No dia 01 de julho, a Netflix colocou as sete temporadas de Gilmore Girls em seu catálogo de streaming. A decisão é parte de um grande projeto de marketing, que visa agarinhar maior público para o revival da série, que está previsto para ocorrer ainda esse ano – mas não sabemos a data. Gilmore Girls foi exibida originalmente entre 2000 e 2007, produzida pela Warner e dirigida por Amy Sherman-Palladino. Porém, ao chegar na sexta temporada a diretora afirmou precisar de mais duas para concluir a história e a Warner não concedeu, dizendo que a série teria que encerrar após a sétima temporada. Por essa razão, Palladino abandonou o roteiro, direção e produção executiva da série. David S. Rosenthal assumiu a produção da sétima temporada que não agradou a maior parte dos fãs. Grande parte das coisas que o público aguardava acontecer desde a primeira temporada aconteceram de forma inexplicada e pouco crível e o final não foi nada parecido com o esperado. 

        Felizmente, a Netflix anunciou no final de 2015 que estava reunindo o elenco original da série, junto com sua criadora (Amy Sherman-Palladino) para fazer uma oitava temporada, que seria o fechamento da série. A dita temporada, que estreia ainda esse ano, terá 4 episódios e cada um se passará em uma estação do ano. A ansiedade é muito grande e, com todas as temporadas anteriores disponíveis na Netflix, os fãs da série começaram a re-assistir as sete temporadas já produzidas, enquanto a oitava ainda não estreia. Eu sou uma dessas fãs e já falei sobre a série aqui em momentos passados, mas decidi que dessa vez iria fazer revisões detalhadas de cada uma das temporadas, conforme eu for re-assistindo.

         A decisão de fazer esses textos veio da percepção de que, atualmente, a série tem significações bastante diferentes para mim do que na primeira vez em que assisti. Consigo perceber e relacionar uma série de coisas que não conseguia antes, consigo entender mais das piadas e acompanhar melhor os diálogos – que seguem sendo muito rápidos, mas meu inglês está um pouquinho melhor.

      Nesse texto, portanto, vou falar detalhadamente sobre a primeira temporada da série, destacando alguns pontos que achei bastante relevantes ao re-assistir. É claro que, se você não assistiu Gilmore Girls, não recomendo prosseguir na leitura, pois ela será repleta de spoilers.

Temporalidade

         Quando a gente assiste uma série inteira, de forma rápida e consecutiva, acaba se perdendo no desenrolar dos fatos. Ao recomeçar a primeira temporada, eu tinha a impressão de que a maior parte dos acontecimentos que se desenrolavam nela eram parte de outras temporadas. Eu lembrava a história da série passando de forma muito mais devagar. Não recordava, por exemplo, de que já na primeira temporada Sookie e Jackson começam a se relacionar e Rory e Dean têm o primeiro rompimento. Eu acreditava que essas coisas aconteciam na metade da segunda temporada, por aí. Levei um susto ao ver tudo se desenrolando da forma que foi.

Os casais

Rory e Dean

        Eu lembrava do relacionamento deles de uma forma muito diferente. Na minha cabeça, o primeiro encontro tinha sido quando Rory derrubava livros e Dean pegava um dos títulos e esboçava um diálogo sobre ele, como alguém que o conhecia e tinha lido. Nada disso. Revendo a primeira temporada, percebi que Dean não era um leitor, não era estudioso, não tinha pretensões na vida. Basicamente, ele e Rory não têm nada a ver um com o outro e, embora o início do relacionamento seja bastante fofo, o é apenas por causa do nervosismo de Rory e do fato de ela não saber lidar com os próprios sentimentos. Porém, o relacionamento deles não é apresentado ao espectador de forma densa ou intensa. Dean vive na casa de Rory e acaba aprendendo sobre seus hábitos e manias e conhecendo bastante sobre Lorelai, mas Rory nunca foi na casa dele ou conheceu os pais dele e isso é bastante esquisito

        Também é estranho que Dean, recém chegado na cidade, tenha que encontrar um emprego como primeira coisa a ser feita. Rory, Lane e as outras meninas da idade dela apresentadas na história não precisaram procurar um emprego. Mas Dean, assim que chega em Stars Hollow, precisa trabalhar em algo. Fiquei pensando se isso seria por ele ser homem ou algo do tipo. É perceptível nessa primeira temporada que os dois são desalinhados ideologicamente. O episódio da Dona Reed evidencia muito isso. Primeiro, Dean não entende a devoção de Rory e Lorelai por uma série de TV e depois não entende o problema que era o modo de vida de Dona Reed, fazendo com que Rory entenda que é isso que ele espera dela – o que é totalmente diferente daquilo que ela gostaria de ser. Eles são péssimos em se comunicar e brigam em qualquer desentendimento – e como eles se desentendem em quase todas as conversas, o ideal seria que não falassem um com o outro.

        Para completar, Dean é extremamente ciumento e já no nono episódio da série, ele se envolve em uma briga física com outro garoto por causa da Rory. Quem já viu a série sabe que esse padrão se repete e a gente só consegue olhar pra tudo isso e pensar “Por que Dean, por quê?”. Enfim, compreendo que para um relacionamento de 16 anos e o primeiro de Rory, não tinha como esperar muito mais do que isso. Mas é visível, desde o começo, que a coisa está fadada a terminar e o fato de ela hesitar ao dizer que o ama é apenas uma prova disso. Rory não estava repetindo padrões de Lorelai, ela estava sendo esperta. Pena que o coração adolescente acabou vencendo essa…

Lorelai e Max

         É completamente bizarro que a temporada termine com Max fazendo um pedido de casamento para Lorelai. Eles ficaram juntos por um total de oito episódios na temporada. Sendo que o primeiro é um encontro casual em um café, o segundo é Lorelai esquecendo que ia se encontrar com ele, o terceiro é um encontro de fato, o quarto é um beijo na escola e os outros quatro são já no final da temporada, quando Lorelai resolve retomar o relacionamento. Aí me pergunto: que relacionamento ela queria retomar? Como pode eles quererem se casar?

       Convenhamos, eles tinham acabado de se conhecer. Assim como Rory e Dean, não tinham nada a ver. E, se tinham, o desenvolvimento romântico do relacionamento não foi mostrado ao espectador. Eu não faço ideia do porque eles estavam juntos e porque eles achavam que era o suficiente para que se casassem. Max visivelmente não se encaixaria no estilo de vida de Lorelai, e vice-e-versa. Eles eram fofos? Sim, claro. Mas é de fofura que se faz um casamento? Eu acho que não.

       Se for parar para pensar, Luke estava com Lorelai em um número bem maior de cenas, incluindo em cenas importantes para ela e a família dela – como o dia em que Richard foi parar no hospital. E Lorelai não pensou em casar com o Luke, então porque pensou em casar com o Max? Não consigo entender!

Sookie e Jackson

        Esse relacionamento é muito engraçado, porque eles flertam conversando sobre safras de frutas e qualidade de vegetais. Mas é completamente fofo e inocente, porque Jackson consegue entender e alegrar Sookie mesmo em momentos que ninguém mais consegue e eles se encantam um pelo outro de forma que nenhum outro casal da série conseguiu fazer até o momento. Se tem um casal que surge na primeira temporada e dá pra gente torcer por, são esses dois. Visivelmente as brigas que surgem são apenas forma de gerar assunto e eles não ficam magoados, quando acontece alguma mágoa, eles conseguem conversar sobre ela e seguir adiante. 

Luke e Rachel

        Mais um casal que a gente não sabe muito sobre. Rachel fica poucos episódios no seriado e tudo que sabemos é que eles têm um background e Luke tem dificuldade em confiar nela novamente. Mas não sabemos muito sobre ela, o que eles têm em comum, porque se relacionar é uma boa ideia no caso deles, quais seriam os motivos para não dar certo etc etc etc. Rachel aparece com a mesma facilidade que some da série e nós só temos uma certeza após tudo isso: Luke está realmente interessado em Lorelai e ela insiste em não ver – ou em ver e ignorar.

Lorelai e Christopher

     Coloquei esse casal aqui porque ele é a “sombra” de toda a série. Não sei muito bem o que acontece ali. Lorelai se sente visivelmente mais segura ao lado de Christopher, porque eles cresceram juntos e ela acha que nenhum outro cara vai conhecê-la e entendê-la tão bem quanto o pai de sua filha, mas ela não consegue se relacionar com ele, porque acha que ele ainda não amadureceu o suficiente e ainda é um garoto que anda de moto e sonha em um dia ser independente. Ela é independente desde que teve sua filha e fica incomodada com o fato de Christopher não ser. Além disso, a ideia de ficar com ele e agradar seus pais é ruim para ela, que sempre desconsidera. Mas Christopher segue sendo a fonte segura para quem Lorelai recorre quando está com problemas. Ou ao menos quando está com problemas que Luke não consegue resolver.

As amizades

Lane e Rory

         Eu fico com muita dó da Lane na primeira temporada. Enquanto a vida da Rory dá um salto e ela tem namorado, escola boa, uma boa relação com a mãe etc, Lane segue sendo a mesma pessoa reprimida e forever alone. É muito triste que Rory abandone ela por algum tempo e a relação entre as duas acaba sendo unilateral, porque Lane deixa de pedir ajuda e considerar Rory em determinadas situações, após perceber que ficaria sozinha de qualquer jeito. 

         O fato de Lane ir para a Coreia sem data para voltar nem causa um alvoroço muito grande em Rory. Ela não tenta fazer nada para impedir, não bola planos de fuga, nada. Ela segue sua vida normal e Lane aparece eventualmente comentando “ei, não sei quando volto” e bola um plano B sozinha, apenas comunica ele para Rory. No caso do Henry é a mesma coisa, Rory não tenta ajudar com conselhos ou ideias para que eles se encontrem, ela apenas ajuda na questão do telefone – o que é quase nada. Parece que a Lane está muito mais disponível e disposta a ser amiga da Rory do que o contrário e isso é bastante chato.

Lorelai e Sookie

          Lorelai também é a protagonista da relação com Sookie e as vezes o egoísmo dela atrapalha as coisas. Ela tende a achar que a Sookie está ali sempre disponível para servir ela e é ótimo que Jackson comece a se relacionar com Sookie, porque Lorelai acaba perdendo esse pensamento. Elas são boas amigas, que sempre se ajudam, dão suporte e ficam realmente felizes e empolgadas pelas conquistas uma da outra. Sookie comemora as vitórias de Lorelai e Rory como se fossem sua própria família e isso é maravilhoso de ver e acompanhar.

Rory e Paris

           Paris pretensamente é amiga de Madeline e Louise, mas é bem óbvio que as três andam juntas por comodidade e não por sentimentos reais. Tudo fica bem evidente no episódio Concert Interrupts, o décimo terceiro da série. É nele que a gente vê Rory e Paris minimamente mais próximas e percebe que a segunda é muito mais infeliz e solitária do que aparenta ser. Rory percebe algumas das vulnerabilidades de Paris e tenta ajudá-la, partindo do princípio que as duas vão ter que continuar se vendo frequentemente até o fim do ensino médio. Paris reluta em aceitar a ajuda de Rory e se sente inferior por precisar dela, preferindo continuar emburrada e sozinha. Mas, pelo menos para mim, foi possível ver faíscas que possivelmente desencadeariam em um relacionamento bacana.

Percepções gerais da temporada

  1. Richard ter ficado doente acabou aproximando um pouco mais Lorelai, mas também fez ele perceber que o modo de vida que levava não era lá essas coisas. Emily percebe que não consegue se imaginar sem Richard, o que é bem interessante, porque a relação dos dois não é de dependência mútua. Rory, por sua vez, percebe que o avô já ocupa um lugar bacana em seu coração e que ficaria realmente chateada se ele piorasse ou chegasse a morrer.
  2. A evolução do relacionamento entre Rory, Emily e Richard é o que chama mais atenção na temporada. Apesar de Lorelai exercer forte “alienação parental“, fazendo com que Rory tenha uma visão bastante deplorável de seus avós, como se eles fossem extremamente fúteis, malvados e manipuladores, a menina vence o ideal construído pela mãe e resolve tentar conhecer os avós por conta própria. O episódio em que ela vai ao clube com Richard e, depois, quando Emily vai conhecer Stars Hollow e acaba por dar a Rory o quarto perfeito, são a mais perfeita prova disso. 
  3. Lorelai é extremamente egoísta e quer que Rory seja exatamente o que ela não conseguiu ser e ao mesmo tempo tenha todas as coisas que ela considera como qualidade próprias. Ela tem muitas dificuldades em tentar entender o ponto de vista de seus pais – ou de qualquer outra pessoa além de Rory, e as vezes até da Rory. Tem horas que dá vontade de pedir para ela simplesmente baixar a bola e deixar a menina se virar.
  4. Rory leva muito em conta os pensamentos e vontades de Lorelai e acaba tomando decisões se baseando nisso e não no que ela realmente queria. A pressão para que ela não engravide, seja uma boa aluna e vá para Harvard é doentia em alguns aspectos e tem horas que dá vontade de pedir para ela relaxar, fazer o que quiser e largar mão de ficar pensando tanto nas vontades da mãe.
  5. Paris é a personagem mais interessante da temporada, ao menos para mim. Inserida no mundo dos ricos e populares, ela é extremamente impopular por levar a escola a sério demais. Nutre fobia social, não consegue compreender outras pessoas e vive fechada em sua própria bolha, onde tudo que importa é conseguir entrar em Harvard. Ela é uma pessoa que precisa relaxar urgentemente e viver um pouco mais, por outro lado, é a personagem com quem eu mais me identifiquei. Principalmente no episódio 17, onde ela não vê a hora de ir embora da festa dada por Madeline.
  6. Tristan é um garoto tão insuportável, que faz com que Dean realmente pareça bacana e o mocinho da história. É muito bom que Chad Michael Murray (o ator que o interpreta) tenha sido selecionado para ser protagonista de One Three Hill e tenha largado a série, porque seria bastante insuportável ter que acompanhar seu pretenso desenvolvimento durante as próximas temporadas. De todos os garotos que Dean bate, esse é o único que considero merecedor. 
  7. Nos primeiros episódios, Richard e Emily mencionam Lorelai the First durante o jantar semanal das sextas, utilizando o tempo verbal pretérito. Isso faz com que o espectador entenda que a bisavó de Rory já faleceu e agora as Lorelai Gilmore existentes são apenas ela e sua mãe. Porém, no 18º episódio da temporada, a família Gilmore recebe a visita de Trixie, a mãe de Richard. Isso é um erro narrativo bastante confuso e que pode passar despercebido em um primeiro olhar.

          Essas foram minhas impressões gerais dos primeiros 21 episódios da série. Assisti a eles em seis dias e, se continuar nesse ritmo, termino a série inteira em breve. Assim que uma temporada for concluída, vou fazer um texto parecido com esse contando as minhas impressões. Como eu sei que tem bastante gente assistindo/re-assistindo a série, seria bem legal poder ouvir/ler as impressões de vocês! Para isso, é só comentar aqui ou conversar comigo em algum outro lugar! 

       Se você não assina Netflix, mas quer assistir a série, fique tranquilo! Há diversos torrents e outros arquivos com todos os episódios espalhados por aí. Mas, tome cuidado, elas falam muito rápido e talvez você não acompanhe o ritmo sem antes tomar bastante café!

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