My Life On The Road – Gloria Steinem

          Gloria Steinem nasceu em Toledo, cidade pertencente ao estado de Ohio, nos Estados Unidos da América, no ano de 1934. Isso significa que atualmente ela tem oitenta e um anos de idade e é militante ativa do movimento feminista desde meados da década de 1950. Steinem tem uma imensa carreira de políticas sociais envolvendo o feminismo, atuando como palestrante e escritora do movimento.

          Em My Life On The Road, livro publicado em 2015, Steinem conta um pouco da sua história nas estradas da militância feminista. Dessa forma, pode-se dizer que o livro é uma autobiografia ou um memorando da história de vida dessa mulher mais que batalhadora e que acompanhou o desenvolvimento do movimento feminista desde seu começo, até seu auge e sua reconstrução. A longa experiência da autora é o que faz do livro interessante e gostoso de ler, pois de fato você acompanha toda a história do movimento feminista, relatado por uma pessoa que tudo vivenciou. Somos muito sortudos em viver em um mundo onde a Steinem conseguiu publicar esse livro antes de sua morte. Digo isso pois, como apontado no próprio livro, muitas de suas amigas tinham esse anseio (ou outros semelhantes) e não conseguiram realizar. Infelizmente, porém, ainda não há tradução da obra para o português e, tão pouco, exemplares físicos facilmente encontráveis em nossas livrarias. Ainda bem que existem os ebooks.

          O livro é dividido em sete partes, precedidas de epígrafe, prelúdio e introdução. Na introdução, começamos a conhecer um pouco da base familiar de Steinem, que tinha uma família de viajantes. Seu pai adorava a estrada e conseguiu convencer sua mãe a viver por alguns anos em um trailer, onde ela e sua irmã recebiam educação caseira. Não deu muito certo e depois de se sentir negligenciada e silenciada por muitos anos, sua mãe finalmente conseguiu se libertar e divorciou-se de seu pai. A relação dela tanto com o pai como com a mãe foi um tanto complicada posterior a isso. Principalmente porque sua mãe ficou doente e ela foi a responsável por cuidar dela, o que é apontado por Steinem como ruim, pois na época ela era adolescente e queria ir para a faculdade e era impossibilitada pela situação familiar.

          Na primeira parte, chamada “My Father’s Footsteps” (Os passos do meu pai), a autora se redime um pouco em relação às críticas que tinha empreendido à sua família anteriormente. É um momento bastante importante do livro, pois ela mostra que apesar de as situações familiares desagradáveis serem constantes em sua vida, ajudaram a ela ser a pessoa que ela é agora. No decorrer de sua vida, inclusive, ela percebeu muitas semelhanças para com seu pai e seu instinto viajante e a forma como ela narra essa descoberta é bastante interessante e “fofinha“.

          Na segunda parte do livro ela fala sobre os “Talking Circles” (Círculos de fala), que são situações onde as pessoas começaram a se reunir para discutir o problema da desigualdade de gênero e propor soluções para tal. É o início da organização do movimento feminista nos Estados Unidos e o texto varia entre coisas que aconteciam na época, digressões da autora olhando hoje para esse passado e pinceladas sobre sua vida pessoal/familiar.  Na terceira parte, ela explica “Why I don’t drive” (Porque eu não dirijo). A razão é basicamente a de que é muito mais interessante pegar caronas ou transportes coletivos e poder conversar e conhecer pessoas diferentes e que você não entraria em contato de outra forma. Então ela narra algumas anedotas que exemplificam sua escolha – e elas são bem convincentes.

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          Na quarta parte ela fala sobre “One Big Campus” (Um grande campus), que é quando ela conta sobre o feminismo e sua relação para com a academia. Somado a isso, há anedotas sobre palestras oferecidas e vivenciadas por ela nas universidades norte-americanas e também um pouco da vivência de mulheres nesses campi universitários. Na quinta parte, ela fala sobre quando a política é pessoal (“When the Political is Personal“) e relata sua inserção no universo da política, como assistente de campanha e afins. Ela perpassa uma grande quantidade de campanhas políticas, com diversos candidatos e começa a perceber que precisa lutar pelo que acredita também naquele meio. O momento mais legal deste capítulo é quando há a discussão sobre qual candidato representaria o partido Democrata nas eleições de 2008: Hilary Clinton (possível primeira presidente mulher) ou Barack Obama (possível primeiro presidente negro). Essa discussão é bastante importante para deixar bem claro o tipo de feminismo que a autora segue e acredita: o interseccional e que acredita que a igualdade racial e a de gênero devem ser lutas em conjunto.

          A sexta parte fala sobre o surrealismo na vida cotidiana (“Surrealism in Everyday Life”) e é justificada pelo fato de o movimento surrealista querer combater o racionalismo, trazendo o abstrato e a imaginação de volta ao foco do universo. Ela começa então a apontar situações onde isso é necessário para que o movimento feminista se reinvente e persista e mostra como a vida do dia-a-dia é muito mais surrealista do que racional. Na sétima parte, “What One Was Can be Again” (O que foi uma vez, pode voltar a ser), Steinem faz uma digressão sobre as transformações do movimento e compara isso com as transformações ocorridas na vida das mulheres indígenas da região após o contato com a dita “civilização”. Muitos dos povos indígenas da região seguiam o sistema matrilinear de divisão de tarefas, heranças e afins, que foi substituído pelo patrilinear após o contato com os brancos. Steinem visa mostrar ao leitor que, se uma vez a igualdade funcionou, pode voltar a funcionar.

          O livro termina com uma parte chamada “Coming Home” (Voltando para Casa), em que ela fala basicamente sobre como é ruim ter acompanhado a morte de quase todas as suas amigas militantes e perceber que ainda se está viva. E como ao mesmo tempo isso é bom, pois ela ainda tem vez e voz. Ela conclui o texto explicando o que quis dizer com cada uma das partes e relatando uma história bem tocante de uma de suas amigas.

          A leitura é bastante fluida, porque a história dela é empolgante e muito vivaz. As partes até são compridas, mas há várias subdivisões no decorrer delas, o que auxilia na fluidez da leitura. O livro foi o primeiro do clube literário feminista liderado pela Emma Watson, que proporá um livro por mês sobre o tema. Infelizmente, é esperado que grande parte dos livros não tenham tradução para o português. De qualquer forma, farei vídeos e textos falando sobre as leituras e o que aprendi com elas.

          O vídeo sobre este livro pode ser visto aqui:

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