Feeling the Falling

Meus pais sempre falaram pra eu sonhar. Posso não ser a filha mais obediente do mundo, mas esse mandato em específico eu nunca deixei de perseguir. Eu raramente acredito na viabilidade dos meus sonhos, mas isso nunca me impede de tê-los. E foi assim que eu sonhei em viajar sozinha pra um lugar distante, em que eu mal conseguisse entender a língua falada e tivesse que redescobrir em mim todos os meios possíveis para fazer aquela coisa tão simples que todos deveríamos nascer sabendo: viver.

Sabe-se que o comodismo, a preguiça e a falta de vontade de tentar me assolam há muito tempo e foram eles que me impediram de muitas coisas que eu poderia ter feito, muitos sonhos que eu poderia ter realizado, mas eu simplesmente ignorei. Decidi não ignorar este. Ter um pouco de vergonha na cara e tirar do fundo do copo vazio um pouco de coragem. Insisti, briguei, persisti, chorei, fiquei nervosa, achei que depois disso nunca mais conseguiria encarar o comum, tive frio na barriga e pensei que era completamente maluca. Quis rasgar as passagens, quis dizer que desistia, mas mais que tudo, eu quis vir. Redescobrir a mim. Em busca da minha natureza selvagem.

É claro que eu nunca vou chegar aos pés do McCandless. É claro que eu nunca vou sentir um milionésimo do que ele sentiu. É claro que eu não quero isso. Não quero sê-lo e vivê-lo, eu quero ser a mim e viver o que eu tiver que viver e foi exatamente isso que eu aprendi com ele. E com o Paquistão? Bem, com o Paquistão eu aprendi e continuo a aprender inúmeras coisas. Cada dia é um mergulho a um abismo diferente e cada detalhe é tão merecedor de ser apreciado que torna-se impossível relatá-lo a alguém.

Passei quase vinte dias sem postar algo no meu blog e acho que durante os quatro anos que ele existe isso nunca tinha acontecido. Aliás, o blog fez aniversário nesse meio tempo e eu voltei pra ler os primeiros textos e rir. É curioso reparar como deixei anotado cada traço do meu próprio crescimento, sem nem perceber. Ainda tenho muito a traçar e a percorrer, mas no momento me sinto feliz, em paz, desacreditada, contente e morrendo de saudades de uma feijoada.

Sinto a queda todos os dias e posto fotos sobre minhas longas noites aqui. E as referências para estes nomes aparentemente pessimistas só provam que a tal experiência está realmente sendo sentida. A mim só resta agradecer aos que a proporcionaram e aos que aguentam os relatos minuciosos. Perdoem-me a ausência, algum dia volto ao normal.

2 thoughts on “Feeling the Falling

  1. Eu sorri tanto, mas tanto lendo isso. E depois chorei lendo a poesia paquistanesa. Juro que foi assim, com segundos de diferença.
    Tenho 9 amigos viajando no momento. Estou muito feliz por todos eles, mas sinto que fico muito mais feliz por você. Não sei, talvez você não esteja sentindo isso, mas eu tô me sentindo muito conectada a você, mesmo que não nos falemos direito desde antes de você ir.
    Cada linha desse texto me acalentou, May. Eu tava ontem no ponto de ônibus e começou a tocar Long Nights. Eu tava de óculos escuros, então achei que ok chorar. Mas chorei rindo, foi ótimo. Não consigo explicar. Só tô muito feliz por você. Muito orgulhosa.
    Amo você.

  2. May, fico feliz de ler tudo isso. Muito feliz por você! E orgulhosa por sua coragem! De verdade! Sinta…sinta tudo que deve sentir!
    Beijos!

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