Gente como a Gente

Logo no início do semestre a turma foi informada de que participaria de uma aula em campo, eu fiquei empolgada com a ideia, pois acredito ser muito importante ver na prática tudo que estudamos em teoria. No início imaginei que visitaríamos uma indústria, que é o foco principal dos trabalhos de Marx, mas fiquei satisfeita quando fomos informados de que iríamos a um assentamento. Meu irmão já tinha ido até lá e me disse que eu iria gostar. Esperava encontrar um lugar pequeno e mal organizado, repleto de gente que não estudou por acreditar que a vida camponesa é que é a correta. Acreditava que eles moravam em barracões e que os banheiros seriam sujos. Hoje vejo que tudo que eu achava previamente sobre o movimento, todos os meus pré-julgamentos e pré-conceitos eram condizentes com a imagem que nos é passada pela mídia a respeito daquelas pessoas tão amáveis e queridas.

A viagem foi demorada, mas não o suficiente para que eu pegasse no sono e foi tanto tempo na estrada de terra que não conseguia parar de pensar em como é que alguém era capaz de viver tão “longe da civilização”. Imaginava que para irem à escola teriam que andar tudo aquilo, se quisessem algo do mercado a mesma coisa e fiquei triste em pensar que provavelmente eles não conseguiam ir ao cinema ou ao teatro, coisas que eu tanto amo e não sou capaz de me imaginar sem. Acho que só pelo fato de termos tido a oportunidade de entrar em contato com algo tão diferente da nossa realidade a visita já teria valido apena. Mas valeu apena por muito mais. Ao descermos do ônibus eu já sabia que estávamos onde realmente ocorreu a Guerra do Contestado, esse fato por si só já era incrível. Quando fomos encaminhados para um grande salão e soubemos que aquele lugar existe desde a época da guerra, para mim foi um momento histórico. Eu gosto dessa coisa de pisar onde grandes fatos ocorreram, é emocionante. Mais emocionante ainda foi a palestra nos dada pelo Capitânio Antônio, Seu José e Dona Maria.

Logo de começo o rapaz do setor de comunicação foi animar o ambiente. Tudo que eu pensava a respeito do movimento já começou a mudar ali: eles tinham um setor de comunicação com músicas de animação de palestras! Participei das danças e fiquei com uma das músicas na cabeça por semanas depois da visita. Ela é assim “Só só sai, só sai reforma agrária com a aliança camponesa e operária” e se a música deles já era legal, a palestra então nem tenho como comentar. Sobre o movimento eu aprendi que surgiu em 1984, atrelado à Teoria da Libertação e à Pastoral da terra, da Igreja Católica, baseando-se no Estatuto da Terra de 1964 que afirma “Se a terra não cumpre a função social torna-se passível de reforma agrária”. No século XXI afastaram-se da Igreja elegendo a laicidade do movimento. Atualmente, porém, a terra deve não cumprir seu papel social e o fazendeiro deve ser indenizado, ou seja, o governo deve comprar a fazenda do fazendeiro pelo valor de mercado. Assim sendo quando eles sabem de uma terra que se encaixa nos termos necessários, acampam nela até que a situação se resolva e eles possam a vir a ser assentados. A terra não é dada às famílias, elas recebem apenas um direito de uso, passível de troca, mas não de arrendamento ou venda.

O Movimento surgiu simultaneamente nos três estados da região Sul, sendo no PR criado graças à inundação do Rio Iguaçu, devido à construção da usina de Itaipu, que acabou com a terra de muita gente, deixando-os desabrigados. Para se reerguerem decidiram organizar-se em Movimento Social.

O Movimento vê a luta pela Reforma Agrária como uma luta contra a burguesia e acredita que não se trata apenas de terra, mas sim da manutenção da agricultura familiar e da cultura camponesa vivas, mesmo na era tecnológica em que vivemos. Sua organização hierárquica consiste em uma pirâmide. Na base encontra-se o núcleo ou brigada com os representantes de cada assentamento, no meio encontra-se a brigada de representantes estatais e no topo os representantes nacionais. Em todos os cargos há paridade de gênero. Atualmente há cerca de vinte mil famílias assentadas e seis mil acampadas.

Fiquei impressionada ao saber que lá mesmo no assentamento há uma escola para as crianças e ainda uma universidade! Eles nfrentam o latifúndio do conhecimento, reerguendo a educação camponesa, assim surge a pedagogia do movimento, com uma escola libertária que visa emancipar o conhecimento humano através de uma pedagogia revolucionária, baseada na de outros países já revolucionados por camponeses. Constituem uma rede nacional de escolas autônomas e vinculadas ao estado. O sistema trabalha desde os bebês a pós-graduação chegando até ao doutorado.

Criticam a Revolução Verde decidindo-se pela agroecologia, não reproduzindo o padrão tecnológico usado pela primeira. Com o ensino formularam uma prática de resposta, a Escola Latino Americana de Agroecologia. Até 2000 não havia escolas de agroecologia. As primeiras foram criadas no Paraná. Duas escolas vinculadas ao Movimento de Reforma Agrária, sendo uma lá (a primeira de agroecologia do país) e outra na Venezuela, ambas com caráter de ensino superior, sendo o daqui tecnólogo. A carga horária é integral com aulas teóricas, práticas e ensino da cultura camponesa. O curso dura três anos e meio e os alunos estudam por setenta e cinco dias e trabalha por noventa enquanto realiza pesquisas. O IFPR é o responsável pelo reconhecimento formal da graduação. A Escola Latino Americana de Agroecologia é exclusiva para membros dos movimentos camponeses de toda a Via Campesina (junção de todos os movimentos camponeses da América Latina). Os professores são voluntários. Além da faculdade há a Circunda infantil, a Brigada Chico Mendes dentre outros cursos informais.

O jornal faz parecer que aquelas pessoas são tão bobas e loucas por terra que não sabem nada, que quando eu soube de todo o valor que eles dão para a educação, tive vontade de gravar o que falavam e obrigar o jornal a mostrar. Eles valorizam o aprendizado mais do que a nossa sociedade, a meu ver. Antônio, por exemplo, disse uma frase que me marcou muito e que muitas pessoas da cidade não percebem com a clareza que ele percebe, a frase é a seguinte: “O estudo liberta o ser humano e o país, com estudo o povo consegue a mudança.”.

É incrível como há tanto conhecimento escondido em coisas tão simples, em pessoas tão simples. Eles são tão lindos por dentro, têm tanta coisa para ensinar para a gente que desde o dia 14/05 eu não consigo parar de pensar na injustiça que a televisão faz para com eles. E eles têm noção disso, falaram para a gente várias vezes sobre o poder da mídia. Inclusive a compararam com aquela viseira que se colocam em cavalos, para os impedirem de olhar ao redor, falaram que a mídia é como essa viseira, impede as pessoas de enxergarem o que ela não mostra ou pelo menos de terem outros pontos de vista sobre o que ela mostra.

Depois da palestra fomos conhecer a escola do assentamento, que está sendo expandida. Ela tem cerca de quatro salas e não foi construída para ser uma escola, era uma casa que eles transformaram em escola. Ela começou a funcionar como sendo exclusiva dos assentados, com professores voluntários dali mesmo, mas conseguiu reconhecimento do estado e agora funciona como uma escola estadual rural, com professores da rede estadual de ensino e alguns do movimento. Além das matérias tradicionais são ensinados os valores do movimento e sua história, para que desde sempre os membros saibam do que fazem parte e se motivem a continuar ali. Visitamos também a obra de expansão da escola, que está sendo construída com apoio do governo do estado e vai ter mais salas com melhores condições de ensino e a possibilidade de abranger mais assentados.

Então chegou a hora do almoço e todos foram encaminhados ao refeitório. Lá pagamos a quantia requerida para almoçar (R$10) e fomos nos servir. Tudo que eles comem é fruto de suas hortas, livre de agrotóxicos e qualquer outro tipo de química, por isso tem um gosto diferente dos alimentos comprados no mercado, mas diferente para melhor. Tinha bastante salada, arroz, feijão, carne e suco. O feijão era delicioso e a cuia para servi-lo era curiosamente grande. Depois de comer cada um deveria lavar seu prato em uma das pias disponíveis e isso foi interessantíssimo, pois muitos dos alunos nunca haviam lavado um prato ou pelo menos não tem costume de fazê-lo, mas ali fizeram. Em seguida as turmas foram divididas e cada uma foi conhecer um pedaço do local. Minha turma foi para a casa de uma família, conhecer a horta. Tivemos que ir de ônibus porque era longe, o que prova que o terreno é grande e isso é muito bom, pois quanto maior mais famílias, mais comida boa e mais qualidade de vida e gente contente em ser camponês. Dona Maria foi quem nos guiou e explicou que há uma horta para cada três famílias, todas elas em forma de mandala, ou seja, são circulares e alinhadas com os planetas e com os ventos. Isso ajuda num maior crescimento e qualidade das hortaliças. A irrigação é feita por mangueiras ligadas a um pequeno açude em que são criados peixes. Eles também criam outros animais como porcos, vacas e galinhas, porém não podem vendê-los por não possuírem um abatedouro equipado conforme a regulamentação da ANVISA, no entanto eles podem vender as hortaliças e o fazem. Eles participam do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) em que cada família vende R$4500 por ano para o governo que distribui os alimentos para instituições sociais. Já chegaram a ajudar catorze instituições em um único mês, pois produzem além do que necessitam para subsistir e com isso veem-se na obrigação de fornecer seu alimento puro para a maior quantidade de pessoas possível. Está para ser aprovado também o PNA em que pelo menos 30% da merenda escolar deverá vir da agricultura familiar.

Quando Dona Maria foi questionada sobre a aquisição de medicamentos, respondeu que eles plantam os medicamentos, ou pelo menos grande parte das plantas que dão origem aos medicamentos e que como a comida deles é orgânica e natural, a quantidade de doenças adquiridas é menor, tendo em vista que grande parte das doenças atuais deriva da ingestão dos agrotóxicos.

Segundo ela as mesmas empresas de agrotóxicos são as que produzem os medicamentos para curar as doenças que eles causam. Fomos também à outra casa em que havia um quintal repleto de árvores frutíferas, o que fez com que os alunos comessem mimosas direto do pé, algo inédito para a maioria. Ao invés de voltarmos ao local de partida, fomos ao encontro da outra turma que estava na Cooperativa do Assentamento. É para lá que as famílias enviam os alimentos que ultrapassam sua subsistência e é onde eles são selecionados e enviados para o PAA. Voltamos então para o refeitório, onde alguns moradores estavam expondo seus feitios, desde bandejas de morango a doce de leite e pães. As mulheres estão até tentando construir uma padaria para aperfeiçoarem seus feitos. Os doces, pães e queijos também não são regulamentados pela ANVISA, mas são muito mais gostosos do que os que compramos no mercado. Eles vendem super barato e ao lado da banca de alimentos havia ainda uma mini livraria que além de livros sobre o movimento, também vendia livros sobre a reforma agrária em si, alguns da autoria de Marx e outros sobre a Revolução Cubana. Havia também produtos do movimento, como bolsas e afins. Para terminar a visita fizemos um grande círculo em que cada um deu sua palavra final, sendo a mais triste feita pelo professor que nos informou que aquela provavelmente seria nossa última aula em campo devido ao fato de os outros professores não considerarem eficazes coisas do tipo. Infelizmente.

Dentre as coisas que me chamaram atenção, vale citar o fato de que eles buscam minimizar ao máximo a diferença social entre homem e mulher, fazendo com que os dois tenham em média a mesma carga-horária de trabalho. O fato de ninguém ter férias, nem os estudantes que quando tem uma pausa escolar devem colocar seus estudos em prática trabalhando na terra. O fato de eles serem realmente ligados a terra, podendo se dizer inclusive que eles são a terra, o que produzem ali. O fato de eles respeitarem a diversidade religiosa, possuindo várias Igrejas e de considerarem a Bíblia como um livro histórico, não simplesmente algo a ser seguido. Achei curioso o fato de eles terem tolerância zero para com drogas tanto legais quanto ilegais, sendo chamada atenção de quem ingere bebidas alcoólicas ou faz uso de algum cigarro. Eles preferem manter a polícia longe e por isso tentam resolver tudo dialogando, o que é bastante interessante e mais inteligente do que a repressão. Interessante também foi saber que, ao contrário do que muita gente pensa, o movimento não é ligado a nenhum partido político, tendo gente que vota em todos os partidos e a predominância dos votos para os candidatos que prometem favorecer mais seus interesses. A consciência deles perante a tudo foi o que mais me impressionou. Dona Maria afirmou que “Jornal só dá o que não presta” e que “O posto de saúde não dá nada, tudo é pago pelo imposto”, o que mostra que eles realmente buscam viver de acordo com o que pensam e creem. A ideia de “latifúndio do conhecimento” e de que “os ricos só o são porque escravizam os pobres, não porque trabalham” são coisas que a maioria das pessoas da cidade jamais teria a capacidade de pensar por si só.

Como Dona Maria disse, eles são gente e não monstro. Fiquei feliz em ter descoberto isso, ao mesmo tempo em que triste por saber que a maior parte da população ainda os vê como monstros. No fim é isso. Ciências Sociais é isso.

Há mil fotos lindas desse dia, mas essa sempre vai ser minha preferida

P.S.: Escrevi esse texto há um mês, mas estava TÃO desanimada com toda essa história de greve que acabei protelando a postagem, porém hoje com a notícia de que o governo finalmente se tocou que há um milhão de pessoas em greve, resolvi postá-lo como forma de comemoração. Há mais fotos a respeito aqui.As fotos publicadas neste texto não foram tiradas por mim, mas não sei quem tirou.

0 thoughts on “Gente como a Gente

  1. Nossa, May. Uau. Tá aí uma oportunidade que eu queria ter. Ir e ver com meus próprios olhos como é.
    Engraçado. Uma coisa que percebi nesses meus dois semestres de RI foi que a visão de um estudante de Ciências Sociais, por exemplo, é totalmente diferente da forma RI de ver o mundo. Eu, que sempre puxei muito mais pro lado CS da questão, aprendi coisas boas também. Sabe um meio termo, ainda com esperanças, mas sem exagerar na credulidade?
    Por isso gostaria de visitar um lugar assim. Sou totalmente a favor da reforma agrária. Minha única dúvida é quanto a integridade absoluta do movimento. Porque você sabe que quanto mais seres humanos reunidos em torno de uma causa, maior a probabilidade de dar certo e maior ainda a chance de haver desvios. Mas posso falar? Achei lindo seu relato e quem sabe um dia você não me leva até lá?
    Beijo!

  2. Confesso que realmente não conhecia esse lado dos assentamentos e das pessoas que vivem neles. É aquela velha história: toda história tem dois lados. E é triste que não possamos conhecer os dois lados de tudo.
    Mas sabe, de uma coisa tenho certeza: com respeito e conhecimento, o ser humano já tem o básico pra viver em paz.

    um beijo

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