Não Preciso Disso pra Ser Feliz.

Nem pra me sentir completa.

Isso tudo é uma piada. A vida é uma grande piada, contada, diversas vezes, por péssimos piadistas que nos fazem rir só porque chorar na frente deles seria deplorável. A verdade é que o mundo só caminha quando passamos a dotar a ele algum tipo de sentido, não importa qual seja. Tem gente que quer ser feliz, outros querem mudar o mundo, outros querem apenas existir sem que ninguém os incomode, outros não querem nada, mas todos perdem tempo pensando em qual sentido esperam que o mundo e a vida em geral tenha para eles. E eu não me importo com o que as pessoas querem, só fico triste quando percebo que o que as motiva a querer as coisas são coisas com as quais não concordo. E eu sei que eu não deveria me importar que eu não deveria ficar indignada com as diferenças, mas sim aceitá-las, mas, bem, isso é difícil.

Porque desde que eu nasci me disseram que eu deveria viver em busca de uma coisa chamada “felicidade” e eu nunca soube ao certo o que é isso, mas todas as vezes em que senti meu estômago borboletear após algo bom ter acontecido em minha vida, denominei que tive um momento de felicidade. Aos poucos percebi que viver na felicidade é algo que não existe, aprendi que é apenas uma palavra, como todas as outras, uma palavra que tenta simbolizar um sentimento irreal. Ou real por apenas poucos segundos. E isso foi terrível. Porque ver sentido na música de natal que diz “papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar/ já faz tempo que eu pedi, mas o meu papai Noel não vem, com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem” é algo absurdamente absurdo. E todas as vezes que me pego refletindo abruptamente sobre temas que ninguém se importa lembro-me de meu primo assistindo a Clube da Luta e comentando só e unicamente “as cenas de ação são massa, mas esse cara é muito pilhado” e penso que, bem, eu sou muito “pilhada”, o que quer que isso queira dizer. Porque eu simplesmente não consigo engolir determinadas situações sem que isso gere em mim uma reação em cadeia de pensamentos terríveis que, na maioria das vezes, resultam ou em textos chatos, ou em eu descontando minhas neuras em gente nada a ver. Já descontei as neuras hoje, mas não foi suficiente. Precisava fazer um texto.

Eu tinha cinco anos quando disseram que eu tinha casado. Estava sendo daminha do casamento do meu primo, junto com o irmão da esposa dele e disseram que a gente se casou junto com eles. Acreditamos e passamos a noite dançando junto, como os noivos estavam fazendo e depois saímos dizendo que nos amávamos, pois era o que os noivos fizeram. Com seis anos todas as meninas da sala se reuniram e disseram que gostavam cada uma de um fulano, eu tive que arranjar o meu, caso contrário ficaria sem amigas. Com oito anos, os pretendentes eram outros e tínhamos passado a ser mais seletivas. Perdi-me no tempo e consegui sobreviver sem adentrar-me nesse meio torturante em que eu tinha que fingir interesse por um menino idiota só por ser bonito para ter amigas e de repente estava com catorze anos, todas as minhas novas amigas já tinham beijado algum garoto e as conversas em suma maioria eram sobre eles. E eu adentrava mesmo sem ter nenhuma experiência, só porque sempre gostei de meter o bedelho na vida alheia. E eu completei quinze anos e não ganhava mais tantos presentes de aniversário, a maioria das pessoas terminava o cumprimento com “um bom namorado”. Com dezesseis terminavam o cumprimento com “e muitos gatinhos”. Com dezessete davam três beijinhos que era “pra casar” e com dezoito faziam tudo ou diziam “nem adianta desejar essas coisas mais, né?” e eu nunca soube o que fazer nessas situações, na verdade, nunca sequer compreendi as razões para que elas existam.

Atualmente toda semana eu tenho que escutar alguém elencando motivos para que eu arranje um namorado, explicando seriamente sobre o quão a vida melhora quando isso acontece “você se frustra menos”, “beijar é bom”, “é bom ser amado” e tudo que eu consigo pensar é que eu consigo todo o amor que necessito com a minha mãe e meu pai e não estou interessada em procurar mais um ser para esse fim. E tudo que eu consigo pensar é em dizer, ”Por favor, vá cuidar da sua vida”, mas sei que meus pais ficariam chateados com a “falta de educação” e então fico calada. Porque a coisa é tão absurda que a falta de educação não é em meter o bedelho na vida alheia, mas sim em reclamar que estejam fazendo isso, porque “eles falam para o seu bem”. Quem foi o burro que disse um dia que isso seria para o meu bem?

Tenho apenas dezoito anos, mas já estou morta de cansada de rir das piadas engraçadas da vida e de fingir que estou rindo das tristes. Estou morta de cansada dessa gente que tira não sei da onde que a vida ideal é morar numa casa com quintal, ter cachorros, um marido rico e bonito e mil filhos. Não que tenha algo errado em pensar assim, o errado, sob o meu ponto de vista, consta no fato de a pessoa achar seu pensamento tão certo a ponto de tentar implantá-lo na vida de todos os outros seres que encontra. Porque eu não concordo com nada disso, mas só tenho coragem de abrir a boca em situações como esta quando sei que o interlocutor vai entender e não vai apenas dizer “ai, essa aí é uma louca que ainda acredita que pode mudar o mundo” porque, eu não acredito que eu vá mudar o mundo, minha gente! Eu só não concordo com as linhas de pensamento tradicionais e prezo pelo meu direito a ser livre para pensar e agir de acordo com o que eu bem entender! Porque eu nunca cheguei pra uma garota e disse “pare de se sujeitar a essa teoria abrupta de que você precisa estar apaixonada e ter um namorado lindo aos 15 anos para ter um futuro perfeito” eu simplesmente deixei de acreditar nisso e comecei a viver melhor comigo mesma.

Porque não há nada de errado em não querer que sua vida dependa da vida de outra pessoa. Em não querer ter um namorado só porque a sociedade lhe impõe que é o certo a fazer. Em acreditar no amor em pleno século XXI. Em tentar descobrir maneiras cada vez melhores de viver e aproveitar bem a vida, independentemente de qual linha filosófica você tenha que seguir para isso. Não há nada de errado em ser quem se é, independente se é loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia ou capitão! Todos têm as mesmas chances e probabilidades de conseguirem o que querem da vida e até mesmo de decidirem que não querem nada! E eu não luto pela minha felicidade e os outros que se danem e não luto pela felicidade dos outros e eu que me dane, eu não luto por nada! Apenas tenho o singelo desejo de que possamos respeitar, de fato, uns aos outros e parar com essa babaquice de acreditar que a vida fácil, ou que é passada para nós como fácil, como tradicional e, diversas vezes, como certa, seja de fato a mais fácil, tradicional e certa. Meu desejo é apenas que cada um tenha a capacidade de descobrir o que é melhor para si mesmo, sem tentar impor isso a nenhum outro. É que deixem as garotas que não querem namorar ou que anseiam desesperadamente por isso, mas por algum motivo não conseguem, em paz e ao mesmo tempo em que deixem em paz a que começou a namorar aos onze anos. Eu só queria que todo mundo vivesse a vida em paz. Tanto consigo quanto com os outros. Sem essas pressões abruptas e toscas que uma sociedade e uma cultura de loucos vive nos impondo!

Eu só queria poder morrer virgem aos 110 anos sem ter que ouvir toda semana algum panaca me dizendo que eu deveria estar namorando. Porque, mesmo que a felicidade esteja em falta, seja rara e uma palavra infeliz, é possível alcançá-la sem ter um homem nas costas – ou em qualquer outro lugar do corpo.

Desculpem-me, eu precisava desabafar.

0 thoughts on “Não Preciso Disso pra Ser Feliz.

  1. Eu também queria que a sociedade impusesse menos, embora, ache que isso é uma utopia. Essa é a vida. Todo mundo sempre espera alguma coisa. Seus pais esperam alguma coisa, seus tios, seus avós, e sim, a sociedade. Vai de você querer fazer o que os outros esperam que você faça, ou não! Vai de você ser você da melhor forma que lhe convier. Meus pais esperam que eu case e tenha filhos, e eu espero fazer o que eles esperam, porque isso é o meu sonho antes de ser o deles. Mas eles certamente não esperavam que eu fosse querer ser atriz, e eu não estou nem aí que eles não esperassem isso, porque é o que eu quero fazer. Não tenha um namorado se você não quiser, esteja às favas com a sociedade, mas esteja tranquila disso! Você é nova, May. É muito nova, e embora ache que tenha certezas absolutas sobre a vida e a sociedade, sinto lhe informar, não, você não tem! Se você tivesse certeza disso e de tudo o que você quer pra sua vida, ignoraria o que falam/esperam, pois estaria plenamente tranquila de suas escolhas. Mas você não está nesse ponto. E nem eu! E nem a maioria de nós, porque acabamos de sair das fraldas! E isso não é uma crítica, porque eu te amo! É uma constatação.
    E brigar por causa de filosofias de vida ou de sonhos é a maior besteira do mundo. Se você não quer que cobrem de você, não cobre dos outros que pensem igual a ti. A vida nos frustra muitas vezes, e é preciso saber lidar com isso.
    Bom sonhos, filhotinha revolucionária!

  2. a felicidade é uma ilusão. pessoas vivem em busca dela, mas ela só aparece em pequenos momentos e vai embora. aí você fica dependente. é pior que cocaína.

    dito isso, todas as pessoas funcionam como um exército descerebrado correndo atrás do que ouviram e foram ensinadas a vida toda. é triste. o ser humano é a coisa mais depressiva e mais podre que existe.

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