Massa Encefálica Ineficaz.

Sempre admirei as pessoas inteligentes e sempre quis ser um pouco parecida com elas. Nada mais incrível do que se envolver em conversas que duram horas sobre livros e autores polêmicos e explicações inusitadas e afins. Nunca tive essa capacidade.

Meu irmão costuma dizer que eu sou mais inteligente do que ele, mas que não sei usar a inteligência e meu namorado diz que tenho potencial e que devo explorá-lo. Eu, que sou quem mais sabe – mesmo que não saiba tanto assim – como funciona a minha cabecinha quando tenta pensar, não sei qual é o grau de inteligência ou potencial, só entendo é da preguiça e da desatenção.

Como eu sempre falo, nunca fui a pessoa que estuda. Todas as minhas aprovações foram pura sorte e boas companhias com deuses, santos e outras entidades. O mérito é todo do acaso, não meu. A verdade é que se o que eu escrevo neste espaço na maioria das vezes não faz o menor sentido – e eu escrevo o que quero, porque quero, quando quero, logo, deveria ter formulações decentes e um sentido compreensível em todos os casos – o que ocorre nos meus cadernos de aula é uma junção de palavras chave que só fazem sentido quando presto mais atenção nas palavras da professora do que na roupa dela, ou na pintura da parede – o que é raro. Na maioria das vezes, pego frases pela metade e só as anoto porque acho bonitas, não faço ideia do contexto.

Achava que o problema era a falta da leitura dos textos, então comecei a lê-los. Só que eles são legais e o que acontece com textos legais é que eles me relaxam, eu paro de prestar atenção e de repente estou grifando frases bonitinhas e ficando emocionada com o que foi escrito, sendo que na verdade eu estou grifando a pessoa que o autor está criticando e que não estou entendendo absolutamente nada. Mesmo quando me esforço para entender, prestar atenção, ler pensando e grifando só o que resume as ideias e argumentos do autor, me distraio. Seja com a cor da página, a formatação ou aquela nota de rodapé que trouxe tantas referências legais que me fizeram pensar em mil outras coisas e quando volto ao texto tudo é em vão.

Estou no terceiro ano da faculdade e não sei estudar. Simplesmente não sei. Sento para fazer as provas, olho as perguntas e sei exatamente com qual autor e texto posso relacionar, mas não lembro as ideias sem antes fazer uma contextualização enorme e as vezes eu não lembro nem assim e escrevo todas as porcarias que me vierem à mente e na hora que estou em pé entregando a prova, lembro o que deveria ter respondido. Tarde demais.

Incontáveis foram as vezes que recebi notas porque não fui compreendida e os professores deve ter pensado que era genial porque era incompreensível. Essa teoria é advinda do fato de que nem eu lendo os trabalhos entendo o que quis dizer com eles. Outras incontáveis vezes as notas foram deploráveis justamente porque os professores não entenderam o que eu estava dizendo. E não é que eu não saiba o que estou dizendo, só não consigo pensar de maneira inteligente o suficiente pra formular de forma compreensível!

Então lá estou eu apresentando um seminário sobre um texto super fácil, falo por cinco minutos interruptos e no final a professora pergunta justo aquilo que passei o tempo todo tentando explicar. Sem saber outra forma de falar, fico calada esperando alguém se manifestar. Eis que uma pessoa abençoada levanta a mão e responde em trinta segundos de uma forma que qualquer um entende e tudo que consigo pensar é que adoraria ter nascido mais inteligente.

Minha mãe é a que mais sofre com os meus lapsos de percepção de burrice. Ela é a única que vem no quarto perguntar porque estou triste e não quero ir na aula no outro dia. Ela se culpa e diz que se for muito torturante para mim eu não preciso ir, que posso trancar as matérias que eu quiser – desde que dê conta delas depois – e que não tem problema faltar um dia pra descansar. Ela fica sentada ouvindo eu me xingar eternamente e diz que eu não sou tão burra como acho, só preciso prestar mais atenção.

Ao meu pai eu pergunto como ter concentração. Ele nunca conseguiu me ensinar. Ao meu reflexo no espelho eu digo para parar de frescura e simplesmente continuar fazendo o meu melhor, mesmo que seja péssimo. E é assim que, depois dos meus dias de descanso, eu tento novamente, sem a menor esperança de obter um resultado melhor.

Passei a ter medo de provas, trabalhos, seminários e quaisquer outras situações às quais eu tenha que falar sobre algo “inteligente”. Passei a ter vergonha de tudo que eu escrevo ou falo e da forma com a qual eu falo. Passei a me sentir um peso em todos os trabalhos em grupo e a boba da corte da sala em todas as aulas. Passei a abominar o ato de ir para a faculdade, justamente por saber que mesmo que eu ache tudo um máximo, que ache fantástico e que morra de vontade de aprender mais, na verdade aprendi tudo errado. Na verdade sei tudo errado, sei nada. Prestei atenção nas vírgulas e nas frases de efeito e nunca tentei entender ninguém. E assim me tornei vazia de conhecimento, mais vazia ainda de saber e cheia de detalhes fúteis sobre autores aleatórios. Talvez meu olhar sempre tenha sido direcionado errado, as palavras difíceis nunca tenham feito sentido, o foco sempre tenha estado embaçado e as lentes sempre tenham sido erradas.

Gostar de ler é bem diferente de saber ler. Saber ler é bem diferente do que saber ler academicamente. Tudo isso é bem diferente do que ter a leitura e interpretação como bases de todo o seu futuro e simplesmente perceber que nada esteve certo até agora e que você teria sido muito mais útil se tivesse ido fazer um curso de corte e costura e ido trabalhar, explorada, costurando calças jeans, a fim de ser aposentada por invalidez em dez anos e poder passar o resto da vida em casa, lendo o que quisesse e sem a preocupação maluca de estar entendendo do jeito que esperam que você faça.

Eu, que não consigo me adequar nem a isso, nem sei porque ainda tento me adequar a todo o resto. Onde é o espaço no mundo destinado para os que não pertencem a lugar nenhum?

One thought on “Massa Encefálica Ineficaz.

  1. Oi, May. Vou ser bem direta: não deixe o padrão acadêmico te destruir ou te desanimar, esse mundo obscuro e sádico eca eca eca. É uma chatice tentar se enquadrar e só dar com a cara na parede. Eu cheguei ao mestrado já desistindo de me enquadrar e assumindo que não gosto de enrolation (eu sou direta, não dou as voltas que a galera de humanas precisa dar pra explicar alguma coisa). Sobre ser inteligente: é claro que você é (e muito). A academia nos pressiona para ser um tipo x de aluno/pesquisador e nem sempre permite que a gente mostre o que tem de bom pra gritar pro mundo. Apenas não desanime, não sinta vergonha e não duvide de si mesma (sei que é difícil pedir isso, então fico aqui torcendo).

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