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Há um casal, eles mantêm relações íntimas e de uma delas surge uma barriga. Em alguns meses sabe-se a que sexo o pequeno ser responderá e a partir disso geram-se laços afetivos que vinculam os genitores ao feto em si. Mesmo que ele tenha apenas dez centímetros.

Avaliemos a situação antropologicamente, assumindo que o tal vínculo não é natural, tendo em vista que se a criança fosse criada por alguém se não seus pais, muito provavelmente seria tão amada e bem cuidada quanto, o que prova que compartilhar genes nada influencia.

A criança nasce. A mãe a protege e, junto com o pai, a educa. Com dois anos a escola começa a ser frequentada, erroneamente, assumindo o papel dos pais na educação. A partir daí os pais tornam-se apenas fornecedores de abrigo e alimento.

Mas estamos em sociedade e por isso temos noção do termo “família”, o que faz com que acreditemos em sua importância e lutemos para mantê-la. Para a manutenção da família é necessário fortificar os vínculos afetivos.

Assim sendo, os pais compram tudo que os filhos pedem, achando que isso substitui sua presença. Cada presente é dado como forma de representação de amor, mas para a criança é apenas um presente dado por alguém que só aparece para dar presentes. Na escola essas crianças entram em contato com outras, que possuem outras coisas e isso causa um esbanjamento por ambas as partes e surge a vontade de querer ter sempre mais. Aprendem matemática e afins, mas nada sobre gentileza, respeito e todas as outras virtudes. A escola acha que quem deveria ensinar isso são os pais e os pais acham que é a escola e a criança acaba não aprendendo. Ela volta para casa, pede mais coisas, assiste à televisão ou joga videogame. Não precisa se relacionar para viver. Conversa apenas sobre suas posses ou novos jogos, mas não corre, machuca ou se suja. A criatividade e imaginação decaem. Unindo isso ao relacionamento deficitário dos pais e dos pais para com ela, cresce solitária e transferindo seus anseios de afeto para as coisas que possui. Cresce.

Surge a necessidade imposta pelo consenso de pessoas a sua volta de possuir um relacionamento “amoroso”. Aspas porque o amor de fato não importa. Desde que haja alguém que ela chame de “meu” ou simplesmente para não ser uma pessoa com dezesseis anos que nunca encontrou outra boca. Na verdade poucos são os que realmente sentem necessidade de outra pessoa, mas são levadas a crer que sentem e uma vez que não encontram alguém, surtam.

Mas não é o caso dessa ex-criança. Ela consegue pessoas que satisfaçam seus desejos sexuais, se é que se pode chamar assim, mas não há vínculo sentimental. Ela sabe o que é sentimento “a coisa que rege os contos de fada”, mas os vinculais ela não sentiu. Nem pelos pais. Passa um tempo com uma pessoa e quando vê que se apega, parte para outra. Sempre cumprindo o ciclo. É vista com respeito pelos outros, não precisa fugir das perguntas sobre o parceiro, mas continua a se sentir vazia, eternamente. Porque nada pode completar o que não quer ser completado. Vazia, segue na busca incansável por algo que não sabe o quê e no auge de seus vinte e poucos anos continua perdida por aí.

Hoje ela prega que pais devem doar seus filhos caso vejam que não são capazes de dar-lhes atenção, que os eduquem e realmente se vinculem a eles. Porque ela nunca conseguiu se relacionar com alguém. Acha-se moderna, mas é mais primitiva do que os animais, porque até eles conseguem de fato viver em comunidade. Sua comunidade é seu apartamento de trinta metros quadrados.

A pessoa aqui descrita talvez não seja um de nós, mas pode ser um de nossos filhos ou as crianças de hoje. Essa é a realidade que nos cerca: SU-PER-FI-CI-AL.

Quero poder mergulhar no mar da vida, profundamente. Alguém se dispõe a me ajudar?

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