Impessoalidade.

Eu nunca disse “eu te amo” sem realmente querer dizer isto. Sempre procurei ser sincera com meus sentimentos. Sempre me doei ao máximo aos relacionamentos. Quando tinha um amigo conseguia facilmente me imaginar com 50 anos tendo a mesma conversa normal com aquela pessoa. Costumava brincar com minhas amigas quase todos os dias, as mães delas eram minhas “tias” e elas sabiam exatamente quais eram as comidas que a minha mãe cozinhava melhor.

Com 11 anos mudei para Curitiba novamente e tive três amigas na escola, das quais eu realmente amava. Amava brincar de barbie com elas e até suportava o fato de elas se acharem mais espertas do que eu, passava cola para elas na prova, brincávamos de todas as coisas possíveis, mas elas me magoaram. Elas me ensinaram que amizades nem sempre são “para sempre” e que eu não devia entregar todo o meu coração nas mãos de tanta gente que poderia estraçalhá-lo tão facilmente.

Com 12 anos eu comecei a ser fria. Lembro da incrível sensação de mentir quando alguém me perguntava se estava bonita, lembro de fingir gostar de muita gente, quando na verdade rezava para me ver livre deles. Lembro de rir das burrices que falavam e de me achar inteligente e superior, lembro de virar um incrível monstro.

Com 12 anos eu fiz teatro pela primeira vez e eu tinha uma turma maravilhosa, cheia de pessoas que eram realmente importantes para mim, mas eu nunca tive coragem de dizer isso a elas. Raramente tinha coragem de falar com elas. Meus diários da época são cheios de textos como “hoje fulano me abraçou!”, sempre achei o máximo ser abraçada, mas eu não podia deixar com que os outros soubessem que achava isso um máximo. Tornei-me forte e fria. Mas um dia o professor do teatro me perguntou porque eu era tão arredia e não conversava com ninguém, eu fiquei desesperada e respondi enquanto chorava “É que eu tenho medo das pessoas.” e eu realmente tinha. Nunca suportei a ideia de que o mundo podia ser tão cruel. Fui criada para ser uma pessoa boa, honesta, ética e então fui jogada num mundo estranho e egocêntrico onde pessoas quebram seu coração sem nem pensar sobre isso. Nunca vou me esquecer das coisas que aquele professor passou a me ensinar a partir dali.

E quando eu tinha 13 anos consegui fazer novas amigas, amigas reais, legais e eu sabia que elas realmente eram minhas amigas. Lembro de morrer de medo de dizer a elas o quanto as amava, mas lembro também de não ter me arrependido quando o fiz. Aquelas seis garotas fizeram com que eu voltasse a ser a menina sensível e amável de antes, me ensinaram a não ter medo de todas as pessoas, pois ainda havia gente que prestasse no mundo. Naquele período de tempo eu sabia que não importaria o que acontecesse com a minha vida, eu teria a cada uma delas para contar com.

Mas o tempo passou e as vezes o tempo é bem cruel com a gente.

E não me recordo exatamente do que aconteceu, mas algo me deixou intensamente deprimida. Acordava todos os dias planejando a minha morte, fazia de tudo para que aquelas 6 meninas parassem de gostar de mim, desistissem de mim. Era ruim demais acreditar que eu ia magoar as pessoas que eu mais amava e várias, várias coisas aconteceram desde então, hoje aquelas 6 meninas são apenas recordações das melhores amizades que eu já tive. A maioria delas tornou-se apenas “amiga por hábito”, porque é impossível brigar com elas, pelo menos é impossível ficar brava com elas por muito tempo, mesmo que elas sejam completamente bobas as vezes e mereçam que eu fique brava. Elas me ensinaram que as coisas não são perfeitas, mas elas podem ser reais. Me ensinaram que é possível entregar seu coração e não recebê-lo estraçalhado.

Mas agora elas não estão mais ao meu lado em todos os momentos que necessitaria, elas raramente estão meu lado e é aí que vejo meu grande impasse. Se tive amigos de verdade depois delas? Tive, pelo menos acho que sim, mas não foram a mesma coisa. Todas as vezes que coisas boas demais ou ruins demais acontecem, sinto que só compartilhei com as pessoas certas, se falar com elas, mesmo sabendo que elas não se importam. Meus outros amigos foram passageiros, o que não significa que os ame menos. Mas, depois delas, minha capacidade de amar foi drasticamente reduzida e atualmente é um esforço imenso dizer a alguém que gosto da pessoa, é um esforço enorme abraçar alguém que não conheço direito, é um esforço enorme, gigantesco, tentar ser humana.

As vezes penso que o contato constante com invenções tecnológicas, a vida em meu casulo (também conhecido como “apartamento”) e o individualismo presente no mundo estão me tornando cada vez menos gente. Chego a pensar que daqui a algum tempo serei apenas igual a mais uma dessas máquinas, porque dependerei delas para ter voz e para ter afeto. É extremamente triste pensar que ao invés de fazermos amigos reais, criamos contas em redes sociais para nos aproximarmos de pessoas que jamais nos conhecerão de verdade. É engraçado pensar que passamos grande parte do nosso dia falando sozinho em um tal “twitter”, falamos sozinhos porque não temos coragem de falar diretamente para as pessoas que gostaríamos. Vivemos à base de indiretas e frases que devem ser interpretadas e lidas em entrelinhas, perdemos a simplicidade e a beleza de viver e é triste, é muito triste saber que das 6,5 bilhões de pessoas que existem, você não consegue conhecer direito nem a você mesmo.

Tenho medo de acordar e perceber que estou com medo das pessoas novamente.

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