Instruções

Muitos se esforçam pra nascer, outros, como eu, simplesmente nascem. A gente tá lá dentro dum ambiente maravilhoso chamado “útero materno” e de repente uma mão enluvada nos atinge, nos coloca para fora e em breve estamos apanhando na bunda e começamos a chorar, para depois entrarmos numa água esquisita e irmos até uma mulher que coloca algo com um bico em nossa boca e nós simplesmente sugamos ali e estamos eternamente felizes.

Então a luta começa, ou no meu caso, não. Afinal, só começamos a fazer as coisas por nós mesmos muito tempo depois que saímos do tal útero. Antes disso vivemos nos submetendo a desejos alheios e acabamos fazendo uma série de coisas que não temos a mínima vontade, vestindo roupas que achamos horríveis e aprendendo mil e uma das outras coisas afins. Até que decidem que está na hora de decidirmos por nós mesmos e caímos de pára-quedas nesta avalanche chamada “vida”.

A partir daí cada segundo conta como uma eternidade, cada erro pode resultar em consequências tão terríveis que nem nossos progenitores podem nos salvar. A partir dai precisamos ir atrás da nossa própria comida e andar com as próprias pernas ou no máximo aprender a ministrar algum veículo que ande em nosso lugar. De repente, não mais que de repente, a gente é alavancado por uma roldana de longa distância e devemos simplesmente agir por nós mesmos.

Ninguém para pra pensar que não sabemos quem nós somos, que ainda não terminamos de nos construir. Simplesmente estamos estudando sobre algo que nos definirá como pessoas, estamos usando roupas que têm um encargo muito maior do que o simples “usar roupas” e até o que a gente fala ou deixa de falar é páreo para várias interpretações. Ninguém para pra pensar que não estamos preparados pra isso. Que nosso momento transitório é basicamente nulo. Que a gente simplesmente não sabe ser adulto. Que isso não é uma coisa que se aprende de uma hora pra outra.

Ninguém nos explica que vai chegar um dia na vida em que vamos sair desesperados em busca de um manual de instruções, algo que nos ensine a continuar por aqui, e não vamos encontrar. Não nos dizem que teremos que pensar milimetricamente em nossa vida, sem nada para nos segurar caso a gente caia. Não nos dizem que sempre estaremos nos surpreendendo, que coisas absurdas podem acontecer sem que a gente tenha planejado e que a pessoa mais brilhante do mundo pode revelar ser pior que a bruxa do 72.

Eles só dizem “anda, arruma sua cama” “lava sua própria louça” “decida sua profissão” “tranque a porta de casa” mas as coisas importantes mesmo, aquelas que nos atormentam e nos tiram o sono, bem, quanto a estas não ouvimos sequer uma palavra. Talvez porque nem os adultos de verdade saibam respondê-las.

Ainda estou na fase que acredita na existência de um manual, embora esse conceito esteja se desconstruindo um pouco a cada segundo em minha mente devido a aparente impossibilidade de existência. Eu ainda espero por uma solução mágica para as coisas. Espero por uma mão enluvada que me tire do novo útero no qual estou inserida. Quem sabe um dia? Mamãe sempre me disse para nunca dizer nunca.

0 thoughts on “Instruções

  1. Como eu te disse, a catarse foi tão absoluta que não sei por onde começar a comentar, só sei que meu texto e o seu meio que estão de mãos dadas, foram escritos praticamente ao mesmo tempo, e certamente falam de coisas parecidas, só que diferentes, sabe? Sabe.
    Não sei se é uma tirinha famosa da Mafalda, do Penauts ou do Calvin, e tô com muita preguiça de descobrir de qual deles, mas sei que alguém fala que ninguém devia ser demitido da infância sem antes ter um ótimo emprego na juventude.
    Cara, crescer é a coisa mais não-lidável com que a gente tem que lidar na vida. Tipo assim, é desumano.
    É desumano crescer sem conseguir realizar tudo o que você quer. É desumano ver o tempo passar e não ter um lugar no mundo. Eu vivo andando a esmo na rua e pensando que não sei quem sou. E tenho tanto medo de morrer sem saber. De morrer velhinha, sem ter me encontrado. Choro. Choro de medo. Meu sonho era crescer, e cara, desperdicei minha infância sonhando tão errado que nem sei…

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