Mais um passo rumo à adultecência.

Adultecência, um neologismo inventado pela minha pessoa. Palavra que reúne “adulto” com “essência”, porque ser adulto é muito mais do que apenas envelhecer. Ser adulto tem sua própria ciência, seu próprio método de viver, sua própria logística e maneira e, sinceramente, para mim tudo isso ainda não passa de um monte de balela e coisas absurdamente bizarras.

Já sei o que vocês estão pensando “a garota acabou de fazer dezoito anos e já quer se achar adulta” ou “nem começou a ser adulta e já está reclamando“, mas, veja bem, eu não estou propriamente reclamando e muito menos considerando-me adulta, apenas dei mais um passo – dentre os milhares – hoje.

Ao contrário do que muita gente me dizia sobre os dezoito anos, que seriam apenas o aval legal para eu fazer tudo que sempre fiz, a idade demonstrou-se totalmente o contrário. Principalmente porque eu nunca tinha feito as coisas que eu não podia antes de ter 18 anos, só as fiz depois e pretendo contar detalhadamente minhas aventuras no meu magnífico meme de fim de ano, mas a experiência de hoje precisa ser compartilhada enquanto está fresca, porque hoje eu matei aula na faculdade não para ficar dormindo em casa, não para estudar pra outra matéria, não para ir a um médico ou simplesmente por falta de vontade ou confusão de horários, hoje eu matei aula para a minha primeira entrevista de emprego.

Tá, a primeira entrevista que fiz foi em Setembro, mas não conta porque foi para uma bolsa da universidade e a única pergunta foi “por que você quer ser professora?“, respondi o que veio na cabeça na hora e pronto, ganhei a vaga. Hoje foi mais especial.

Eu tenho grandes planos para o meu futuro, sendo que meu maior projeto inclui um grande desembolso monetário para ser realizado e eu preciso de uma maneira de levantar esse dinheiro em menos de dez anos, caso contrário nada ornará com meus planos. É, acabei fazendo planos pro meu futuro, por mais contraditório com a minha personalidade que isso seja. E eu sei que tem grande probabilidade de eles não se concretizarem, mas eu preciso tentar realizá-los antes de simplesmente desistir deles e é para isso que eu preciso de um emprego. Levantar o fundo monetário necessário para fazer minha expedição antropológica pelo país. E eu sempre fui a criança que cada dia dizia que queria trabalhar em uma coisa, mas eu sempre disse pra minha mãe que meu primeiro emprego seria ou em uma livraria ou em uma biblioteca, caso contrário eu não seria completamente realizada. O negócio é que, apesar de todas as adversidades ocorridas, esse foi ano em que eu realizei mais sonhos, dentre todos os anos os quais existi.

A Velha História…

Só que antes de trabalhar numa livraria, eu precisaria me inscrever para um processo seletivo. E foi isso que eu fiz na semana em que completei dezoito anos. Escrevi um currículo e o cadastrei no site da minha livraria preferida. Não recebi nenhum contato. Em Setembro inscrevi novamente e recebi um e-mail dizendo que meu currículo estava sendo analisado. Nada além disso. Eis que semana passada meu irmão me informa que um colega estava à procura de funcionários temporários pra terceira melhor livraria da cidade e que ele queria me indicar. Achei legal, mas antes de contatar o amigo dele resolvi procurar vagas nas outras livrarias amadas. Enviei novamente o currículo pra livraria preferida, sem muitas pretensões, afinal, era a terceira tentativa.

Eis que nesta quarta-feira eu tive um bom dia letivo, aprendi coisas emocionantes e voltei pra casa feliz, depois de ter despendido de uma pequena fortuna no xerox, como sempre. Entrei em casa, guardei as coisas e mamãe chega na maior naturalidade “recebi uma ligação da livraria” a qual eu disse ironicamente “ah eles me chamaram pra trabalhar?” e em seguida levei uma bronca por ter enviado meu currículo, afinal havíamos combinado que eu deveria só estudar, porque não dou conta de fazer mais nada e blábláblá, depois de todo o discurso-mãe ela me passou o telefone para o qual eu deveria ligar. Liguei e me falaram para comparecer na sexta, às 10h30 para o “processo seletivo”.

Só que na minha cabeça “processo seletivo” tem apenas duas determinações:
1 – Uma prova múltipla escolha, estilo vestibular

2 – Uma entrevista individual metódica na qual querem saber até sobre como anda seu intestino

Só que não, minha livraria preferida me surpreendeu até nisso.

Boba como eu, saí da aula às 9h30 e fui correndo pro shopping, cheguei às 9h45, completamente esquecida que o dito cujo só abriria às 10h. Então eu resolvi sentar na escadinha e ler. Em pleno dia chuvoso que eu escolhi sair de casa de vestidinho e all star. Terminei o capítulo do meu livro – que finalmente está legal – e a porta do shopping abriu. Corri para o banheiro, porque toda bexiga tem limite, dei uma ajeitada no cabelo e corri pra livraria, não podia suportar a ideia de perder minha entrevista do primeiro emprego dos sonhos. Sentei em uma confortável poltrona e li outro capítulo do livro enquanto esperava e via meus concorrentes aglomerando-se ao meu redor. Fomos convidados a entrar no local da entrevista e foi aí que eu descobri que não seria uma entrevista, mas sim uma “dinâmica em grupo”, o que é bem mais complexo que uma simples entrevista.

Preenchemos nossos nomes em uma folha de papel, assistimos a um vídeo institucional que falava sobre a filosofia da empresa (belíssima, diga-se de passagem), ouvimos a respeito da vaga e apresentamo-nos de um a um, dizendo nome, idade, o que faz da vida, experiências profissionais, hobbys e os motivos para termos nos candidatado. Após isso fomos expostos a uma situação complexa e divididos em quatro grupos, o objetivo era que conseguíssemos resolver a situação sem prejudicar mais o cliente, fazer confusão e sujar o nome da empresa na cabeça dele. Em seguida jogamos “escravos de jó”, assistimos a mais um vídeo e nos sentamos para fazer uma prova de múltipla escolha, porque, no fim das contas, provas nunca podem faltar. A prova era facílima, com perguntas sobre autores e livros e em seguida havia uma redação a ser feita, na qual você deveria escrever sobre cultura ou sobre as razões para querer trabalhar na empresa. Escolhi a segunda opção, porque eu jamais conseguiria falar sobre cultura em míseras vinte linhas, mas para fazer mais bonito dei uma misturada e uma metaforizada com as coisas.

Saí de lá sem acreditar que eu tinha conseguido passar por aquilo sem nenhum trauma. Sem acreditar que tenho chances de conseguir o emprego que sempre quis e que a minha livraria favorita do mundo é ainda melhor do que eu imaginava. Saí de lá mais convicta de que preciso trabalhar lá em algum momento da vida, ao mesmo tempo em que convicta de que necessito terminar de ler a maior quantidade de coisas sobre antropologia possível. Saí de lá feliz e realizada, porque o meu nome é Mayra, eu tenho dezoito anos, meu cabelo atualmente é laranja e eu dei mais um passo rumo à minha adultecência, que um dia chegará, mas jamais será capaz de deixar a infância e os aprendizados da adolescência para trás. Porque o ser humano é um ser total, que agrega as experiências pelas quais passa e nunca as esquece. Hoje eu dei mais um passo perante coisas inesquecíveis, afim de realizar algo que sempre quis. Hoje eu dei mais um passo para o que os adultos sem graça dizem ser “crescer na vida” e que para mim significa apenas realizar um grande sonho. Hoje, pela primeira vez na vida, eu matei aula e não fiquei com peso na consciência. Hoje eu matei aula e fiquei feliz.

Receberei o resultado no máximo até segunda-feira, mas sei que independente de qual seja, a felicidade por ter tido coragem e empenho de esforçar-me para realizar isso já me satisfaz.

(Espero que adultecência chegue, mas que a amadurecência continue sempre distante de mim.)

0 thoughts on “Mais um passo rumo à adultecência.

  1. Ai, que incrível! Eu queria muito trabalhar na Livraria Cultura, mas muito mesmo, só que eu não tenho tempo, e eu também amo o meu trabalho. Se o dia tivesse mais de 24h.. Mas só passar por essa dinâmica já teria sido incrível, ai, gente, to torcendo aqui! Aí só vou comprar livros com você, HAHAHA! *_*

  2. Que lindo, Maymay! Vou ficar torcendo muito pra você ser contratada <3
    Também tenho essa fantasia de trabalhar numa livraria, mas infelizmente não tenho tempo. As grandes livrarias aqui de Udiland ficam nos shoppings e horário de shopping é complicado pra quem cursa graduação integral na faculdade. Mas quem sabe um dia, né?
    Boa sorte, babe! Se depender de inteligência, estilo e torcida você já tá dentro!
    Beijos

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