Hoje

Ah… O oito de Março… Aquele dia lindo em que todas as mulheres acordam, recebem flores, são respeitadas e parabenizadas por serem mulheres, para que todas as ofensas dos outros 364 dias do ano sejam explicáveis porque “ah, vocês tem um dia só de vocês”.

Só que não. Hoje não é um dia para remediar os outros 364, hoje é um dia para fazermos os outros 364 serem dias melhores. Mais igualitários e, acima de tudo, mais justos. Oito de Março não é pra gente ficar comendo bombom e sendo paparicada, mas sim para lembrarmos que por milênios às mulheres foram atribuídos somente os trabalhos domésticos, enquanto os homens iam “caçar” e depois “trabalhar”. É para lembrarmos que para uma divorciada conseguir respeito e emprego foram décadas de lutas, que as artes sempre foram vistas como “mar de orgia” porque toda artista é “um pouco puta”. É para lembrarmos que houve uma época em que as mulheres não podiam usar calças e muito menos se movimentar durante uma relação sexual, na verdade, elas não podiam sequer tirar suas roupas. É para que a gente lembre que diariamente milhões de mulheres são espancadas, estupradas e mortas, simplesmente por andarem na rua com a roupa que quiserem ou fazerem o que quiserem quando quiserem. É pra gente lembrar que graças ao domínio da sociedade patriarcal fomos deixadas de lado por MUITOS anos, até que finalmente conseguíssemos um pouquinho mais de dignidade.

Este foi o primeiro ano da minha vida que eu vi um grande número de pessoas compartilhando nas redes sociais frases como “não dê bombons, dê respeito” e fiquei feliz com isso. Acreditei que as pessoas estavam começando a perceber que as injustiças ainda existem. Então eu percebi que o número de gente que não entende ou concorda com a frase em questão ou com qualquer outra do tipo ainda é muito maior. Que a maioria das pessoas não ficou indignada com o fato do HC daqui oferecer um “curso de etiqueta” no dia da mulher, para trabalhadoras que recebem menos que os homens, são assediadas e mereciam ao menos uma conversa à respeito disso. Percebi que a maioria das mulheres ainda quer bombom, que são poucas as que não sofreram algum tipo de abuso e lutam pelas que sofreram e que são menos ainda as que percebem que foram abusadas. Eu percebi que eu não vivo no mundo que eu sonho em viver algum dia e eu me revoltei com isso. Eu me revolto com isso na maior parte dos dias da minha vida, claro, mas o dia de hoje me revolta mais enfaticamente. Porque eu não admito ver alguém  chamando uma mulher  de “vadia” pelo simples fato de ela estar com calor e estar usando um shorts. “Ah, ninguém manda usar shorts apertado”, na verdade a gente não tem culpa de o padrão da moda ser esse e temos menos culpa ainda com o fato de as pessoas acharem que isso é “pedir para ser violentada” ou qualquer coisa do tipo.

Eu fiquei revoltada e fui à luta. Levantei a bunda do chão da minha casa, larguei a argumentação internetesca e fui ao Ato do Dia Internacional da Mulher, que todos os anos ocorre aqui em Curitiba. Havia participado ano passado e foi lindo, mulheres trabalhadoras rurais vieram participar e tinha tanta gente, tantos cartazes, tanto barulho que eu fiquei com orgulho por morar aqui. Esse ano fui de novo, não pude ficar o tempo todo, mas eu fui. E foi lindo. Havia muita imprensa, muita gente de vários coletivos, de vários cursos universitários e gente que não participa de movimento nenhum. Havia gente de todos os gêneros, idades e estaturas. De todas as vontades, ideologias ou religiões. Todos com um único objetivo: a igualdade.

Igualdade. Uma palavra tão simples, mas que gera tantas lutas. Tantas. Basta relembrarmos a luta que foi para tentar conseguir a igualdade entre as  “raças” humanas, algo que até hoje não foi inteiramente conquistado, a luta tremenda que todos os lgbt’s enfrentam em sua vida corriqueira, a igualdade social, econômica e, claro, a igualdade de gênero. Não, a luta não é para o fim da diferenciação de gênero. Não é para que as mulheres mandem no mundo. Não. A gente só quer poder andar na rua com a roupa que bem entender sem ter que ouvir coisas absurdas. Quer ter o direito de dizer “não” e ser correspondida todas as vezes que alguém chega tentando nos agarrar em uma balada ou quando não estamos afim de fazer algo sexual. A gente quer ser vista como gente e não como mercadoria, como algo que tem que estar lindo, como um objeto em uma vitrine e prontas para ser usadas quando quisermos. A gente não luta pela força física das mulheres, a gente não acha que elas sejam frágeis. Mulher não é frágil. Mulher é mulher. Simples assim.

Hoje eu lutei, eu ouvi coisas ruins e coisas boas, eu tive a oportunidade de perceber que ainda existe gente que compartilha destas opiniões comigo e tive mais esperança de que um dia de fato possamos dizer que somos iguais. Hoje eu ganhei mais forças para batalhar por um mundo em que eu receba o mesmo tanto que um homem na mesma posição, que eu saia de shorts na rua sem passar por algum constrangimento. Que ao andar na rua e ser congratulada pelo dia da mulher eu receba coragem para seguir em frente e não um cartão de lavanderia. Que as mulheres tenham coragem de reportar todos os abusos que passam, que o número de espancamentos, estupros e mortes por motivos toscos como fim de relacionamento ou suposição de traição sejam quase zero, ou quiçá zero. Um mundo em que quando eu contar que “minha tia foi assassinada por seu marido, porque ele achou que ela estava o traindo” pareça apenas uma história fictícia. Hoje eu não ganhei flores, nem bombons e, infelizmente, não ganhei respeito. Mas espero que um dia a gente ganhe.

Para quem não acredita, aí estão algumas manifestações que ocorreram hoje ao redor do mundo.

0 thoughts on “Hoje

  1. PUTA QUE PARIU, APENAS

    Já tava amando seu texto infinitamente, PLUS o vídeo do Ato. Arrepiou, sério. SÉRIO.
    Tenho orgulho de gente como você, May. Tenho orgulho de gente como as do vídeo.

    E é por causa de vocês que ainda tenho alguma esperança na humanidade.

  2. Muito legal o ato, muito legal seu texto, muito legal ver no vídeo mulheres de todas as idades lutando juntas. Acho que ainda temos um longo caminho a trilhar por esse respeito e essa igualdade que nós queremos. No dia 8 minha chefe no estágio contou o motivo de terem escolhido esse dia para nos “homenagear”. No dia 8 de março de algum ano, um grupo de operárias mulheres de uma fábrica nos EUA fizeram um protesto por causa da diferença salarial, então prenderam todas elas dentro de um galpão e tacaram fogo. Morreu muita gente. Então ela brincou que aqui no Brasil ainda tem essa diferença toda porque nenhuma de nós quer morrer. Mas não é verdade? A gente ainda vive menosprezada e com medo.
    Beijos.

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