God Gives and God Takes Away

O Anjo Mais Velho – O Teatro Mágico

Lembro de ter 5 anos e ficar extremamente feliz por meu último dia de aula terminar. Era igual em todos os anos, o último dia de aula chegava e no outro dia fazíamos malas enormes, saíamos para comprar presentes de natal, empacotávamos tudo e viajávamos.

Várias vezes de carro, com meu pai dirigindo. Carro nosso, carro emprestado, mas a gente sempre ia. Demorávamos dias para chegar pois no meio do percurso havia várias cidades com parentes, paradas obrigatória para nossa família viajante.

Nosso carro não tinha som, levámos nosso radio à pilha e colocávamos todos os cds possíveis, o importante era deixar a viagem animada. Seja lendo gibis, jogando GameBoy, ouvindo meu pai cantar Raul Seixas ou ainda dormindo no colo do meu irmão reclamão eram os dias mais divertidos do ano. Não que a gente gostasse de ficar 3 dias viajando e de ter que comer em lugares nojentos onde o banheiro era apenas um buraco do chão, muito menos que a gente gostasse de passar por aquelas aldeias de índios, que sempre me amedrontavam, mas tudo valia a pena.

Fôssemos de carro, ônibus, avião, vã, de todos os jeitos que eu já fui, valeu a pena.

Quando a gente chegava no Canoeiro e seguíamos a rua até a última casa, com a buzina disparada ou o som no máximo, tudo valia a pena.

Ele vinha abrir a porta, na maioria das vezes apenas com uma bermuda e um cinto, ele sorria e eu via que ele estava feliz.

Quando tinha menos de 10 anos, a maioria dos primos se encontrava lá. Vovó turrona chegava e mandava as meninas irem pra um lado e os meninos pro outro e não deixava a gente se misturar. Eles brincavam de bola e um monte de coisas chatas, a gente brincava de boneca, casinha e coisas do tipo. Nos dias de muito calor jogávamos bexigas com água uns nos outros, mas os primos mais velhos (todos) tinham que furar a bexiga para poder jogar em mim.

Tomávamos banho de manilha e amávamos lavar os carros, mas com toda essa brincadeira era o sorriso deles a parte principal. Ele inventava de fazer uma casa nova pra gente em cada férias, geralmente nas árvores, nunca dava certo porque enchia de insetos e eu ficava com medo, mas ele tentava. Fazia até escadinhas para eu conseguir alcançar, porque era a única que não conseguia subir nas árvores…

Uma vez ele vez uma cabana de tijolo para nós… Dizendo que carregar os tijolos era apenas “musculoração”.

Eu penteava os cabelos dele todas as noites, enquanto ele estava sentado nas cadeiras de macarrão assistindo ao terço. Antes de dormir eu sempre ia pingar o colírio no olho dele, achava o máximo fazer isso.

Nos dias em que estava lá sabia que poderia acordar quando quisesse que meu cuscus de arroz, feito pela Dona Maria estaria me esperando e que minha avó estaria na cozinha para me perguntar como haviam sido meus sonhos.

Sabia que se eu chorasse o índio viria me pegar para me transformar em rede e por isso eu nunca chorava.

Aquele lugar me fazia bem e por isso eu fazia de tudo para voltar para lá, sempre.

Nunca viajei em feriados, fins de semana na praia e coisas do tipo… O dinheiro era economizado com todo o apoio da família, para que pudéssemos fazer nossa viagem no fim do ano. E então embarcávamos de novo.

2 677km, um carro apertado, comidas e lugares ruins para dormir, mas nós fazíamos de tudo para chegar lá e encontrá-los. A casa dos meus avós em Grajaú-MA, o maior refúgio da minha vida.

Mas os anos foram passando e eu fui crescendo e odiava ir para lá, era longe e chato. A cidade é muito ruim, não tem nada pra fazer, é muito quente, meus primos haviam crescido e ficavam com suas namoradas ou então mexendo no computador e eu não usava computador em casa, era obrigada a passar o dia inteiro vendo Chaves no sbt, mas as vezes eu me recusava.

Aprendi a dar valor aos meus avós. Ia regar as plantas com o vô, lavar a caixa de água, comprar pão… Eu gostava do massa grossa e o resto das pessoas do massa fina, a gente fazia zig zag pelas árvores para chegar até a padaria e então comprávamos pães para todo mundo. Eu ficava muito tempo perto deles… Fosse cuidando da minha avó ou simplesmente por ficar perto deles, ouvindo suas histórias de exército e de infância.

Não importava quantos anos se passsassem, eu sempre ia pingar o colírio do vô.

E então teve umas férias que a gente tava lá fazia 1 mês e eu já estava implorando para voltar para casa e então minha avó começou a passar mau do estômago, mas já havíamos comprado as passagens e voltamos para casa. Quando dei tchau pra ela, ela estava sentada na patente, mas o vô foi até a porta e ficou abanando a mão pra gente como sempre fazia.

E eu nunca mais voltei lá.

Dias depois minha avó piorou, minha mãe voltou para lá e logo ela morreu. Meu avô ficou com depressão e minha tia que morava com ele decidiu que ele precisava sair de lá. Ela também ia se mudar, mas não dava para levá-lo durante a mudança, ela precisava se estabelecer em Fortaleza antes de levá-lo e por isso o mandou para Brasília, para morar com os meus tios. Ele ficou lá por alguns meses e minha mãe foi visitá-lo e o convidou para morar conosco, ele disse que Curitiba era muito longe e frio, mas que era o único jeito. Ele chamava minha mãe de mãe.

E ele veio para cá. Eu estava fazendo prova no dia em que ele chegou, o vi pela primeira vez dentro de uma Igreja, um dos lugares preferidos dele. Ele dormia junto com o meu irmão e eu ainda penteava seus cabelos e pingava colírio em seus olhos, todas as noites. Como ele estava morando aqui, também ajudava a dar banho nele, passava creme, competíamos para ver quem comia mais, ele sempre reclamava que eu comia seco.

Foi o melhor ano da minha vida nesse aspecto. O único ano em que eu odiava a escola, porque ficar em casa era muito melhor. Eu reclamava as vezes, porque minha mãe gostava mais dele do que de mim, foi como ter um irmão mais novo por alguns tempos. Ao mesmo tempo, ele foi meu pai. Ele foi muito mais pai do que meu pai verdadeiro. Todas as coisas que eu precisava, era só perguntar que ele me ajudava. Tudo que eu queria fazer, ele tinha um ponto de vista super diferente que me fazia enxergar o que eu não havia visto.

Era um orgulho estar morando com o cara que me ensinou a tabuada do dois, que me deu dinheiro durante toda a minha infância, que me amava abruptamente, que era mais fofo do que qualquer um e mais engraçado do que qualquer um também.

Mas ele morreu. Há exatamente um ano.

Eu te amo vovô e deito no seu lado da cama na esperança de ainda sentir seu cheiro, fico triste na esperança de sentir seu abraço, crio dúvidas na esperança de ouvir seus conselhos e como “seco” na esperança de ouví-lo me mandar fazer o contrário.

Eu te amo vovô porque aconteça o que acontecer você nunca vai ser tirado da minha vida, porque todas as vezes que eu precisar, basta fechar os olhos e te perguntar o que você acha que devo fazer que eu vou saber o que fazer.

Eu te amo vovô porque não importa se céu existe ou se você apenas está em Grajaú sendo comido por microorganismos, o que importa é que você está vivo na minha memória, até quando eu respirar.

E por mais que seja super egoísta da minha parte, eu ainda desejo que você estivesse aqui, queria que você voltasse para mim, ainda acho que vou te encontrar na sala quando chegar da escola e sei que só vou sofrer mais quando for a minha mãe a se juntar a ti.

Eu te amo vovô, porque você é o grande responsável pelas minhas maiores qualidades. Nada nem ninguém nunca vão te substituir e eu prometo que voltarei em Grajaú para visitar seu túmulo algum dia. Você faria isso por mim.

0 thoughts on “God Gives and God Takes Away

  1. Ai May, quase chorei aqui! Que homenagem mais linda. Minha avó morreu há 3 anos eu eu sinto uma falta gigante dela, então sei bem como você se sente. Graças a Deus eu tenho os meus 2 avôs, e mais uma avó pra curtir bastante! Tenho certeza que seu avô te ama e cuida de você assim como cuidava antes! E além do mais, agora você ganhou um baita anjo da guarda especial. Um beijo!

    1. Eu não tenho mais nenhum avô ou avó e tudo que eu sempre digo para as pessoas que os tem é: Aproveite. Não fiquem brigando e coisas do tipo, eles são as pessoas que fazem mais falta pra gente, depois dos nossos pais e irmãos e eles são geralmente levados muito cedo…

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