Já faz um ano.

Há um ano eu estaria dormindo, ou pelo menos tentando. Morrendo de orgulho antecipado de mim mesma, afinal, minha vez havia chegado. Porque eu sempre fui dessas que só tem frio na barriga depois que a coisa aconteceu e que só percebe que passou por tal coisa muito tempo depois que passou.

Há dois anos enfrentei o monstro pela primeira vez. Estava Sol e eu tinha levado caneta da cor errada, acabamos pagando TRÊS REAIS numa bic furreba em um bar que estava no caminho. Não levei comida e a água acabou muito rápido. Eu estava com fome e então fiz a prova de inglês, português e história e chutei todo o resto, para ir embora no horário mínimo e finalmente comer. Minha nota foi maior do que a vez em que fiz a prova pra valer. E eu passei para o curso que eu queria, que desde essa época já era Ciências Sociais. Achei o vestibular super divertido e me empolguei mais lendo os textos do que tentando responder às perguntas. Eis que na segunda fase fiz cinco redações divertidíssimas e acabei dormindo demais no dia da segunda prova e perdendo. Levei a bronca mais épica da minha existência e assim não pude saber se de fato teria ou não passado.

Não é presunção ou orgulho, mas eu nunca reprovei em algo que me dispus a fazer. Já peguei recuperações, em quase todas as matérias, inclusive, mas nunca reprovei nada. Nunca me atrasei para nada, principalmente para provas e nunca, absolutamente nunca, as fiz com medo de não passar. O medo, na maioria das vezes, apareceu depois, quando eu vi que estraguei tudo.

Faz um ano que eu acordei na hora certa e fui andando para a fila do meu vestibular. Encontrei minha fiel amiga e descobri que faríamos a prova em salas diferentes. Ao contrário do ENEM, fui normal e ao invés de levar 1500ml de água, contentei-me com os 500ml. Eternamente chateada com o fato de não poder comer, logicamente.

Faz um ano que eu fiz a prova na minha ordem da sorte: Português> História> Geografia> Inglês> Biologia> Química> Matemática> Física e que quando cheguei na última já estava cansada e havia concluído de que não saberia sequer cogitar uma maneira de tentar responder às perguntas e acabei por chutar “ACDC” no gabarito e acertar mais do que muita gente que passou horas tentando resolver as questões. Faz um ano que eu cheguei em casa, corrigi meu gabarito e dormi tranquila, sabendo que era basicamente impossível não ter passado no meu curso. Que eu ri de mim mesma e pensei “poxa, passei de raspão”, mas nem me importei, afinal, o importante era passar.

Faz um ano que eu fui dormir feliz e acreditando que quando passasse por essa fase da minha vida tudo seria absolutamente diferente, não só pelo fato de eu conhecer pessoas completamente novas e maravilhosas, mas também pelo fato de eu nunca mais precisar ver as que eu odiava e por nunca mais precisar tentar resolver uma questão de física. Achava que nunca mais precisaria sentar e estudar com uma cara de tédio e uma preguiça do cão. Que eu ia viver mais e ver menos filmes e ler menos, bem menos. Faz um ano que eu dormi acreditando que estava prestes a acordar para uma nova vida.

E faz quase um ano que eu vi que não é bem assim que as coisas funcionam, que na verdade você precisa triplicar seus estudos e ler muito mais do que imaginou que seria capaz algum dia. Que filmes, seriados, músicas e ficções tornaram-se extremamente necessários para a prosperidade da sobrevivência e que grande parte dos amigos que você julgava serem eternos sumiram pra sempre.

E eu não consigo acreditar que faz um ano. Que eu estou apenas na terceira semana do meu segundo semestre universitário e já faz um ano que eu fiz o vestibular. Um ano que me livrei desse imenso fardo e convenci a mim mesma que era capaz de passar em alguma coisa. Um ano que eu fiz a melhor escolha da minha vida e que comecei a trilhar o caminho para adentrar no melhor lugar do mundo. Um ano que eu deixei de ser a garota que vestia um uniforme preto, passava um crachá na hora certa e ficava a manhã inteira vendo aulas, em suma maioria desinteressantes, e passei a ser a garota que veste a roupa que quer, vai pra aula a hora que quer e assiste a aulas, em suma maioria, completamente e maravilhosamente interessantes.

Faz um ano.

E tudo que eu posso dizer para os que enfrentarão seu monstro pela primeira, segunda ou vigésima oitava vez amanhã é que ele é apenas o monstro filhote, o grande virá depois, mas que com certeza, o grande aplicará uma anestesia fantástica em você antes de pensar em te engolir. Só posso dizer que, bem, é só um monstro e nada além disso. Só uma pequena prova de oitenta questões, muito provavelmente chata. Nada além disso. As consequências que suas respostas terão podem ser as mais diversas, mas de maneira nenhuma poderão ser consideradas certas ou erradas, como meu melhor professor de português vivia dizendo, “vestibular tem todo ano” e, assim sendo, se não for dessa vez, será de outra. O importante é nunca desistir daquilo que a gente realmente quer.

Puts, já faz um ano!

0 thoughts on “Já faz um ano.

  1. E que eu te conheço e te vejo ansiosa pra viver isso, meu bem, já faz mais de 2 anos! O tempo voa!! Hoje você faz um curso que te da trabalho, mas que você adora. Tem cabelos laranjas, e vai trabalhar na livraria mais linda do mundo! E cada dia mais eu tenho orgulho de você! <3

  2. Manter a esperança ainda, obviamente. Mas tudo também na base do esforço. Aprendi que nada na vida vem de graça, a vida não é fácil. Não é mesmo. Alguns tem sorte, sobretudo por não temerem inicialmente o vestibular, como foi o seu caso. Outros, como eu, necessitam de um empenho imenso para conseguir algo. Mas o desafio é o que importa. E a capacidade nossa de superá-lo.
    Abraços!

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