Freneticamente

Sempre fui ansiosa. Níveis extremos. Nunca consegui dormir na véspera do primeiro dia de aula, por exemplo. Minha mãe sempre achou uma tremenda frescura, mesmo quando era em escola nova. Ela vivia dizendo que eu sempre mudava de escolas mesmo e que eu que pedia, então não tinha porque ficar ansiosa. E quando era na mesma escola ela dizia que não fazia sentido, porque tudo ia continuar sendo igual. A questão é que nada nunca é igual, como em uma das primeiras frases de filosofia que eu ouvi falar na vida, a gente nunca entre no mesmo rio duas vezes, nem ele é o mesmo e nem nós. Eu tinha todo motivo do mundo pra ficar ansiosa.

A questão é que eu cultivo a minha ansiosidade. Chocolate, por exemplo, é a coisa que eu mais como, desde que me entendo por gente e é sempre por motivos de: ansiedade. Porque ele me ajuda a lidar com ela, a ficar mais e mais e mais ansiosa até explodir e ao mesmo tempo a acalmar quando a explosão ocorre.

Não durmo nas vésperas dos primeiros dias porque eles nunca são só “primeiros dias”, eles são começos. Na cabeça de ansiosos, começos nunca são só começos, eles sempre estão atrelados aos meios e aos fins. Logo, antes mesmo do primeiro dia de aula, eu já estou sofrendo por todas as finais que eu vou pegar, pelos dias que vou decidir que preciso dormir ou ir ao cinema, mesmo sabendo que tenho um trabalho/prova importantíssimo para o outro dia. Já sofro pela solidão eminente, porque em algum momento eu vou cansar das pessoas e desejá-las arduamente ao mesmo tempo. Sofro por cada centavo que será gasto na cantina, maioria das vezes na compra de mais chocolates. Sofro pensando em tudo que eu poderia e deveria aprender e não vou porque vou ficar com preguiça e o nervoso vai se proliferando e daqui a pouco estou sofrendo porque ouvi falar que o professor da matéria x é muito bom ou muito ruim e porque vou ter que estudar autor tal e ele parece insuportável e porque vai ter MAIS TEXTOS DE ÍNDIOS e mais uma matéria de arqueologia e mais tudo enquanto eu podia estar simplesmente dormindo e ai, por que que eu não durmo?

Neste ponto costumo levantar da cama, pegar meu diário e escrever o máximo de caraminholas que saírem da minha cabeça. Aí começo a escrever cartas que nunca serão enviadas e minhas pernas começam a ficar extremamente inquietas e nunca mais param de mexer e a agonia é tão grande e tão intensa que eu simplesmente surto, deito em posição fetal e choro visceralmente até finalmente cair no sono, o que geralmente ocorre meia hora antes da hora de acordar e quando essa hora chega e é percebido que o primeiro dia de aula está ali para ser enfrentado e que todo o sofrimento noturno está prestes a ser real, finalmente fico em paz.

No estágio de paz, que fique claro, todas as preocupações, problemas inventados e os “socorro eu preciso ler MIL PÁGINAS até segunda feira!!!” se transformam em “dane-se, vou dormir” e tudo é uma constante bola de neve.

Outro dia estávamos na frente da casa de uma amiga e tínhamos que tocar a campainha para entrar, eu disse “toca você, eu tenho pânico de inícios” e minha amiga não entendeu. Eu inventei o nome, não sei se isso existe, mas eu devo ter algo do tipo. Toda essa epopeia da noite pré-primeiro-dia-de-aula acontece em graus menores a cada vez que tenho que dar o pontapé inicial em alguma coisa. Eu odeio rotinas, porque gosto de me surpreender, acho que vida sem adrenalina e motivos para ansiedade é super sem graça. Quando a vida está chata eu como muito chocolate só pra ter overdose de açúcar e poder deixar minhas pernas tremerem em paz, enquanto a cabeça funciona freneticamente. E toda vez que eu tenho que dar oi para uma pessoa nova, assistir alguém que eu gosto muito apresentando algo muito importante, toda vez que eu tenho que apresentar coisas, que eu tenho provas emblemáticas e que eu me enfio em situações passíveis de serem destrinchadas de mil e uma maneiras diferentes, o emaranhado de pensamentos não-cíclicos retorna e lá estou eu, um dia antes da coisa chegar (às vezes acontece em doses menores, na hora mesmo) sofrendo, tremendo, querendo fazer passar e ao mesmo tempo amando tudo e achando o máximo.

É por isso que eu odeio fim de semestre (ao mesmo tempo em que acho genial não precisar de café pra ficar elétrica). A inquietude toma conta, a protelação domina e a vontade de preencher o tempo fazendo qualquer outra coisa que não o necessário é eminente. De repente estou ouvindo a discografia inteira do Charlie Brown Jr e contabilizando quantas letras eu sabia, estou categorizando pastas do computador ou procurando um livro que cure minha ressaca literária. De repente estou com a disritmia atacada e auto boicotando minha ingestão de chocolates para preservação da própria vida. De repente estamos em Dezembro e cada dia do mês já foi passado e repassado tantas vezes, já me fez sofrer e tremer tanto e criar tantas expectativas e decepções por coisas que jamais serão vividas, que me vejo planejando meu Carnaval. Sem sequer saber se estarei viva lá. Sem sequer gostar de carnaval.

Os dias andam frenéticos. O ritmo está cada vez acelerado. Enquanto o coração tenta se acostumar e dar conta, a cabeça só consegue sofrer antecipadamente de saudades, enquanto o lado racional roga para que a centralidade retorne e eu consiga terminar meus trabalhos e provas em paz. Não há abraços, chocolates ou noites bem dormidas que possam passar a aflição que só o tempo, maldito, pode vir a fazer passar. O frenesi é constante.

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