Inteira.

Em Agosto começo o sexto período da faculdade, que tem oito. Ou seja, falta só um ano e meio para eu ter um diploma na mão e o peso adulto de decidir o que fazer na vida, dessa vez um pouco mais preparada do que aos dezessete anos – quando na escolha do curso. Pela primeira vez nos cinco períodos cursados, passei em todas as matérias que frequentei, sem ter ficado em final. E isso foi um dos maiores feitos da minha vida.

Teve uma prova que caíram mais de oitocentas páginas e eu não só consegui ler, estudar e entender tudo como tirei dez. Eu, a pessoa que achava que tirar dez era que nem ganhar um Oscar – pra qualquer pessoa que não fosse eu. Só que era pra mim também. Eu também consegui.

Não passei todas as tardes do meu semestre estudando desesperadamente, fiz um pouco por dia e sempre com a esperança de que dessa vez eu não ia reprovar. É que no semestre anterior eu abdiquei de uma matéria por pura birra com a professora e acabei tirando notas horríveis. Neste, mesmo com um atraso inicial por estar no Paquistão, decidi que não reprovaria e que se fosse mal, pelo menos iria para a final. E não precisei.

Sentei pacientemente e escrevi cada trabalho. E reescrevi todos eles. Fichei todos os textos lidos. Li duas vezes cada um deles. Faltei a menor quantidade de aulas que consegui. Prestei o máximo de atenção que pude. Estive lá. Pela primeira vez na vida com uma sensação de que estava fazendo alguma coisa certa e que deveria estar lá.

Ouvia reclamações em casa porque estava “estudando demais” e das amigas, que sempre eram alvo da desculpa “não posso, estou estudando”. O curioso é que sempre usei essas desculpas, mas dessa vez eu realmente estava.

No final de Junho, momento de receber as notas, a cada e-mail lido e com algo acima de 7 eu quase chorava de felicidade. Senti-me a pessoa mais incrível do universo. Porque eu posso achar que sou capaz de subir o Everest, mas nunca tinha achado que era realmente capaz de estudar, aprender e passar nas matérias.

Só que aí eu fui contar pra minha família e eles falaram que “ter namorado ajuda até nisso”. E aí eu passei a perceber que todas as vezes que conto pras pessoas que estou feliz ou que algo deu certo o comentário é algo relacionado a ter um namorado. A reação um é querer matar a pessoa. A reação dois é me odiar.

Confesso ficar extremamente angustiada quando vejo pessoas que se dizem feministas virem dizer que só consegui fazer coisa x porque agora tenho um namorado. A minha mãe eu até entendo, discordo, mas entendo. As feministas não. Qual é o sentido em pregar libertação feminina e empoderamento se cada pequena vitória da mulher é atrelada à sua relação com algum homem? Eu tenho um namorado, não um super-herói. Não uma muleta que me carrega por aí. Se eu passei foi porque eu estudei. Eu me esforcei. Eu quis. Ele estava lá, mas isso não torna o mérito dele.

É aquela história de dizer que a Dilma virou presidente por causa do Lula. Que a Marina Silva só teve muitos votos porque é viúva do Chico Mendes. E assim sucessivamente num caminho sem fim. Até quando as mulheres vão ser metades? Até quando vão ser apenas costelas, que só ganham vida com um homem do lado? Eu não sou isso. Eu sou inteira. Inteira pra caralho. Com I maiúsculo mesmo. E ai de você se me disser que não.

E posso nunca ter lido Simone de Beauvoir (que por muitos é conhecida apenas como “mulher do Sartre”!!!!), mas devo concordar que a gente não nasce mulher, a gente se torna.  E a cada dia que passa tenho a infelicidade de encontrar mais mulheres que tiveram a oportunidade e esqueceram de se tornar.

3 thoughts on “Inteira.

  1. Quando o semestre começou e você ainda estava no Paquistão, admito que fiquei preocupado. Não por você ser incapaz de colocar a matéria em dia, mas por reprovar por faltas. Diferente de Filosofia, sei que C.Sociais é extremamente rigoroso com chamadas. O que, particularmente, acho um saco.

    Como namorado, creio ter dado apenas uns dois ou três conselhos. Coisas bem bobas, no estilo: tenha calma, re-escreve, converse com o professor e etc. Duvido que é exclusivamente por conta disso que você tenha ido bem. O mérito é todo seu.

    Sobre essa relação com as feministas, me lembrei de uma nota de rodapé de um texto do filósofo Ortega y Gasset. Em um momento irônico, o autor afirma que o problema dos movimentos de emancipação pautam por ideologias que, em vez de exercer uma crítica profunda, apenas oferecem ferramentas para aqueles que são criticados se tornarem mais fortes. O exemplo que ele dá é o próprio feminismo que quando formula suas práticas e ações, está sempre pensando a mulher em relação ao homem e nunca a mulher por ela mesma.

    Mas enfim, Ortega y Gasset e eu somos homens, não podemos falar muito sobre o assunto ou logo seremos acusados de Mansplaining.

  2. Amiga, que texto maravilhoso!!!!!! Favoritei. <3

    Estou muito feliz que você tenha conseguido passar nas suas matérias de primeira e sem passar sufoco. É uma sensação única, né? Acho que só no primeiro período da faculdade que foi assim pra mim, depois foi a desgraceira e o chororô que você bem sabe! Hahah. Supera-se, esse é o aprendizado. E, olha, eu sempre te achei muito inteligente só lendo os seus pensamentos por aqui. Uma parte de mim pensava que você era daquelas gênias que nada copiava e tudo sabia, sabe? Mas eu bem sei que o segredo do sucesso é ter paciência e se dedicar um pouquinho.

    Sobre a desculpa de estar estudando pras amigas: SEMPRE dou e nunca de fato estou estudando (o que é uma vergonha haha). Tenho tentado mudar isso e sair mais com elas porque sinto que minha produtividade aumenta quando saio mais (???). Talvez seja porque o tempo ficar curto, vai saber.

    E quanto ao "eu tenho um namorado, não um super-herói", achei digníssimo. Muitas mulheres que eu conheço também atribuíram minhas conquistas pelo fato de eu ter um namorado inteligente. Não posso negar que ele já me deu muito estímulo pra continuar nas matérias, mas quem estudou e se dedicou fui eu, exatamente como você. E é triste mesmo ver que as próprias mulheres boicotam seus próprios feitos. Essa sociedade precisa rever as coisas URGENTE.

    É isso.

    beijos. <3

  3. Parabéns pelo seu desempenho escolar. Quanto à reação das feministas me lembrei da Mallu Magalhães (Velha e Louca): “Pode falar que eu não ligo,
    Agora, amigo,
    Eu tô em outra,
    Eu tô ficando velha,
    Eu tô ficando louca.

    Nem vem tirar
    Meu riso frouxo com algum conselho
    Que hoje eu passei batom vermelho,
    Eu tenho tido a alegria como dom
    Em cada canto eu vejo o lado bom (…)”.

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