Helena

Conheci a Del ano passado quando li pela primeira vez seu blog, porém não conversei com ela, mesmo ela fazendo parte da Máfia. Um dia ela escreveu sobre circos, me interessei e mandei um e-mail a ela pedindo mais informações, ela respondeu, eu aprendi e a partir dali comecei a gostar mais ainda dessa pessoa fantástica! Depois disso conversamos um pouco na Máfia, ela se desligou do grupo, trocamos cartas, em uma, inclusive, ganhei um conto exclusivo com assinatura manuscrita, e continuamos a trocar visitas pelos nossos blogs. Eu morrendo de ansiedade para o dia em que ela finalmente lançaria seu livro, do qual eu muito havia falar e estava curiosa. Em Agosto ele foi lançado, por uma editora online, a Bookess. Não pude comprar nesse mês, mas em Setembro o site fez uma promoção do livro e eu aproveitei. Agora que terminei de ler, tenho dois levantamentos a fazer:

1 – O livro é caro, mas vale apena.

2 – As grandes editoras são burras por não terem aceitado editá-lo.

“Ainda nos comportamos como homens das cavernas. Os machos escolhem as fêmeas, que se enfeitam ao máximo possível. Uns se submetem aos outros em busca de um denominador comum. A fumaça dos cigarros me disse isso, normalmente, dá errado. A solidão é palpável em algumas pessoas. Tem até cheiro. Por pouco não merecia uma cadeira para se sentar ou um ingresso para entrar na balada também. Dou de ombros porque, afinal de contas, é impossível reinventar as pessoas. Estamos presos em um ciclo. Quem seria o revolucionário a mudar o amor?” Pág. 178

“O amor é uma consequência, passível na vida de todo ser vivo. O amor não é uma busca, mas sim um encontro. Não procuramos aquilo que não perdemos. O amor sempre esteve em nós.” Pág. 125

As razões são simples: Livros nacionais para jovens-adultos com uma história diferente das convencionais é algo muito raro de ser encontrado. Eu, particularmente, só conheço auto-ajuda e infanto-juvenil produzido por aqui. Livro adulto só fiquei sabendo dos clássicos, que são maravilhosos, mas convenhamos, a literatura também precisa ser renovada. Caso contrário os jovens acabarão amando livros estrangeiros cada vez mais e não saberão da maravilha que é ler algo nacional. Sim, porque ler sobre uma cidade que você conhece, comidas que você já comeu e lugares que você já esteve ou conhece o funcionamento é muito diferente do que ler sobre um lugar totalmente aleatório. Caso o intuito do livro seja ser fantástico não há problema, mas ler um livro naturalista/realista no qual você não se identifica pelo fato de as coisas não funcionarem daquela maneira no lugar onde você mora é muito chato. Eu acredito que as editoras nacionais deviam dar uma olhada no Bookess e eleger alguns autores para editarem. Garanto que não se arrependeriam. Pelo menos não caso os livros sejam tão bons quanto “Helena”.

“Um impulso; a vida é cheia deles. Aliás, nós sobrevivemos graças aos impulsos, que somos obrigados a dar contra a lei da gravidade. Pois se fomos condenados a vivermos com os pés no chão, devido a uma força imposta pela natureza, é nossa obrigação incitar o voo – só para nos lembrarmos de que somos os donos dos nossos próprios passos.” Pág. 185

“– A vida imita a arte, Helena. E a arte é a mais pura forma de amar.” Pág. 213

Porque “Helena” começa sendo bom desde o prefácio, que não é feito pela autora, mas sim pela personagem, afinal, o livro tem o nome dela porque é sobre ela, a história da grande mudança da vida dela, a autora só psicografou tudo. A personagem principal é apresentada de uma maneira concisa e não muito detalhista e os outros não são apresentados logo em seguida, mas somente quando aparecem no livro, o que evita a lástima de cem páginas de descrição de personagens. É tudo muito rápido, bem paulistano mesmo, e você consegue imaginar Helena fazendo notas em seu moleskine para seu futuro livro. Você imagina a história inteira. Aliás, eu que sou péssima em colocar um rosto para os personagens, fui capaz de fazer isso com esse livro. Imaginei uma adaptação cinematográfica, outra para uma novela e até para um seriado. Para tudo se encaixaria porque é uma história simples, contada de uma forma poética e até um pouco complexa. Voltemos a falar sobre as personagens:

1 – Helena: 26 anos, formada em jornalismo, mas trabalhando em uma agência de moda ao lado de Eduardo – um cara lindo pelo qual ela é platonicamente apaixonada. Completamente insatisfeita com a sua vida, mas sem saco para tentar mudá-la. Tem um gato, Ruski. É desvalorizada pelo pai desde que se entende por gente. Adora escrever listas.

2 – Eikki: Finlandês vizinho de Helena e seu melhor amigo. Abandonado pela mãe quando criança e pelo pai depois de adulto, tem um calopsita “Elvis” e gosta de “Vida de Insetos” e outras coisas do tipo, sendo nerd.

3 – Victoria: Loira, fútil e maquiada demais. Tem um caso com seu chefe, traindo assim, seu namorado. Conheceu Helena na faculdade e acha que é sua melhor amiga, por isso vive grudada nela e a usa como desculpa para os dias em que dorme com o chefe. Tem um New Beatle Pink e é mais burra que uma porta.

4 – Seu Azevedo: Também vizinho de Helena que a trata como a filha que não teve, enquanto ela o trata como o pai que gostaria de ter tido. Mora sozinho, mas tem filhos e netos. Adora flores e seu sonho é ter uma floricultura. É gentil e fofinho.

5 – Avô Gentil: Mora na praia e para todos os efeitos sofreu muito com a morte de sua esposa, mas na realidade ficou aliviado, ela era tão chata quanto o pai de Helena. Tem voz de papai Noel e fica do lado da neta em todas as pseudo-brigas. O senhor das palavras sábias e dos abraços gostosos.

 

Helena me faz lembrar Mia Thermopolis, não só pela mania de listas, mas por começar a história com uma vida absolutamente banal e terminar com uma vida invejável. A introdução da Finlândia na história tornou-a ainda mais interessante, porque assim a gente é apresentado a palavras, comidas e costumes finlandeses e é sempre legal uma dose de intercâmbio cultural. Eduardo não é considerado por mim como uma personagem de fato da história, para mim ele é só um coadjuvante, necessário para que a mudança nela ocorra. Você vai passar o livro inteiro sabendo que há alguém apaixonado pela Helena e ela não percebe de maneira alguma, o que nos deixa muito bravos. Cada pequena frase do livro, por mais que lida solta pareça inútil, será útil para a completa transformação da personagem principal. Cada capítulo, por mais tosco que pareça ser, tem um papel fundamental para a história.

“Não ser perfeito é nossa única perfeição.” Pág. 191

Por fim, “Helena” é um livro necessário por ser nacional, de uma autora estreante (que eu juro que se não soubesse disso jamais desconfiaria) e desmistificar coisas importantes para a vida cotidiana, como a felicidade, auto-realização e o amor, que são mostrados de uma maneira muito mais humana e simples do que a gente imagina. Além do fato de ser uma história passível de ocorrer na vida real, com personagens tão reais que a gente acha que já os viu por aí.

“Mulheres são um clichê ambulante. Dividem-se em prós e contras de sangrar todo mês.  É este nosso rumo existencial. Temos nossos discursos, defendemos nossas ideias, mas no fim tudo é abreviado a um único fato: a sensibilidade de viver mensalmente as dores de Eva. Reclamamos dos homens porque para eles restou o mais fácil castigo: ser homem. São todos iguais por ser simplesmente Adão, um solitário pretensioso, cujo mundo girou ao redor do umbigo deixando o macho egocêntrico pela eternidade afora e além. Cá estamos milhões de anos bíblicos depois. Na mesma. Ainda. Vivendo em um Paraíso e dependendo de milhares de réplicas de Adão, todas defeituosas, porém necessárias.” Pág. 186

Tudo o que eu escrevi havia sido dito na minha vídeo-resenha que tinha 15 minutos, mas que meu computador não deixou ser editada da maneira que deveria, me obrigando a regravar tantas vezes que eu esqueci o que iria falar e acabei fazendo uma com menos de cinco minutos e resolvendo fazer esse texto para complementá-las. De qualquer maneira, a vídeo-resenha encontra-se abaixo. E as partes em itálico e negrito que constam no texto são alguns dos meus trechos preferidos do livro. Não deixem de prestigiar a literatura nacional lendo “Helena”. Vale apena.

 

 

 

0 thoughts on “Helena

  1. Estou LOUCA por esse livro, sabia?
    Também conheço a Del e tenho absoluta certeza do ótimo conteúdo que esse livro de estreia dela deve ter. E a sua resenha ficou maravilhosa. Não duvido que a Del é uma excelente descoberta da nossa literatura. Quero muito fazer resenha desse livro.
    Abraços.

  2. Gente mas eu quero muito ler esse livro da Del, você não faz ideia! Eu não vejo a hora de pegar pra ler… tá tão difícil eu tenho uma lista tão grande que anda empacada que não tenho conseguido.

    Não vejo a hora e ainda mais depois dessa resenha mara, tô aqui babando.

    Beijoca

  3. Reconheço que o livro não tem a capa boa, alguns erros, mas feito de forma independente… sabe, é o que tem pra hoje. Mesmo assim, as pessoas estão enxergando o lado bom do meu trabalho e isso não tem preço! Porque o que vale a pena é a intenção, não é? 😛

    Eu nem sei o que dizer da sua resenha, de tão feliz que fiquei. É claro que fico super nervosa a cada exemplar vendido e a cada recado que recebo de pessoas dizendo que terminaram a leitura, mas fico aliviada com o resultado final na mesma proporção! Eu só tenho a lhe agradecer pelo carinho de sempre, muito antes de ler o meu livro. Você é especial, pequena 🙂

  4. Eu quero ler, vou pegar emprestado com você! Porque ando comprando tando livro que daqui a pouco declararei a falência. Mas tô bem curiosa! E amei aquela sua foto lendo ao lado da sua mãe, ela com Acede e você com Helena! To com saudade de você, cabelo verde da minha vida!
    Te amo!

  5. Estou querendo tanto ler esse livro e ler a sua resenha só me deixou com ainda mais vontade! Isso pra não falar desses trechos que quase matam pessoas curiosas. Assim que tiver dinheiro, comprarei.
    Beijo, Mayra!

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