Índios

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
Oswald de Andrade

Minha família materna é do Maranhão e eu passei todas as férias da minha vida até os doze anos em uma cidadezinha chamada “Grajaú”. Esta é uma cidade de origens indígenas, em que há curumins (filhos de índio) em todos os lugares possíveis, sendo eles civilizados ou não. Eu sou descendente direta dos índios tanto por parte de pai quanto por parte de mãe e assim sendo muitas pessoas acham que sou japonesa, mas não, sou indígena. “Mayra”, o meu nome, é um nome indígena. Enquanto todas as crianças do mundo sabiam contar até dez em inglês, eu sabia em tupi guarani. Essa era a minha vida, rodeada pela vida dos índios. Mas eu tinha medo deles, sempre tive e talvez ainda tenha. Deixe-me explicar…

Todas as crianças ouviam histórias que lhes ensinavam a não fazer certas coisas e a não ser de certas maneiras, geralmente essas histórias eram meros contos de fadas, ou eram relacionadas a um monstro que as pegaria caso continuassem a fazer algo errado. Eu seria pega pela índia. Lembro-me de ter menos de três anos e estar chorando assustadoramente alto e irritantemente no quarto em que minha mãe dormia na casa da minha avó, quando ela apareceu e disse “Pare de chorar menina! A índia vai ouvir e vai te pegar!” e eu chorei mais alto ainda, porque além do que quer que tenha me motivado a chorar, agora eu tinha que chorar porque a índia vinha me pegar e sempre soube que não seria bom se ela me pegasse, porque minha avó dizia que a índia pegava criancinhas, levava para a aldeia e as transformava em redes. Nesse momento eu estava no chão e tinha uma rede bem na minha frente, olhava pra ela e ficava com mais medo ainda e chorava mais ainda. Eu podia jurar que aquela rede tinha sido uma criança, conseguia imaginar suas feições e a cor do seu cabelo. Enquanto isso, a campainha tocou e eu fiquei com mais medo ainda. Minha mãe chegou e conseguiu me fazer parar de chorar e anos depois eu descobri que quem sempre tocava a campainha era a minha vó. Eu cresci morrendo de medo dos índios, eles eram o monstro da minha infância. Mas mesmo assim em todos os dezenoves de abril da minha vida infantil eu me fantasiava de índio e ficava toda contente porque era o dia deles.

(Daqui)

Daí eu cresci. Tinha nove anos quando no dia do índio a escola resolveu nos levar a uma tribo. Foi o passeio escolar mais divertido da minha vida! Descobri da onde veio a mandioca, fui pintada com urucum e até almocei comidas indígenas, dentro de uma oca e tudo! Cheguei em casa tão empolgada com a visita que estava até planejando sair pela rua com roupas indígenas e quem sabe um dia até morar com eles. Porque ser índio era muito mais legal do que ser civilizado, era cheio de aventuras e era diferente e eu sempre amei coisas diferentes. Cresci mais um pouco e com onze anos voltei a morrer de medo dos índios. Dessa vez porque tinha uma tribo perto da cidade da minha avó que estava trancando a estrada e cobrando pedágios e um dos parentes da minha mãe estava no ônibus um dia, os índios fizeram todos descer e além de roubarem tudo o que tinham, ainda estupraram todas as mulheres e só então deixaram com que as pessoas partissem. Depois disso todas as vezes que me falavam em índios eu começava a xingar, relinchar, ficar brava e deixei de compreender os motivos para que considerassem essa etnia tão maravilhosa, porque em meu ponto de vista, a partir que alguém agride o outro perde todo o direito previamente adquirido. Pra mim os índios deveriam continuar a ser maltratados, porque eles maltratavam os brancos e não era justo que a gente deixasse de se defender só porque um dia portugueses dizimaram toda sua população. Afinal, não é porque somos brancos que temos culpa da dizimação e da mesma forma não é porque eles são índios que se sentem prejudicados pela dizimação. Já havia se passado mais de 500 anos desde aquela época, para mim tudo já deveria ter sido superado e todos deveriam viver harmonicamente.

Agora eu cresci mais ainda, tenho quase dezoito anos e tenho em Antropologia uma das três bases de formação no meu curso. Ainda não estou no ponto em que estudamos toda a história e organização indígena como etnia e passamos a tentar compreendê-los e alguns até começam a lutar por suas causas. Tudo que eu sei é que minha professora trabalha com uma tribo há doze anos e ouvindo seus relatos morro de vontade de conhecê-los e passar um tempo por lá. Não tenho mais medo dos índios, não acho que vão me raptar e transformar em rede e sei que algum deles pode a vir me estuprar um dia, mas corro o mesmo risco em uma cidade, seja ela grande ou pequena, movimentada ou não. Tudo que sei é que os índios têm uma mitologia linda e um modo de ver o mundo absurdamente fantástico, justamente por ser diferente. Porque eu posso ter crescido, mas o diferente continua sendo fantástico. Hoje eu sei que se morrer sem ter ido viver em uma tribo por pelo menos um mês, só pra ter uma visão de mundo diferente da habitual, não vou morrer 100% feliz. Porque acredito que ser índio deve ser legal. Tem suas dificuldades, obviamente. Mas convenhamos que a vida não é fácil para ninguém e todos têm dificuldades em relação a tudo, sempre. Mas as dificuldades não devem ser o ponto principal da coisa, não devem ser a razão para que deixemos de aproveitar o lado bom, porque do mesmo jeito que tudo tem uma dificuldade, tudo tem um lado bom.

Eu tenho muito orgulho da minha descendência. Tenho muito orgulho dos índios em si, do fato de eles persistirem até hoje, mesmo que não exatamente igual há 500 anos, porque seria impossível que isso ocorresse, culturas são dinâmicas e obviamente mudam. Mas tenho orgulho de ainda existirem índios que mesmo civilizados, mesmo falando português, usando roupas iguais às nossas e sabendo mexer no computador, ainda guardam lá dentro os aprendizados mitológicos, o jeito comunitário e tribal de ver as coisas. Que de maneira nenhuma é um jeito inferior ao nosso, é apenas diferente e há coisa mais bela do que o diferente? Tenho orgulho dos índios porque eles existem. Acho fantástico o fato de eles existirem. Acho uma tremenda sacanagem o governo tentar ilegitimar suas terras e outras coisas, aplaudo de pé os irmãos Villas-Bôas por terem nos feito perceber sua importância e sua existência e lutar por ela.

Hoje é dia Dezenove de Abril, o dia do Índio. Dia dos primeiros cidadãos de nossa amada terra. De nossos ancestrais e amigos. Dos responsáveis por nossas florestas, animais e por toda a nossa diversidade. Hoje é dia do Índio e não há nada que eu possa fazer além de desejar-lhes um ótimo dia, uma ótima vida e agradecer-lhes por terem existido e por existirem até hoje. Porque se não houvesse eles, não haveria um eu. Obrigada!

0 thoughts on “Índios

  1. GEEEEEEEEENTE, descendente de índios! Muito legal esse post, Mayra.. acho que devemos sim muita coisa aos índios, muitos de nossos costumes vêm deles (acredito que tomar banho todos os dias é uma coisa que adquirimos dos indígenas, graças a Deus! hahahah). Deveríamos ajudá-los, deixá-los viver em suas terras, preservá-los e então viveremos todos em paz e harmonia… Espero que esse dia não demore tanto a chegar.
    Beijos, linda.. parabéns pela ideia do post, ameeei <3

  2. May, não tenho como não amar esse post. Adorei saber dessa sua experiência.
    Eu morei em Belém e cresci prestando atenção na causa indígena. Quando voltei pro Rio levei um susto com a forma como as pessoas enxergavam os índios aqui na região Sudeste. É incrível ter que dizer isso, mas a verdade é que o Brasil precisa conhecer melhor o povo indígena. Vamos ver se a entrada da história e cultura indígena como parte obrigatória na escola contribui com alguma coisa boa ou se vai ajudar a reproduzir preconceitos.
    E eu me perguntava de onde vinham seus olhinhos lindos se não tinha sobrenome japonês hahaha

  3. Ai, May, já eu sempre achei fascinante todo o mundo dos índios. Quando pequenininha, eu os via como amigos, como aqueles que a gente vai pra jogar os jogos mais infantis possíveis, sabe como?! Então! Vivia me vestindo de índia (com essa cor, pensa que índia linda eu era… cof cof!) e adooooorava!
    Hoje, eu ainda tenho uma certa vontade de visitar uma aldeia, assim, só pra saber se é como eu imaginava quando criança. Mas, falta coragem. Por que é que a gente vai criando medos conforme vai envelhecendo?

    Tenha orgulho mesmo da sua descendência! Ela é incrível!
    P.S. Essa música… ai ai…
    Beijos, May <3

  4. A Tati é quase japonesa, e você é quase índia! Eu sabia, tralalalá.
    Quando eu era pequena eu achava os índios o máximo. Quando eu tinha meus 8 anos, ano dos 500 anos do descobrimento, deu um BOOM no Brasil e todo mundo só falava de índio, e eu amava. Fiz passeio pra conhecer índio também, abracei um, quase comprei um arco e flecha, me achava supimpa. Aí depois de grande eu enjoei e comecei a achar um saco. Achava eles uns folgados que queriam benefícios sem ‘trabalhar’, sabe assim? Mas parei de pensar assim, e na verdade, sou indiferente. Acho bacana eles preservarem suas culturas!
    Beijo!

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