Mesmo Rodeado de Gente.

Estou fazendo uma matéria muito legal neste semestre. Não que as outras sejam chatas, mas elas exigem demais da minha pessoa, essa não, com ela as coisas acontecem naturalmente. É a única que me dói ter que sair mais cedo ou não ter tido tempo de ler o texto e é por isso que eu sempre leio e sempre tento prestar atenção.

Eu aprendi que há uma grande diferença entre pessoas que vivem na metrópole e pessoas que vivem no interior, é que as que vivem na metrópole passam anos e anos desenvolvendo um individualismo extremo, enquanto as do interior, mesmo que individualizadas, ainda sabem ouvir o outro. Na metrópole você anda na rua se esbarrando nas pessoas e pedindo desculpas, porque elas estavam bem na sua frente e você não viu. Você passa todo dia por lugares maravilhosos e nunca percebe porque há sempre muita coisa acontecendo na sua cabeça. Você dorme planejando o dia de amanhã, o seu dia de amanhã, com a sua rotina. Você não fica pensando que talvez não devesse fazer tal coisa porque poderia ir ao médico com sua amiga que está sem companhia, por exemplo. No meu caso, as coisas são críticas a ponto de eu planejar o final de semana sem parar para pensar que talvez outra pessoa da casa queira usar o carro também. E isso não é um problema meu porque, ai meu Deus, sou a rainha dos egoístas. Eu sou egoísta, mas convenhamos, todos nós somos. Todos nós queremos que a nossa vida dê certo, a gente não perde o tempo dela para melhorar a do outro. Raras são as pessoas que dão comida nova a um mendigo por livre e espontânea vontade, por exemplo. A gente vive esperando o nosso retorno. Eu. Você. Todos nós.

Comecei a ler um livro do Chuck Palahniuk e, gente, eu amo muito esse autor. Porque ele consegue descrever em palavras simples coisas que eu demorei semanas para sistematizar em minha mente. Porque com ele cada frase é uma quote fantástica e o livro não precisa ser lido, ele precisa ser apreciado. Cada palavra é um soco no estômago tão forte que não há graça nenhuma em deixá-lo passar sem sentir a dor do soco.

Eu tenho sentido socos. Por todos os lados. De todas as pessoas. Tenho recebido muito amor, carinho e atenção também, mas nunca é suficiente. Enquanto a maioria das pessoas chega em casa, vai para seu quarto e lá fica até a hora de sair no outro dia, eu chego em casa e vou conversar com a minha família, o quarto só serve para dormir ou passar fins de semana/férias tediosos. A gente compartilha nossa vida, conta nossa história, nossos segredos e angústias. A gente faz comida um pro outro e come junto. Discute o jornal, a novela e as brigas de rua que ocorreram na noite anterior. A gente conversa, ri, chora e sente. Eu falo mais que a boca todos os dias na minha casa. Eu adoro a minha casa, esse ambiente familiar, o cheirinho do café das 17h e os inúmeros abraços, palavras fofas e piadas hilárias que transpassam por todos os nossos dias e eu não consigo entender como é que para tanta gente é fácil se desvincilhar disso, pra mim não é. Pra mim dói.

Todos os socos que ando levando finalmente começaram a doer. Eu que sempre fui a pessoa mais sensível e chorona do mundo andei forte por tempo demais, até que percebi que não preciso provar nada para ninguém além de mim mesma. Que preciso parar de mentir para mim mesma e que preciso entender que as vezes chorar é necessário. Só que chorar sozinho dói mais ainda e daí eu fico com mais saudades e sofro ainda mais. Os socos se misturam com as bolas de neve e o emaranhado de sensações é tão forte que as vezes acho que não vou resistir e vou morrer de sentir tanto. Passei anos da vida tentando encaixar meus sentimentos ao padrão proposto, tentando adequar-me à seu modo obrigatório de expressão, mas depois que passei a perceber a existência deste padrão é que notei o quão boba é todo esse complô e resolvi me rebelar. Ainda não tenho coragem de chorar em qualquer lugar, quando dá vontade. Não tenho coragem de dizer “me abraça que quero chorar no teu ombro”, mas sei que um dia eu vou conseguir.

A gente anda por aí cercado de tanta coisa, de tanta vida, que acabamos por não percebê-la, por deixá-la passar sem que a sintamos. Não importa o que aconteça, quantos “oi, tudo bem?” você responda por dia, quantos abraços de cumprimento você dê, no final da noite sentir-nos-emos sozinhos. Pelo menos grande parte de nós. Independente de termos ou não alguém em nosso lado. Pensaremos em todas as coisas que gostaríamos de ter dito ou feito, de toda a sinceridade que mantemos retida, de todos os impulsos retidos e ficaremos cada vez mais angustiados, desiludidos e tristes. Sempre nos sentindo sozinhos, mesmo que em meio a uma multidão. A gente precisa de carinho, precisa de atenção, mas precisa do “todo” porque ninguém constrói o seu “eu” sem a ajuda dele. Ninguém é alguém sozinho. E a gente devia parar de achar que somos. A gente devia simplesmente repensar a vida e ser mais legal com as pessoas. Eu incluída neste grupo, certamente. A gente precisa ter compaixão e respeito. Precisa conseguir pensar e levar a sério algo além de nós mesmos. Precisa dessa consciência simples e básica, desta noção que nos deveria ser inata, de que nada nunca poderá ser algo sem que haja uma influência externa. Por que é que a gente rejeita tanto essas influências então?

Não é que os abraços devam ser extraídos ou os “oi, tudo bem?”, mas eles deveriam ser feitos com uma certa importância, não apenas por costume. A gente devia querer de fato saber se o outro está bem. A gente devia querer de fato abraçar o outro porque talvez ele esteja precisando e não só porque é uma convenção social! Eu preciso de abraços, eu sou viciada neles. Quando não os recebo a solidão me atinge num nível tão superior que eu me sinto tão pequena e tão “ninguém” que nem consigo explicar. Abraços, para mim, são o símbolo mor de que há alguém no mundo que ainda está interessado na nossa existência e, por favor, viver já é difícil, turbulento e torturante, se a gente achar que ninguém está interessado, qual é a graça, o sentido e a razão?

Eu não sei o que esse texto quer dizer ou porque o escrevi. É que faz muitos dias que eu não tenho o prazer de chegar em casa e sentar no sofá pra conversar com a minha família e eu fico completamente surtada da vida quando não tenho com quem falar, daí sento aqui e escrevo. Simplesmente escrevo. Se vocês quiserem ler, que leiam, se não quiserem, bem, pelo menos eu escrevi.

0 thoughts on “Mesmo Rodeado de Gente.

  1. Estou com saudade de você, da sua baixisse e de te abraçar moça do cabelo colorido que “não é papel crepom”.
    E esses textos assim que a gente não pensa (ou pensa, mas não pensa, sacou?), simplesmente senta em frente ao computador e vomita essas idéias, pensamentos, sentimentos pra mim são os mais lindos, e eu me identifiquei com muita coisa aí como sempre e eu não tenho problema nenhum em dizer que sou egoísta, mas eu me importo, não gosto de deixar transparecer porque sou orgulhosa haha, mas acho que meu maior problema é nunca perguntar se alguém está bem se eu não quiser realmente saber… faz sentido?

    beijos MayMay

  2. Dá aperto no peito ver tanta vida sendo existida ao invés de sentida e vivida. E até eu tenho medo de me perder no meio disso tudo. Mas eu sinto tanto que até me dói. Ai, viver é complicado…….
    Te amo, azulzinha! Pode contar comigo pra tudo, sabe disso, né? <3

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