Eu Vi o Vídeo.

Eu já quis morrer e não daquele jeito que todos querem quando estão cansados por algum motivo. Eu realmente quis morrer. Planejei mil tipos de morte, fiz testamentos e traumatizei muitos amigos com minhas falações deprimidas de quem dizia dar boa noite sem saber se seria pela última vez ou não. Eu sofri e me martirizei e hoje não me arrependo de não ter concretizado o ato, tenho é orgulho de mim e ao mesmo tempo fico cabisbaixa tentando entender as razões para tudo ter acontecido da maneira que aconteceu. Eu vi um vídeo de suicídio.

Lá estava eu sentada na segunda carteira da fileira da janela apreciando uma aula de história – minha matéria favorita, mas que nesse ano tinha uma professora péssima – quando o coordenador da escola bateu à porta e a chamou para conversar. Não só eu como a sala inteira ficou assustadíssima ao ver que a professora retornou chorando abundantemente e nos dizendo, em meio aos soluços que deveríamos arrumar nossas mochilas e ir embora. Estávamos liberados da escola. Mal sabíamos nós que na verdade o prédio tinha que ser evacuado pois havia ocorrido uma morte ali dentro. Eu vi o vídeo de um menino morrendo.

Há um filme em que o assassino prende a vítima em uma sala e começa a filmar a situação, que é de tortura. Então quanto mais acessos o site tem, mais cruel as coisas ficam, até que a pessoa morre. Uma pessoa morre graças ao acesso das outras e mesmo sabendo disso, os curiosos do mundo não perdem a oportunidade de entrar no site. Eu vi o vídeo de um menino se enforcando.

Cheguei ao psiquiatra, contei minha situação, mamãe sem saber mais o que fazer pois eu até tinha deixado de ir pra escola e não conseguia fazer absolutamente nada da minha vida, ele me prescreveu um remédio e me disse “é só um calmante pra passar o surto, para melhorar de vez você deverá ler muita filosofia. Só assim você melhorará”. Obedeci o nobre senhor e logo as piras que o remédio me faziam sentir acabaram e só me restou a boa e velha filosofia de sempre. Fiquei em recuperação pela primeira vez e mudei completamente a minha vida escolar. Queria desvincilhar-me de tudo que me fazia lembrar daquele dia porque mesmo eu não conhecendo a garota, doía. Demais. Eu vi o vídeo de um menino se enforcando em sua própria casa.

Escrevi um texto para a falecida e uma de suas amigas veio falar comigo e me ensinou a viver, ou melhor, a sobreviver nesse mundo absurdamente bizarro em que fomos inseridos, sem sair muito danificada. Acho que eu aprendi. Já se passaram três anos e eu ainda estou viva. É um bom sinal. Sempre tem alguém que se importa. Sempre tem alguém que vai sofrer. Mesmo que seja alguém que você não conhece. Eu já passei por isso. Eu desisti por causa disso. E mesmo assim, eu vi o vídeo de um menino se enforcando em sua casa e filmando com sua webcam.

Não importa o quanto de filosofia eu tenha lido nesse meio tempo, ainda não fui capaz de compreender e creio que jamais serei. Já estive nos dois lados da história e não sou nem boba em dizer que “senti o que um suicida sente” porque certamente, se eu tivesse sentido não estaria mais aqui e estou. Considero-me uma sobrevivente embora por muito tempo tenha me considerado nada mais que uma covarde e em meio a todos os meus pensamentos insanos eu teria dado tudo para realmente ter tido coragem de ir embora. Agora não mais. Agora acho que covardes são os que se rendem, os que desistem de lutar, os que deixam de perceber que em meio a tanta maldade há certas coisas boas, há pessoas boas, há coisas que valem apena. Hoje eu descobri que prefiro ser lembrada pela minha vida do que pela minha morte. Não é que eu tenha abdicado da ideia de ter uma morte impactante, só quero que a vida seja ainda mais. Hoje eu penso em voltar a um psicólogo por razões completamente diferentes. Pensar que tem gente que desiste de sua vida me dá pena e eu automaticamente começo a chorar. Ocorre um suicídio a cada 40 segundos no mundo todo e isso é um absurdo porque todos deviam simplesmente ser satisfeitos com a sua vida e ter forças o suficiente para buscarem as mudanças que gostariam de ver.

Eu já tinha ouvido falar de gente que filma a própria morte. Eu já estive em um fórum com uma pessoa que disse que iria se matar e filmar pra gente ver e não querer fazer o mesmo, mas ela desistiu e eu sempre achei que no fim a maioria das pessoas desistia. Sempre achei que pra chegar às vias de fato a pessoa devia estar realmente distante de si mesma, da vida, de tudo. Qual o sentido em filmar a sua morte e colocar na internet? Eu imagino os pais dessas pessoas, quando descobrem que seus filhos discutiram sobre se matar antes e os inúteis do fórum não fizeram nada para impedi-lo. Ou talvez tenham feito, mas não tenha adiantado. Nem sempre adianta, no fim das contas. Tem gente que simplesmente está distante da vida o suficiente para só pensar na morte.

Eu, bem, a morte foi o meu primeiro amor. Não estou brincando. Eu achava fantástica a ideia de morrer e acordava todos os dias planejando como faria, já tentei algumas vezes, mas sempre que eu começava a tossir desistia, afinal, eu queria morrer, não sofrer para morrer. Eu pensava em todo o sangue saindo de mim e ai, eu adoro sangue. É tão bonito. Tão poético. Então pensava que seria mais legal se eu morresse por algum amor, mas eu não conseguia amar ninguém, estava preocupada demais apaixonando-me pela morte. Sim. Eu sou estranha. Eu sempre fui. E meu lance com a morte durou até o meu avô morrer. Porque eu querer morrer é uma coisa, mas eu ver as pessoas que eu amo morrendo, ah… isso é terrível.

Imagino os pais das pessoas que filmam suas mortes assistindo depois que já não lhes cabe nada a fazer. E nem precisa ser os pais, amigos, parentes ou até mesmo conhecidos. Até as pessoas que mais te odeiam, se te vissem em uma situação dessas tentaria te ajudar a continuar vivo. Porque viver é a nossa saga. É o que todos devemos fazer a partir de quando nascemos. Interferir na nossa própria morte é um absurdo, porque ela é a única coisa natural que ainda resta no mundo. Deve ser preservada e não provocada. Deve acontecer quando tiver que acontecer e sempre tem um momento para isso.

Hoje eu amo diversas outras coisas mais que a morte. Aliás, nem consigo mais dizer que amo a morte. Não tenho medo dela, ainda a acho poética em diversos sentidos, mas me considero bem resolvida o suficiente para evitá-la por completo. Hoje eu sequer consigo pensar na possibilidade de tirar a minha vida, porque me dói só de pensar. Sofro só de pensar. Choro só de pensar. Hoje sei que sou um alvo da sociedade que quer todos vivos e satisfeitos com o que quer que tenham, eu estou absolutamente satisfeita e isso é incrível. Achava que jamais estaria. Hoje eu olho para trás e custo a crer que aquela pessoa era a minha pessoa, a minha pessoa sorridente e piadista, que explode e faz dramas, que se acha quadripolar mas tenta amenizar as coisas sempre que pode. Eu olho pra trás e vejo uma sombra, uma coisa que eu não sei ainda se tenho vergonha por ter sido ou orgulho por ter vencido. Olho pra trás e não vejo eu. Por quanto tempo será que deixei de ser eu?

Acordei ansiando por escrever esse texto. Porque ontem eu vi o vídeo e quase morri do coração. Chorei em posição fetal como fiz há três anos – em menor intensidade agora, obviamente. Cri que dormiria e sonharia com tudo aquilo, teria pesadelos e acordaria devastada, mas pelo contrário, eu só acordei mais resolvida comigo mesma. Talvez filmar a própria morte – como tudo na vida – tenha um lado bom. Ou não. Quem sou eu para saber essas coisas? Sou apenas uma garota comum de dezoito anos que tenta entender porque tomou certas atitudes e ser boa o suficiente para não errar duas vezes.

Afinal, a morte é o segredo da vida. É a força propulsora para nossos movimentos e nossas quebras de padrão. Nas listas sempre consta “o que fazer antes de morrer”. A gente só se esforça pra fazer tudo vale apena porque sabemos que um dia acaba e se não soubéssemos viveríamos como os animais, que não tentam fazer nada de diferente e acham a vida deles e tudo que aprenderam a fazer mais que suficiente. O que nos difere dos animais é a consciência da morte, me falaram uma vez e devo dizer que neste momento da minha vida concordo com o tal fato. A gente só vive bem porque sabe que vai morrer. E quem já teve experiências quase suicidas e melhorou geralmente se esforça ainda mais para viver melhor, sempre melhor.

Hoje eu não quero morrer. Pra nada.

 

 

 

0 thoughts on “Eu Vi o Vídeo.

  1. May, que profundo. E fico feliz em ver que você se resolveu com você, por mais que muitas pessoas tentem ajudar, tem coisas que ninguém muda em nós, além de nós mesmos, nossas vontades e determinção. Beijo, ♥

  2. Nossa, Mayroca, que texto foda. Nem tenho o que dizer. Acho morte uma coisa fascinante, pelo seu mistério, e ao mesmo tempo assustadora. Eu tenho total pavor de pensar que as pessoas ao meu redor vão morrer. Se penso demais nisso perco o sono durante a noite. Quanto a minha morte, acho tranquilo lidar com isso. Nunca quis de fato morrer, mas não acharia ruim morrer (?), se é que isso faz sentido. Não tenho medo, sabe? Acho que morrer deve ser bem melhor do que estar viva, mas isso é porque eu acredito num outro lado. Assim sendo, vejo a morte mais como uma libertação.
    Não sabia dessa sua história e olha, se você morrer eu te mato, tá?
    Ah, você já leu As Virgens Suicidas? Fiquei pensando nesse livro por meses inteiros depois que li, mucho foda. E você deve ler o Suicídio do Durkheim na faculdade, sou louca pra lê-lo!
    beijocas

  3. Meu Deus, Maymay! Que texto incrível! Olha, eu morro de medo da morte. Pra mim e pra todas as pessoas que eu amo, é um assunto que me deixa completamente angustiada e eu fico me forçando a não pensar no assunto. Eu pensando ou não, ela vai acontecer. Então evito estressar minha mente com essas coisas, porque perco totalmente o sono. Mas, contudo, eu acredito muito que exista um outro lado. Acho que somos coisa demais pra nos resumirmos a isso. A alma é uma coisa muito maior que isso aqui, e às vezes eu penso que sim, a morte nos salva da vida. Só que não a provocada. Isso aqui é um filme que acaba. E não sou eu que vou cortar o meu pela metade. Fora que, para o espiritismo, e eu acredito muito nessa doutrina, o pior caminho após a morte é o do suicida. Eles pensam que estão se livrando das coisas, mas encontrarão dificuldades ainda maiores, pela covardia em enfrentar. E mesmo que eu pensasse em suicídio, eu jamais teria coragem de ceifar minha própria vida. Porque eu acredito que nada é tão ruim que não possa melhorar, e vai que eu estarei sendo tola o suficiente pra acabar com tudo bem na hora que tudo ia ficar bom? Eu não. Prefiro pagar pra ver. E se tudo o que vier tiver que ser sofrimento, por mais que eu me permita meus momentos de desespero total, eu tendo respirar, fechar os olhos e mentalizar: “é tudo aprendizado, e essa não é a única chance.”
    Beijos, flor!

  4. Morro de medo da morte e fico intrigada com pessoas que decidem por elas mesmas que a vida não vale a pena. Se eu já pensei em morrer? Várias vezes, mas sempre olhava pelo outro lado e via que tinha coisas e pessoas pelas quais valia a pena viver. Tem gente que pensa que suicídio é um ato de covardia. Pra mim é justamente o contrário. Tem q ter muita CORAGEM de pôr fim a tudo de uma forma dessas.
    Beijão p/ ti, quase filha!

  5. Que texto foi esse em? Me senti no seu lugar em algumas partes. E mais uma vez fico perplexa com as nossas semelhanças. Enfim, mais um assunto para a próxima carta! (:
    Beijo, te amo.

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