Não Nasci pra V1d4l0k1ss3

Essa é a conclusão chegada pela minha pessoa, que, após muitas tentativas, descobriu ser uma amante devota de sua cama, seus chocolates, livros e seriados. E conversas madrugueiras com os amigos através de bate-papos. Ou um cineminha, dormir na casa da pessoa, ir a um café ou restaurante ou sorveteria e, nos dias empolgantes, uma festa muito emocionante – porque precisa ser muito emocionante pra me fazer ter vontade de ir.

Sempre fui uma pessoa comportada, só sabem que estou em casa porque as vezes vou ao banheiro. Nunca fui dessas que falta aula no ensino médio pra beber e fumar, pelo contrário, eu era a chata que brigava com os amigos que faziam isso. E que quando faltava aula era pra dormir, ou pra conversar no MSN, enquanto eles bebiam e fumavam e dançavam nas máquinas de shoppings.

Quando a gente é criado sossegadamente, em uma casa na qual seus pais ficam o dia inteiro em e sua única saída é brincar de barbie sozinha no seu quarto ou assistir desenho, dormir ou ir conversar com sua avó, qualquer coisa é vida lokisse. Tirar foto em máquina com filme sem avisar os pais é um risco tremendo, se esconder embaixo da cama pra ver quanto tempo demora até sentirem sua falta, uma tremenda aventura. Sair de casa para ir à escola e parar no bar para comprar bala, é eletrizante. Fugir para a casa de algum conhecido, só pra assustar os pais, é a coisa mais divertida do mundo. E não adianta achar que conforme você vai crescendo as coisas vão mudar, porque elas não mudam.

Aos treze anos eu comecei a ler “O Diário da Princesa” e presenciei Mia Thermopolis tentando (e conseguindo) se descobrir como pessoa, passando por um intenso processo de auto-atualização e conseguindo ser alguém na vida. Resolvi tentar fazer o mesmo. Faz seis anos que tento desconstruir e reconstruir o meu ser todos os dias, viver em um constante processo dialético, esperando que algum dia eu faça sentido e, quando olho para os treze anos, ainda sou igual. É claro que há uma série de novas experiências que me construíram e que hoje eu consigo manter uma discussão antropológica por um tempo bem maior do que nos treze anos, onde eu sequer sabia o que era antropologia. Mas ainda sou a pessoa que espera que a vida ocorra como a da Mia e que de repente tudo se encaixe e faça sentido. E talvez eu vire a Cassie, que na sexta temporada de Skins já é adulta e ainda está esperando algo acontecer na vida dela pra dar uma guinada.

Aos dezenove anos muitas coisas mudaram, mas as vida lokisses continuam banais. Continuo a estranhar os que conseguem passar o dia inteiro em um bar e no dia seguinte ir para a aula, os que usam mil e um tipos de drogas e ficam alucinados e divertidíssimos, os que saem todas as noites para lugares diferentes e legais, os que estão sempre rodeados de pessoas e sorriem e parecem felizes. Porque nada disso faz sentido na minha cabeça, parece desperdício de tempo e se é pra desperdiçar, que seja com bons sonhos. Minha vida é ir pra aula e voltar pra casa, pra dormir, pra conversar com as amigas que moram longe, pra planejar invasões à casa das que moram perto e nunca falam com a gente, ou simplesmente pra ver o episódio novo de uma das vinte séries que me vejo acompanhando no presente momento, e eu amo a minha vida! Sou uma pessoa chata. Uma velha ranzinza que a idade ainda cabe no dedo. Ainda vejo o mundo como quando eu tinha treze anos, ainda corro pra cama da mamãe quando a noite está difícil e não me vejo em posição de trabalhar ou fazer algo responsável. E não é porque sou triste, eu sou tão feliz, sorridente, empolgada, contente, mas não nasci pra ser vida loka. É tão mais fácil viver aqui, nessa posição de pessoa metida que acha que sabe muito sobre o funcionamento do mundo e prefere não se meter para não se contaminar e que acaba tão contaminada quanto qualquer outro.

Minhas vida lokisses são andar sozinha à noite, voltar a pé de madrugada acompanhada por semi-conhecidos, ficar na faculdade o dia inteiro fazendo qualquer coisa menos estudar, passar a madrugada pré-prova acordada vendo seriados e nem encostar na matéria, gastar metade do salário em livros que nunca serão lidos e a outra metade em produtos capilares. Fazer experiências malucas com o próprio cabelo, conhecer os outros campus universitários, viajar para lugares novos e ficar na casa de gente que nunca vi ao vivo. Acordar de madrugada com vontade de tomar banho e tomar. Assistir True Blood na tv da sala com gente em casa e coisas do tipo. Aventurar-me nas vida lokisses comuns exige um preparo psicológico descomunal, ou um ataque impulsivo muito forte. Eu sou presa à mim mesma. Ao meu auto-controle (ou à tentativa de fazê-lo existir). Não consigo me imaginar descontrolada e insana por aí, porque mesmo quando fico insana, estou completamente ciente disso e, pra mim isso não é vida lokisse. Vida lokisse é entrar num bar às 14h e acordar no outro dia, pelada, na casa de um estranho que você nem sabe o nome. Não consigo me ver assim. De maneira nenhuma. E eu queria. Do mesmo jeito que sempre quis ficar em recuperação, sempre quis ser vida loka.

Esse ano resolvi tentar. Encarnei o Charlie que tinha em algum lugar do meu ser e decidi parar com essa frescura de ser um espectro que ronda a sociedade, resolvi que ia virar gente em alguns aspectos e permiti-me experimentar uma série de coisas que a Mayra dos treze anos morreria de preguiça só de imaginar. E não me arrependo. Mas a minha cama é tão mais legal, minhas músicas e danças sozinhas, os filmes no cinema que está sempre vazio, mas que a pipoca está sempre boa, os abraços inesperados dos amigos que continuam por perto mesmo sabendo que eu vou negar todos os convites porque vou preferir sentir a maciez do meu lençol…. não faz sentido acordar todos os dias, se arrumar lindamente e sair por aí pra cumprir roteiros sociais que não te apetecem, só porque você acha que tem que fazer os outros felizes. Eu só quero um chocolate quente e um livro, posso?

E não é que eu não goste de festas, shows ou simplesmente de conviver. Eu gosto de tudo isso. Eu sou gente. Eu adoro contato físico, compartilhamento de histórias e criação de novas histórias. Mas depois de, no máximo, quatro horas de convívio social, tudo que eu consigo pensar é no silêncio do meu quarto, no qual o barulho é o da rua e o do teclado incansável do computador. Quando a quarta hora chega, encarno a pessoa insuportável que fica repetindo incansavelmente “vamos embora?” até que alguém finalmente me leve embora, ou que eu simplesmente vá. Porque não tenho paciência. Porque já é demais. Porque quero ficar sozinha, refletir, dormir e ser eu! Porque eu só sei ser eu quando ninguém está vendo. Porque eu tenho vergonha do mundo inteiro. Porque as pessoas acabam por me irritar de algum modo e eu só preciso desesperadamente fugir.

Esse é um texto de contentamento. Decidi aceitar o jeito “Mayra” de ser, essa coisa mole, inconstante, instável, esquisita e ao mesmo tempo tão necessitada de se fazer normal e compreendida. É um processo demorado, difícil, lento, mas talvez seja assim que a gente consiga atingir a auto-atualização da qual Mia sempre falava. Talvez seja assim que a gente vire gente, quando a gente simplesmente se aceita. Bom, essa é a Mayra, ela gosta de experimentar as coisas, porque não quer passar pelo mundo com algo muito legal nunca feito, mas ela não permanece fazendo as coisas. Ela não permanece fazendo nada. E nada, nem chocolate ou episódios novos de séries, pode competir com sua cama. A vida lokisse da Mayra é ficar em casa dormindo a vida inteira, enquanto os outros fazem todas as loucuras que julgam necessário.

0 thoughts on “Não Nasci pra V1d4l0k1ss3

  1. Eu me vi em cada palavra do seu texto. Tomara que a “Larissa” consiga se aceitar, assim como a Mayra. Não é fácil e é algo muito lento, mas é possível.

    Parabéns, você escreve maravilhosamente bem!

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