Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

          Chimamanda Ngozi Adichie é uma autora nigeriana que mora nos Estados Unidos e ganhou popularidade internacional após um discurso (sensacional) realizado no TED Talks. A autora é feminista e tem a intenção de contar histórias sobre seu país, com um olhar nativo, para um universo de pessoas que tem uma ideia fantasiosa do que é a África, geralmente relacionando o continente à uma imensa floresta onde habitam pessoas selvagens. Chimamanda mostra que a África é, de fato, um continente, e suas histórias se passam apenas em um país deste, a Nigéria.

          Hibisco Roxo foi o meu terceiro livro da autora. Minha vídeo resenha sobre Americanah pode ser vista aqui. Já “Sejamos todos feministas“, que é a versão escrita do famoso discurso da autora, eu não resenhei em nenhum lugar, mas recomendo a leitura – ou, pelo menos, que assistam ao vídeo.

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Chimamanda Ngozi Adichie

          Ao contrário de Americanah, que contava a história de uma imigrante nigeriana e sua nova vida nos EUA, Hibisco Roxo foca-se estritamente na vida nigeriana, com os EUA aparecendo apenas enquanto possibilidade de escapar de situações ruins, mas não sendo foco de nenhum dos cenários ou partes da história.

          O livro foi escrito em 2003 e chegou ao Brasil em 2011 pela editora Companhia das Letras. O nome se remete a uma flor, chamada hibisco, que aparece na história na cor roxa. É interessante ressaltar que não existem hibiscos roxos no nosso mundo, e, até no livro, eles são resultados de modificação genética.

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Hibisco, a flor

          A narrativa versa sobre a história de Kambili (narradora e protagonista), que é uma adolescente habitante de Enugu. Ela é filha de um grande benfeitor da região, que teve origem humilde e nasceu seguindo as tradições religiosas e sociais da região, mas acabou tendo a oportunidade de estudar em um colégio católico e foi influenciado por uma congregação em específico, tornando-se um cristão convicto. Isso significa que a família de Kambili era regida por uma ética religiosa cristã absoluta, com disciplina próxima à militar. Ela e seu irmão, Jaja, tinham horários para realizar todas as atividades possíveis, tendo diariamente um horário reservado para a oração.

          O foco da narrativa é duplo. De um lado temos Kambili desabrochando para a vida adulta, tendo contato com pessoas que têm diferentes perspectivas por sobre a vida, sejam elas referentes à religião ou à sociedade nigeriana em si. Isso é enfatizado pela relação que ela desenvolve com seu irmão, mãe e demais familiares, além do padre Amadi, que se torna uma figura importante em sua vida.

          Do outro lado, temos a figura do pai de Kambili, que é, em si, ambígua. Visto por toda a sociedade local como um benfeitor, em casa ele acaba tendo posturas rígidas e opressivas perante sua esposa e filhos. Para piorar, ele renega a figura de seu próprio pai, por este não ter se convertido ao cristianismo e, com isso, ser um “pagão”, o que, para o pai de Kambili, é um sinônimo de “pecador, perdido, que irá ao inferno”.

          A postura repressiva do pai de Kambili faz com que ela tenha uma série de inseguranças e barreiras psicológicas, onde o pai aparece constantemente em seus pensamentos, seja com a sensação de “papai ficaria orgulhoso” ou de “como vou contar isso ao meu pai?“.

          Esses dois pontos da personalidade de Kambili, que acaba sendo explorada e desenvolvida no decorrer da narrativa, junto com a história da própria Nigéria e a de todos os outros personagens que aparecem, faz com que o livro seja brilhante. Ao mesmo tempo em que é informativo por sobre um universo social distinto (e ao mesmo tempo bastante semelhante) ao nosso, é nauseante pela repressão sofrida (tanto estatal quanto familiar) e pela identificação que gera, pelo menos em pessoas que, como eu, foram educadas em família e escola cristãs.

          A libertação de Kambili e o seu desabrochar é um exemplo sensacional do empoderamento feminino esperado de se conquistar com movimentos como o feminismo, visto que de uma garota oprimida e submissa ao pai, Kambili se torna uma adulta com consciência própria e responsabilidades distintas àquelas ansiadas pelo seu progenitor.

          O livro, que tem pouco mais de 300 páginas, é lido de forma rápida devido à curiosidade que gera, a qualidade da narrativa e desencadeamento dos fatos, a qualidade da edição brasileira e a empatia gerada pela história. Mais uma vez, Chimamanda mostrou a que veio. Recomendadíssimo!

2 thoughts on “Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

  1. Esse é meu livro preferido da Chimamanda! É uma autora que sabe construir personagens complexos, mas acho que vai ainda mais longe com Kambili e seu pai. Nunca vou esquecer esse livro, vou recomendar eternamente.
    Gostei da sua resenha!

    1. A relação de Kambili e Eugene é descrita com uma veracidade, destreza e profundidade que o leitor nutre sentimentos confusos e vontade de engolir o texto. Maravilhoso! Obrigada pela leitura!

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