Iraiê Iraiê oni o ná iraiê onioná meu amor Iraiê oni oni oná Irá Irá…

Eu sei que disse aqui uma vez que não gosto de novela e, em geral, isso é verdade. Mas há exceções e elas consistem em novelas de época. Sempre fui apaixonada por história e adoro essas recriações de realidades que não vivi de um povo que é o meu e que gerou a sociedade e a maneira de ver o mundo que eu tenho hoje. Sei que as adaptações para novela não são completamente condizentes com a realidade, tendo em vista que são adaptações, mas ainda assim, são completamente válidas e em suma maioria lindas.

Não que sejam lindas as coisas que aconteciam nas épocas passadas, principalmente no Brasil. Não tenho vontade de ter vivido em alguma daquelas épocas que, em exceto as roupas maravilhosas, nada tinha de interessante. As mulheres serviam apenas para servir o marido, atender seus desejos sexuais, não podiam pensar de maneira nenhuma e as que trabalhavam só podiam ser professoras de crianças. Isso sem contar que os casamentos arranjados, o voto era por cabresto e as pessoas deveriam casar virgens, caso contrário poderiam vir a ser obrigadas a virar quengas. A realidade da época era terrível, mas ainda assim eu adoro saber um pouco mais sobre, mesmo que distorcidamente.

Esse ano está sendo bastante conturbado, mas também bastante diferente e inovador. Tenho experimentado novas coisas e feito coisas que jamais imaginei que um dia faria. Minhas concepções mudam a cada dia, pois a cada dia descubro algo novo e útil para formar opiniões sobre o mundo inteiro. E pela primeira vez na vida eu compartilhei uma novela inteira com os meus pais. Daquele tipo de que se um perde o capítulo os outros têm a obrigação de contar, isso sem contar todas as vezes que recorri à internet para ver algum capítulo perdido. A gente sentava no sofá enorme amontoados e assistíamos àquela coisa maravilhosa discutindo sobre os destinos das personagens e tendo as reações adequadas a cada cena. Sempre acordávamos morrendo de sono no outro dia pela manhã, principalmente eu, que tinha aula. Mas nada disso importava, tudo valia apena. Estávamos assistindo a “Gabriela”.

“Gabriela”, a readaptação de uma novela da globo, baseada na obra do queridíssimo Jorge Amado e com licença dada pela Warner Bros! Eu nem sabia que Warner tinha licença sobre as obras de Jorge Amado ou que ela podia conceder algo a Globo, mas hoje agradeço por ter feito isso.

Com Gabriela eu pude aprender sobre todo o funcionamento de uma época, pude conhecer Malvina, a garota “rebelde” da história. Aquela que, ao contrário de todas as outras, queria pensar,  queria casar por amor e queria poder ser livre para poder fazer e ser o que quiser, sem precisar ficar dependendo de homem. A que foi enganada por um que achou ser seu grande amor e que, por ele, foi arrastada por uma cidade inteira e depois prometida a casamento com um quase jagunço. Conheci Gerusa, a menina romântica que se apaixonou pelo arqui-inimigo de seu avô e sofreu horrores, até ser mandada para o convento à força para manter-se afastada dele!

Dona Doroteia, a moralista da cidade, a maior das beatas que falava tudo que estava de errado na vida de todos e no final descobriu-se ser quenga – que no último capítulo revela que sente falta dessa vida e que se alguém ainda a quisesse ela “ia” – e seu filho, o coronel Amâncio que dizia-se certo e não queria que seu filho se casasse com uma ex quenga, mas que na verdade era “invertido” – algo extremamente terrível na época – e se encontrava, às escondidas, com o “invertido” do bordel da cidade.

Também tive o desprazer de conhecer Berto, o garanhão que adorava desvirginar moçoilas e depois deixá-las ao leu, até que se casou com uma qualquer só para esquecer-se de seu grande amor, que muito magoou e acabou por se casar com seu irmão. Claro, seu irmão.

Juvenal, o bonzinho, que ia ao bataclã para jogar baralhos com Teodora pois só queria se deitar com alguém que amasse e ainda bem que ele encontrou Lindinalva.

Lindinalva, a mais sofrida da história inteira, que perdeu os pais em uma viagem que queria ir e eles não deixaram, que foi estuprada por Berto e depois abandonada, mesmo sendo noiva dele, que pediu abrigo para a cidade inteira e teve que virar quenga, que apaixonou-se por Juvenal e quando iam fugir acabou sendo fortemente espancada e quase morrendo!

E como deixar de fora Tonico? O corredor de rabo de saia número um da história, que só parou quando foi pego na cama com Gabriela e teve que correr de cueca pela cidade inteira? E sua mulher? Ah, Olga era deveras engraçada. Enquanto todos os homens diziam que queriam “usar” suas esposas, era ela quem vivia dizendo que queria “usar”  Tonico e reclamando porque ele não a queria mais e que quando soube que era corna, tendo em vista que não podia divorcia-se, acabou por traí-lo também e ele nada fazia, cenas divertidíssimas!

Falar em traição sem citar Coronel Jesuíno seria uma infâmia muito grande, afinal, ele foi o corno mais corno da história. Aquele que maltratava a mulher e que todas as noites dizia “deite que quero lhe usar” e ela tinha que ficar imóvel e abrir suas pernas para ele, sem tirar a roupa. Ele nunca a beijou nos lábios, nunca viu seu corpo nu, ela era apenas um corpo, que ele achava “seco” pelo fato de que nunca tiveram filhos. Então ela enlaçou-se romanticamente com o dentista novo que chegara à cidade e ele, quando descobriu, atirou nos dois. E passou a novela inteira dizendo que estava certo, não tinha sido crime, ele tinha apenas “lavado sua honra”. Até que o irmão do dentista chegou e resolveu processá-lo e pela primeira vez na história um coronel foi preso por um “crime de honra”. E ele deu o depoimento mais emocionante da história dos julgamentos novelísticos, claro.

Por último, mas não menos importante, eu conheci Gabriela. Ah… Gabriela! Aquela que queria ser livre como um pássaro, que não parava de falar “moço bonito” e “casar pra quê seu Nacib?” e “quero ser apenas eu, Gabriela” e, bem, ela conseguiu ser apenas ela. Aquela pessoa leve e brilhante, que de tão inocente não entende as regras malucas da sociedade na qual está inserida e muito menos as razões para ser obrigada a segui-las. Gabriela que tinha cheiro de cravo e cor de canela, que gostava de dançar e queria ir ao circo e não a um recital de poesias. Que queria usar vestido simples e que vivia repetindo que “sapato aperta seu Nacib, gosto não” e não ligava pra isso. Aquela pessoa simples e leve capaz de te arrancar sorrisos que só a inocência faz. Aquela que você tem vontade de abraçar e agradecer aos céus por ainda existir gente assim. Sempre Gabriela.

Hoje minha mais nova novela preferida de toda a vida terminou. Eu não sei o que aconteceu com a Lindinalva e nem com a Malvina e ainda quero arranjar um contato com Walcyr Carrasco para perguntar a ele. Eu ainda não decorei os sete minutos da maravilhosa música inicial. Eu ainda não superei Mateus Solano, embora ache que isso eu jamais farei. Ainda sinto que meu coração foi partido, despedaçado e deixado de lado. Sinto que minhas noites serão vazias e que terei que arranjar outra coisa para fazer amontoada com meus pais. Sinto que dias sombrios virão, que sentirei falta de todas as levezas que senti enquanto assistia ao meu ópio, enquanto resignava-me a alienar a mim mesma.

Sempre lembrarei dos meus sorrisos e da minha alegria quando fui a única a dizer que sim, eu assistia “Gabriela” quando minha professora de antropologia perguntou quem o fazia, afirmando que era uma maneira fantástica de fazer uma análise antropológica sobre o passado.

Sinto que o tempo vai passar, mas eu não vou parar de cantar a trilha sonora maravilhosa que essa novela teve. Nunca vou conseguir abster-me de diversos termos usados e de grande parte do sotaque nordestino que eu implantei em mim mesma. Nunca vou conseguir gostar e me identificar com uma novela tanto quanto com esta e nunca, absolutamente nunca, deixarei de amar Jorge Amado, que o próprio nome diz que merece ser amado, por só ter feito obras mais que maravilhosas.

Até breve Gabriela, obrigada.

0 thoughts on “Iraiê Iraiê oni o ná iraiê onioná meu amor Iraiê oni oni oná Irá Irá…

  1. caraca que bonito tá aqui, gata! e você sabe, eu não assisti quase nada de Gabriela. Primeiro porque queria ler a obra escrita e segundo porque li, terminei a tempo assisti alguns trechos e vi tanta coisa diferente do que tava no livro que desencantei. algumas historia eu deveria ter acompanhado desde o começo. mas ao contrario de muitos, achei a interpretação de Juliana como Gabriela super correta – não sei porque implicaram com ela! – e Martins estava incrível como Nacib!

    quando uma novela que a gente ama termina ficamos meio órfãos né? boa sorte no luto!

  2. Eu não assisti Gabriela, mas super te entendo! Eu também fico com um vazio enorme no peito quando as coisas que eu amo terminam. Tem novelas que eu guardo no peito até hoje. Isso sem falar no final de Friends, e em Harry Potter, mesmo que eu tenha os dvds e possa começar do começo quando quiser. Nunca é a mesma coisa.
    Agora, o fim de algo que você vive, dói ainda mais. Se um dia eu conseguir parar de sofrer de saudade de Vamos Falar de Amor eu te conto.. :S
    Beijo!

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