Gravado no Papel

Eu escrevi sobre você. Mais de trinta páginas de um diário, um blog secreto e textos que viraram contos em meu caderno de contos que não mostro para ninguém. Escrevi sobre você em uma experiência de auto-conhecimento na qual eu tinha que narrar meu desenvolvimento sentimental por sobre uma pessoa. Encontrei isso hoje e morri de rir.

É engraçado ver como as pessoas mudam ao longo dos anos e como os nossos sentimentos para com elas mudam junto. Eu tinha esquecido que já tinha sentido tudo aquilo por você e é tão engraçado ler relatos de uma garota de dezesseis anos absurdamente enraivecida porque seu objeto de desejo extremo acaba de trocá-la por uma menina detestável quando a garota é você e a menina detestável é uma amiga sua e seu objeto de desejo nada é além de um amigo muito querido e tão confuso quanto todos vocês. É engraçado porque os textos são intensos e ao lê-los eu realmente acredito na raiva que estava sentindo, mas não consigo lembrar de senti-la. Eu nem lembrava dessa história, para ser sincera. Nem lembrava que um dia eu gostei de você. Lembrar disso, inclusive, é mais engraçado ainda, porque o “você” de hoje é tão diferente do daquela época que me faz achar que eu tinha sérios problemas mentais, mas eu não tinha, você é que mudou. Você é que cresceu. E, quer saber, eu também cresci.

Ao ler os relatos metódicos daquela garota de dezesseis anos sobre suas frustrações amorosas, coisas engraçadíssimas, muito mal escritas e absurdamente vergonhosas, vejo que hoje sou diferente. Começando pela forma com a qual eu enxergo relacionamentos amorosos, a forma pela qual eu enxergo o amor e o envolvimento e a vida, é tudo tão diferente que é até esquisito ler que um dia eu fiquei chateada porque pessoa x não quis namorar comigo. Hoje eu não escrevo mais sobre meus amores. Em lugar nenhum. Eu sinto eles e, dependendo da situação, falo sobre isso diretamente para a pessoa pela qual eu sinto. Aprendi a controlar melhor os tais amores e entendi que dar uns amassos em alguém legal é completamente diferente de encontrar o príncipe encantado. Entendi que a vida tem suas artimanhas e que ganha o jogo aquele que consegue se sentir leve, porque a verdadeira felicidade está escondida atrás da leveza e essa é que deve ser a busca da vida. Eu sou diferente porque eu me sinto diferente, porque eu não lembro de ter sentido nada daquilo e muito menos de ter escrito sobre e porque não é algo que me imagino fazendo hoje em dia. Continuo a ser uma sonhadora indomável, uma ansiosa irremediável, uma histérica absurda e uma pessoa facilmente seduzível, mas tenho melhorado no auto-controle e tenho conseguido enxergar melhor os meus defeitos, o que me ajuda a melhorá-los.

Escrevendo sobre você eu aprendi um pouco mais sobre mim. Eu cresci mais. E descobri que crescer pode ser muito mais legal do que eu imaginava e fiquei com vontade de crescer logo e de conseguir fazer todas as coisas que eu realmente tenho vontade. Hoje eu sei que você não lê mais os meus textos e que deve pensar em mim tão pouco quanto eu penso em você. Sei que somos completamente diferentes, mas espero que um pouco da sua aura absurdamente encantadora tenha permanecido. Eu não sei o que foi que vi em você e não consigo lembrar porque parei de ser sua amiga, mas eu escrevi sobre você e mesmo que minha memória te perca em algum lugar, o papel não tem como ser apagado. De algum modo, você permanece.

2 thoughts on “Gravado no Papel

  1. De vez em quando eu acho alguma coisa antiga escrita em papéis antigos e fico toda sem graça do quão “besta” eu era hahhahahah Mas o legal é justamente esse, saber que se hoje a gente acha aquilo besta é porque crescemos, amadurecemos e hoje somos pessoas diferentes. Não melhores, nem piores, apenas com mais vivência!
    É engraçado também como a gente age, às vezes nem gostamos de verdade da pessoa, mas entendemos errado os recados do nosso coração.. rs!

    Adorei seu blog, beijo! 😉

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