Grão de Areia

(Daqueles textos que ninguém deveria perder tempo lendo)

Pela primeira vez eu realmente pensei em apagar este espaço. Não consigo. No momento é a única coisa da minha vida virtual que eu não me desvencilharia de maneira alguma. A questão é que não é por eu achá-lo espetacular, por acreditar ser ele capaz de mudar algo em alguém, por gostar das minhas palavras ou sequer pela necessidade de continuar em escrevê-las, é simplesmente pelo fato de que foi a única coisa por mim feita capaz de me causar algum tipo de orgulho em algum momento.

Estamos em época de Olimpíadas e eu sempre digo para os meus pais que tenho sorte de ter nascido brasileira, pois se eu fosse chinesa já teria me matado. Simplesmente pelo fato de que eu não suportaria tanta pressão. Pressão para ser o melhor, sempre, em todos os quesitos e em todos os âmbitos. Não que eu não saiba lidar com a pressão, é que eu não preciso dela. Sou uma pessoa que naturalmente se cobra muito em relação a tudo, daquelas que tudo que faz acha que poderia ter sido melhor e que nunca fez o suficiente, que sempre pode melhorar, se eu fosse criada na China seria insuportável, não que eu brasileira seja muito melhor que isso, pelo menos tenho aprendido a me controlar… Tenho tentado mudar muitas coisas na minha pessoa, mudar para melhor, melhorar.  a principal delas é a dependência à internet.  Achava que seria um esforço enfadonho ficar menos tempo online, mas estou me saindo bem… A internet tem perdido a graça para mim, nunca achei que chegaria a esse ponto da minha vida, mas acho que cheguei. Pensei em apagar o espaço principalmente pelo fato de ele ser online e de eu ter preguiça de ligar o computador e ficar loucamente correndo meus dedos por teclas e mais teclas para dizer palavras repetidas e sem sentido. De fato, se eu fosse uma exímia escritora não haveria o menor problema, mas nem isso tenho conseguido ser. Na verdade, creio jamais ter sido, apenas sonhei que fui, como sempre.

Sofri muito na escola, principalmente no Ensino Médio, o velho bullying de todo dia nem era o pior, o pior era a tortura psicológica que eu fazia em mim mesma, dia após dia, até que, sabe-se lá porque, a tortura esvaiu-se de meu ser e virei a retardada que vos fala. A principal conclusão dos últimos dias foi essa: sou retardada e quanto a isso recuso discussões. Enfim. Em minha retardadice sempre fui mestre em fazer as pessoas me odiarem, creio que além dos que considero amigos – que são poucos – todos os outros com os quais estudei não gostam de mim. Não os culpo, logicamente, mas enfim. Meu principal desafeto ensinomediano certa vez olhou aos meus olhos no ápice de uma discussão e me acusou de ser uma “retardada que não vai ser ninguém na vida porque vive no mundo dos sonhos e não se preocupa com a realidade”, após ouvir essas palavras meus olhos se encheram de lágrimas e eu corri para chorar no banheiro. Foi a única vez na minha vida que fiz isso e fiquei tão brava comigo mesma por ter deixado as palavras daquele ser me atingirem que não sei se chorei pelas palavras ou por minha braveza mesmo. Não esqueci a frase e sempre que estou revoltada com algo me lembro da cena e começo a matutar em cima do que me foi dito. Porque quando verdades são ditas elas doem e a gente nem percebe a razão, simplesmente sente. Não me conformo com o fato de ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Sim eu sempre sonhei. Sim eu sempre vi vários filmes. Sim eu sempre me imaginei vivendo todos, mas eu também sempre estudei e batalhei para conseguir resultados reais capazes de fazer com que pessoas reais se orgulhassem de mim, não consigo lembrar onde foi que eu desisti dessa segunda parte.

Voltei pra fisioterapia recentemente depois de dois anos e meio de abstinência, eu estava indo bem, mas viciei-me no maldito computador e ele danificou os tendões do meu braço mais do que o lápis previamente havia feito. Mais uma razão para tentar me afastar. Com a volta da fisioterapia obriguei-me a relembrar minha primeira tendinite: catorze anos, overdose de escrita. Eu tinha seis cadernos com textos, mais uma carta quilométrica em processo de criação, meu diário e as redações da escola feitas dez vezes antes da versão definitiva para ter certeza de que tudo ia bem. Ai que saudades das redações escolares, acho que eram a única maneira de me fazer escrever algo útil. Hoje eu pego um lápis para tentar escrever uma carta e só sai futilidade atrás de futilidade acrescida de uma terrível letra que a cada ano piora um pouco mais – enquanto, obviamente, a velocidade de digitação aumenta. Eu penso em todos os blogs que eu tive, em todos que eu tenho, penso no fato de ter conseguido fazer um sobreviver por mais de dois anos sem grandes espaços de tempo ausente de atualizações e isso me é de muito orgulho, só por isso ainda não desisti.

Porque eu sou uma desistente. Sou aquela que começou curso de todas as coisas legais possíveis, entrou em todos os projetos legais possíveis, prometeu todas as coisas que conseguiu mas sempre absolutamente sempre sentiu-se sufocada e pediu para sair. Nunca concluí algo na minha vida, aliás, o teatro vem sido a minha mais forte esperança – falta só um ano! Eu desisti da natação quando tinha oito anos, resolvi mudar pra hidroterapia, desisti da hidroterapia com dez e voltei pra natação, desisti dela de novo e voltei pra hidro, então voltei pra natação e desisti de vez aos treze anos. Desisti do inglês, desisti da guitarra, desisti do espanhol, da Avon, das… Quantas mesmo? Ah sim! SETE escolas, desisti dos meus amigos, dos meus amores, dos meus pretendentes, de odiar e de amar, de experimentar coisas novas, de comer coisas diferentes, de abandonar o chocolate e enfim de fazer absolutamente tudo que tive vontade, não por duvidar da vontade, mas sim por não ter certeza de que seria o correto. Porque eu não quero desperdiçar tempo e energia fazendo algo para  só depois de terminar descobrir que não era para mim. Hoje além de desistente sou indecisa, pois além de tudo e pior que tudo, não faço ideia de quem sou como estou ou para onde pretendo ir. Não tenho mais meta ou sequer uma direção. Não sei se vou ser cantora ou prostituta, esposa ou amante, delegada ou parteira, não tenho sabido mais de nada. Tenho andado mais insuportável do que música de político, a ponto de nem eu me aguentar mais, tenho falhado em absolutamente tudo e deixado de ter vontade de fazer absolutamente tudo, tenho simplesmente existido e nada mais. Estamos em época de Olimpíadas e ao invés de eu sentar e curtir calmamente sento e curto morrendo de inveja de cada uma daquelas pessoas por terem tido força para lutar por seus objetivos e antes disso, sapiência para saber quais eram eles.

Eu sou apenas um reles mortal, uma metamorfose ambulante, uma das que queria ser heroína, mas não faz ideia de qual é o problema ou como consertá-lo. Sou apenas um grão de areia, daqueles que sozinho não serve pra nada, que é igual a todos os outros e que a multidão nem se dá conta da existência. Sou apenas mais uma sonhadora sem espaço nesse mundo de realidades infames. Ou não.

 

 

 

0 thoughts on “Grão de Areia

  1. Deleta não.. eu gosto de ler! E, toca aqui. Fico vendo a ginástica olímpica, esporte que eu amo com todas as minhas forças, e que fiz, por 4 anos, e fico pensando em como eu não tive força pra chegar lá. Como não tive forças nem pra bater o pé com a minha mãe e falar que não ia parar de fazer de jeito nenhum. Ela me obrigou, porque eu ia ficar baixinha……..

  2. Mayroca, meu amor, ter desistido de várias coisas ao longo da vida não te impede de hoje (ou amanhã, ou depois), procurar DE NOVO alguma coisa que te agrade pra aí sim se empenhar e mudar aquilo que vem te deixando mal. Não fica só na vontade, não fica pensando em como teria sido e pior ainda, não fica pensando que pode ser errado antes de tentar. Esse ano tomei a decisão de agir mais na minha vida – porque também já desisti de várias coisas antes até de tentar – e resolvi sempre pensar naquele clássico “por que não?”. Na maior parte das vezes, o pior que pode acontecer é continuar como está, é ganhar um não, e esse você tem desde o começo. Você é fantástica e eu acredito em você.
    beijão.

  3. Faço das palavras da Anna as minhas, pela identificação e por tudo.

    Entendo que a Internet passe a não ter tanta graça assim pra gente, entendo mesmo. Por experiência própria. Mas não te aconselharia a deletar o blog. E discordo completamente de você quando você diz que não serve pra nada porque desistiu de algumas coisas. Podiam só não te interessar no momento, podia só não ser o momento certo pra você, pra levar algo pra frente. Podia ser N coisas.
    Só te digo uma coisa que aprendi nessa minha existência de 19 anos: se culpar por tudo que der errado ou que você decidir parar não vai adiantar pra nada, só vai te deixar mais tristinha e atrair mais energias negativas. São suas decisões, pra sua vida, não pra governar o mundo. É difícil, mas precisamos aprender a confiar em nós mesmos.

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