Minhas Extremidades São Frias

Escuto isso desde que me entendo por gente. Ninguém consegue sentar no sofá comigo, porque eu tenho mania de deitar e quando eu deito e sem querer encosto os pés na pessoa ao lado ela, inevitavelmente reclama “ai que gelo”, mesmo que esteja quarenta graus, meus pés estarão frios. As vezes as mãos e o nariz seguem o mesmo caminho e daí eu não posso encostar nas pessoas e isso realmente me incomoda. Meu querido avô vivia tentando me ensinar maneiras de manter as extremidades aquecidas, mas a verdade é que eu gosto delas frias. Acho incômodo perceber que meus pés estão quentes e quando minhas mãos estão muito quentes eu entro em crise de desespero e lavo elas com água fria ou fico com elas em cima de algo bem gelado. Eu durmo com os pés pra fora das cobertas, mesmo no inverno e já passei por uma fase da vida em que colocava eles de molh no gelo sempre que os sentia muito quentes. Não é loucura, muita gente faz “escalda pés” – que é o exato oposto – só que comigo não funciona, colocar os pés de molho na água quente é pedir pra passar o resto do dia morrendo de dor nos mesmos. Por isso até fazer as unhas dos pés é complicado e, claro, tirar as cutículas das mãos também. Ainda bem que eu não preciso fazer isso com muita frequência.

Minhas extremidades são frias e isso faz com que algumas pessoas achem que eu sou fria por inteiro. Acreditei nisso por muito tempo, tentei acreditar, auto-denominei-me de “Icily Princess” e vivia dizendo que adorava dar um gelo nas pessoas. Tudo farsa. Tudo mentira. Eu não sou boa nessa coisa de coração gelado. Não. Eu sou daquelas que se derrete. Sou do time que chora por qualquer bobagem e que se compadece com 90% dos mendigos que pedem algo na rua, mesmo sabendo que dar esmolas não mudará a vida de nenhum. Sou aquela pessoa que adora assistir filmes de comédia ou psicológicos, mas que ama MESMO são os filmes dramáticos e quando eles são biográficos quase morre do coração. Eu não gosto de ver as pessoas sofrerem, é por isso que desisti de ser médica no mesmo dia que cogitei essa possibilidade, mas por outro lado, eu gosto de ver elas sofrerem. Acho que o sofrimento alheio me engrandece de algum modo, afinal, eu posso aprender sem que doa em mim. Só que as vezes dói. As vezes a dor é inevitável e, mesmo que o sofimento seja opcional, você não lembra disso na hora e acaba sofrendo involuntariamente. Eu sou completamente apaixonada por filmes tristes, mas eu sofro muito com eles.

Meu filme preferido de todos os tempos, por exemplo, nunca consegui assistir sem chorar no final e sem ficar refletindo sobre tudo o que ele mostra por dias a fio, sem ficar cantando as músicas inúmeras vezes e sem morrer de vontade de atravessar as barreiras de tempo-espaço, abraçar Christopher McCandless, dizer que o compreendo e que não me seria nenhum esforço acompanhá-lo em sua empreitada, descobrir com ele a “Natureza Selvagem” e compartilhar um pouco de felicidade. É impossível. Da mesma maneira que considero impossível ouvir “Legião Urbana”, minha banda preferida, sem ficar completamente indignada, revoltada e chateada por nunca ter podido abraçar ao Renato Russo e dizer a ele o quão importante ele foi para a minha vida. Semana passada, por exemplo, assisti a “Os Miseráveis” e não consigo parar de pensar naquela história, no que aquele povo viveu, no perrengue que eles passaram, na Anne Hathaway cantando que a vida dela era um inferno e na Eponine me dizendo que o amor da vida dela estava com outra e ela não podia fazer nada. Tenho chorado frequentemente por causa deste filme, assim, só de lembrar. Eu não sei cantar nenhuma música, mas elas continuam a ressoar em minha mente e a simples menção a esta obra já me faz ficar completamente melancólica. Hoje, inclusive, passei por uma tortura mental na qual a Carol escreveu e cantou a música mais triste do filme pra mim e eu me segurando pra não chorar no meio da aula porque seria ridículo. Dói. Eu sofro. É horrível.

Não é que eu não tenha motivos reais para sofrer, eu tenho e não são poucos ou menos dolorosos, a questão é que sofrer pela realidade alheia me parece menos doloroso, por mais doloroso que seja. É como se eu gostasse de fugir da dor sentindo dor por algum outro motivo. Talvez eu goste da dor, não sei ainda. O fato é que sem a menor dúvida acho melhor ficar triste e acabrunhada por uma história não relacionada a mim do que por algo que tenha acontecido a alguém próximo à minha pessoa. A pior sensação do mundo é ver alguém por quem a gente se importa sofrendo muito sem que a gente possa fazer nada para remediar. Nada supera a gente ver os nossos herois e os pilares da racionalidade e da “frieza” chorando nos cantos por coisas que não podemos fazer nada. Eu não consigo ver as pessoas sofrerem sem sofrer junto, mas minhas extremidades são frias, tão frias a ponto de as pessoas não perceberem isso. Frias a ponto de acharem que eu realmente sou fria. Que eu não me importo. Que eu não choro antes de dormir e não recorro a um Deus que eu nem sei se acredito quando estou muito desesperada. Acham que sou fria a ponto de bater palmas quando os drogados da minha rua brigam e são ameaçados de morte durante a noite. Mas não.

Eu finjo ser forte. Eu minto pra mim mesma. Todos os dias. Eu acordo, tento esquecer o tempo que passou, imagino uma vida maravilhosa e perfeita e motivos mais que suficientes para estar sempre sorrindo. E eu acredito piamente nas minhas mentiras. E eu fico forte. Muito forte. E eu abraço as pessoas, dou bons conselhos, digo que tudo ficará bem e que nada no mundo é tão ruim que não possa melhorar. E eu sorrio e ofereço chocolates para acalmar. E eu não faço nada disso por mal, é que não acho que andar por aí demonstrando exatamente o que sinto, como sinto e porque sinto vá mudar algo. Não. Eu tenho que me esforçar ao máximo para melhorar as realidades que não estão nos filmes, as que estão perto de mim. Todas as que eu puder fazer alguma coisa. Só assim não me sentirei tão culpada quando não couber em minhas mãos a felicidade de outrem.

Porque minhas extremidades são frias, mas meu coração… Ah… Esse está sempre fervendo.

0 thoughts on “Minhas Extremidades São Frias

  1. Meus pés e mão são sempre muito quentes, o que me deixa nervosa às vezes.
    Acho que também sou um pouco assim de “gostar” de sofrer pelo sofrimento alheio.
    Me parece mais fácil lidar com os problemas que nem estão perto de mim do que lidar com os meus.

  2. May, a gente é muito diferente em vários aspectos, mas tem outros em que somos tão iguais! Esse texto é um deles. Eu poderia ter escrito facilmente, e não estaria exagerando, mentindo ou extrapolando em nenhum aspecto – quer dizer, minhas extremidades também são frias, mas eu sempre durmo de meias. Nem sei o que comentar, porque você conseguiu escrever sobre uma parte de mim que eu tenho muita dificuldade de falar, de colocar em palavras, e vivo essa mesma angústia de sentir que muitos pensam que eu sou fria e não me importo quando, na verdade, estou morrendo por dentro mas usando todas as minhas forças para ser forte, porque é pedir demais que aqueles ao meu redor que estão sofrendo tenham que lidar com a própria dor e a minha, que parece desatinar muito mais quando pisam num calo que não está em mim, mas que dói tanto quanto.
    Enfim, sua linda.
    Te amo <3

  3. guria de deus, esse ultimo paragrafo aí sou eu, todinha, em cada vírgula e cada ponto final. Tu expôs uma parte de ti que EU nunca tive coragem de falar sobre, de desmistificar essa fortaleza que muitos acham que eu sou. É muita coragem, minha admiração eterna por ter feito isso. Estou sem palavras, simplesmentte ♥

  4. O que eu faço? Estou sem ação na frente desse texto, já fui colar no meu mural, já fui mandar pessoas lerem, e amo, amo absolutamente quando vocês acertam tanto a mão a ponto de me fazer perder o fôlego lendo.
    Eu também amo sofrer de ficção, May. Meus pais não se conformam em me ver apaixonada por Grey’s Anatomy, sendo que eu basicamente só sofro. E eu amo. Porque eu prefiro me esguelar pela ficção do que chorar por um real motivo. Eu amo ser feliz. Amo dar pulinhos. Mas preciso da minha cota de sofrimento. Sou novela mexicana, preciso transbordar. E preciso de motivos. Que eles não sejam reais, portanto!
    Te amo, tanto!
    E minhas extremidades são geladas. Eu passo o inverno com 3 meias e choro de frio no pé. Mas meu coração.. ah, meu coração… bate! Mesmo sendo de tijolo 😉

  5. Eu queria escrever mil coisas, mas nenhuma delas vai definir o que eu quero dizer além de eu te amo e obrigada.

  6. Cara, eu sou quentinha o tempo todo. As vezes as mãos dos outros estão geladas e eu to quentona IDHASODHIA, isso é bom.
    PRECISO DIZER QUE EU SOU IGUAL A VOCÊ EM RELAÇÃO AOS FILMES. Cara, fiquei uma semana chorando toda vez que eu lembrava do livro “A culpa é das estrelas”, mas toda vez mesmo, só de escrever isso já to toda arrepiada, sério. É péssimo. A história mexeu tanto comigo que as vezes eu abro o livro só pra ler o ultimo paragrafo e chorar tipo, uns litros. Em os miseráveis? puts. Chorei quando a Anne cantou I DREAMED DREAM eternamente. E sobre essa questão de ficar chorosa pelo que se vê na rua, é horrível. Cara, eu fico mal até quando vejo um cachorro abandonado. Imagina como ele deve estar sofrendo? imagina gente? nuss. O que eu posso dizer: não pira. Os legionários realmente tem este defeito.
    Eu uma vez ou outra faço trabalho voluntário, já doei medula óssea, enfim. Acho que ajudar de VEZ EM QUANDO (porq gente que trabalha com isso tem tendencia a pirar mais ainda, eu então, que sou uma manteiguinha) não faz mal nenhum.

  7. Que bela antítese você tem em si mesma!
    As pessoas sempre me acham fria e sem coração, mas eu não sou muito de demonstrar sentimentos nem nada – sou um desastre na parte sentimental da vida – mas eu também sou dessas que chora lembrando de filmes, fica triste pelas tragédias alheias e tal, mas… eu simplesmente não demonstro para os outros.
    Lindo texto, guria. Linda antítese.

    Kissu ;*

  8. Ai May… acho que em algum ponto desse texto vi uma similaridade entre nossas personalidades, mas ao contrário de você, eu prefiro viver e aprender por mim mesma. Sejam coisas boas ou ruins. E não é que eu goste de sentir dor, na verdade odeio me machucar, odeio chorar, odeio me sentir fraca, mas depois de alguma forma, seinto que tudo pelo que passei me deixou mais forte. E eu não trocaria isso por nada.
    =)

Comentários: