo, coisa mais normal do mundo pra eles, mas eu acharia estranhíssimo ficar com um amigo meu, ou colega, e no outro dia ver ele depois como se nada tivesse acontecido. Pode colar com os outros, mas não comigo.
    Nas raras vezes em que vou pra balada, vejo um ou outro carinha que eu penso: hm, pegaria. Mas sei que se chegasse às vias de fato, por melhor que fosse na hora – convenhamos né, dar uns beijos num cara bonitinho não é ruim – me sentiria mal depois.
    Não me adapto bem a esses relacionamentos modernosos e apesar de não ter um complexo romântico, acho que tenho um complexo sentimental. Tem que ter sentimento. É clichê, mas no meu mundo é assim que a banda toca.
    E fico feliz por ter alguém que me entenda. <3

  2. Você é meu orgulho, menininha. Eu fico, sabe; Fico. Já beijei um que eu não sabia o nome, e foi na mesma e única noite onde eu beijei 2 na mesma festa. E voltei pra casa me sentindo um lixo. Afinal de contas, não achei minha boca no lixo e não preciso pagar de moderninha aí e sair pegando um monte quando eu sei bem que nos meus sonhos eu já teria achado a muito tempo aquele em que eu vou querer beijar o resto da minha vida. Eu não vou ser hipócrita e dizer pra você que eu não faço isso, porque eu faço. Me maquio e vou pra balada esperando esbarrar em alguém que faça a noite ser mais animadinha. Só que eu sou daquelas que vou pra balada achando que posso tropeçar no amor da minha vida, e não em arranjar um cara pra pegar, sabe assim? HAHAHA. A mais retardada. Fico por ficar, mas não acho que esse seja o mundo ideal NÃO. Porque eu também sou romântica pra caramba, e me arrepiei toda com esse trecho sobre pegar na mão. Porque você arrasou muito! Isso faz TODO o sentido! Quando você tem toda a vontade do mundo de ficar do lado de um cara de mãos dadas, aí sim, o beijo vale a pena! <3
    Te amo!

  3. Mayra, pelamordedeus guria, tu falou tudo o que eu penso a respeito disso em um texto só! Posso mandar pras minhas amigas? Elas vão odiar, porque elas banalizam o envolvimento romântico – que de romântico não tem nada, ao menos não com elas – mas de qualquer forma eu quero que elas leiam isso.
    Os namoros que tive (2 ex e um atual) foram todos vigiados pela família. Minha família é daquelas cheias de tradições, sabe? Então. O primeiro encontro com meu atual, então, foi fofo demais: eu, ele e mamãe nos vigiando. E ele demorou um tempão pra pegar na minha mão. Mas aquilo foi tão significativo que eu cheguei a escrever sobre. haha
    Pra beijar demorou bem mais… e eu acho isso incrivelmente bom, porque teve tempo de haver um envolvimento, algo maior e não apenas físico.
    – isso disse a menina que não é nada romântica, haha –
    Gosto de festas. Mas acabei pegando uma ojeriza danada delas por conta desse tipo de coisas e acabo nem indo.
    Meu sonho é encontrar o cara dos meus sonhos numa biblioteca, em uma seção de livros mais “adultos” e filosóficos. *-* (apesar de estar namorando, mas vai saber, a vida é imprevisível, infelizmente…)
    – virei sua fã ♥ –
    Beijo!

  4. Não posso dizer que nunca fiquei por ficar, mas também não posso dizer que fiquei sem o mínimo de interesse, sem achar no mínimo interessante ou legal. Nunca fui em baladas e não tenho a menor vontade de ir por N motivos e acho que um deles é exatamente tudo isso que você descreveu. Festas também são pouquíssimas. Prefiro barzinhos ou showzinhos e coisas assim (pra não falar teatro, apresentações de orquestra, eventos literários… hahaha). Já quis muito ser do tipo que vai pra toda e qualquer balada e beija quem quiser sem sentir culpa, muito mesmo. Especialmente em cada mágoa/decepção que tenho com ~alguém~. Só que não dá. Não é de mim. Não vale a pena, eu acho. E olha que alguns amigos me ~bullyinam~ (haha) por isso. Eu acho tristíssimo isso que você disse. Como se fosse vantagem para as meninas tem caras as agarrando ou tentando coisas mais nojentinhas. Isso pra não falar os que forçam, os que fedem cigarro/álcool, etc.
    E sempre achei um absurdo de ridículo isso de o preço das baladas ser menor pra mulheres. É objetificar demais pra mim.
    Você é uma gêniazinha, May! Por isso gosto tanto de você!

  5. é bom ver gente que pensa dessa maneira. tendo a pensar dessa forma,que não vale se não tiver sentimento. sou muito mais dos beijos com algum sentimento (apesar de ter traído esse meu modo de pensar há um tempo atrás…http://emyhouseplus.wordpress.com/2012/06/27/antes-de-dormir/). Acredito que as pessoas deveriam se dar o devido respeito,sabe? Mas,hoje,poucos querem saber disso. É como se todos estivessem declarando liberdade às sanções arcaicas que validavam as mãos dadas (por exemplo).Ser romântica nesses moldes se tornou uma característica rara.

  6. Poxa, tô me sentindo uma estranha aqui, mas vou fazer minha defesa.
    Eu também nunca me imaginei ficando com um desconhecido, achava uó essa ideia e achava que jamais conseguiria. Mas, por algum motivo estranho, acabei ficando, depois fui embora com a sensação de “poxa, esse cara é legal e eu nunca mais vou vê-lo de novo” e, bem, você sabe no que deu. No entanto, eu sei que essa é uma situação rara, raríssima, e eu dei sorte.
    E sobre festas, eu não sei o que acontece comigo (dizem que é porque eu tenho cara de poucos amigos), mas desde que comecei a ir em baladas e tal, acho que só uns dois caras chegaram em mim, de um jeito bem nojento e eu fiquei com vontade de virar a mão na cara, mas depois eu vi minhas amigas rindo de mim, da mesma forma que eu riria delas e tudo virou piada. Minhas amigas têm a mania, para mim, desesperadora de socializar com todo mundo nas festas, nisso já acabamos passando a noite inteira conversando com um pseudo-metaleiro divertidíssimo.
    E sobre bebida, só bebo na casa de amigas.
    Enfim, espero que não tenha ficado chateada comigo. Eu já pensei que nem você e sei que é um saco quando as pessoas ficam tentando mudar nossa opinião sobre isso, mas eu não tô tentando mudar a sua opinião, só estou te mostrando o ~outro lado~, HASUIDASI.

    Beijo, May <3

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