Não sou Vicky ou Cristina, mas ja fui pra Barcelona.

“Apenas um romance incompleto pode ser romântico”
Juan Antonio – Vicky Cristina Barcelona

Eu poderia falar sobre a belíssima cidade catalã a qual visitei, sobre como me apaixonei por ela loucamente e queria morar lá para sempre. Sobre como chorei ao ir embora enquanto imaginava o quão bom seria se aquilo tudo fosse no Brasil, mas não. Esse texto não é sobre uma cidade. Tão pouco sobre o filme. Esse texto é sobre aquela maravilhosa sensação de pertence que se têm a algo ou alguém, àquele delicioso frio na barriga quando o momento do encontro está chegando. A sensação maravilhosa de escutar “I wanna hold your hand”, dos Beatles, e imaginar o quão bom seria encostar sua mão na de outrém. Porque é com a mão que a gente sente o mundo, nem sempre é verdade, mas na maioria das vezes sim. É com ela que a gente toca as coisas. Quando duas palmas de mão se encostam completamente é como se dois mundos se unissem, duas energias ali, juntas. Esse sentimento é ainda mais forte com os abraços, a diferença é que enquanto o toque das mãos transmite energias e união, um abraço transmite movimento e sentimento, é a menor distância possível entre dois corações. É sentir o que o outro sente, entrar em conexão com outrém. Contato físico é isso. Ele é lindo. É lindo quando você acorda e quer abraçar o mundo, a vontade incessável de abraçar pessoas, coisas, momentos, sendo eles concretos ou não. É fantástica a sensação de querer tocar as coisas, sentí-las. Experimentá-las. Empiricamente. Como se você dependesse disso. As vezes a gente realmente depende. Então, quando você está no ápice do contentamento com a sensação, ela é interrompida. Não por vontade sua, muito menos pelo outro objeto envolvido, por outra coisa. Algo externo, que te obrigue a viver sem aquilo. Como a semana antes da peça, em que eu não posso comer chocolate por mais que eu queira, ou como quando as férias terminam e você sabe que vai passar no mínimo um semestre sem todo aquele tempo vago. Nesses momentos você quer ainda mais chocolate, quer ainda mais férias. Não é porque a gente só valoriza as coisas quando elas passam, esse pensamento é que é ultrapassado. A gente valoriza as férias e o chocolate. Você continua querendo-os justamente porque sua vontade não foi completamente cessada. Porque quando você gosta muito de uma coisa por mais que ela seja infinita, não será suficiente. Mas viver em férias eternas seria extremamente chato. Todo mundo ia ficar depressivo e tentando se matar, porque ia bater um tédio e uma sensação de inutilidade tremendas. A mesma coisa com o chocolate. Se você comesse uma barra de chocolate, o mesmo chocolate, todos os dias de sua vida, você não ia mais querer aquele chocolate. Ele não seria suficiente, deixaria de te fazer completa e você precisaria de outros chocolates. Mas quando as coisas são fatalmente interrompidas, a vontade de torná-las contínuas continua viva. Não importa quanto tempo passe, se você não se satisfez com o chocolate e teve que parar de comer, todas as vezes que ver chocolate por aí vai querer voar em cima dele e comer o máximo possível. Porque só as coisas incompletas conseguem ser românticas. Porque quando as coisas estão incompletas elas são mais românticas do que nunca. Porque mesmo que a antropologia me diga que não há naturalidade, eu fui levada a crer que ela existe. Que instintos existem e que eles vão me guiar, não importa o que os comandos internos e externos me digam para fazer. E não importa quanto tempo eu fique longe, sempre quererei estar mais perto. Do mesmo jeito que quero estar mais perto de Barcelona e do mesmo jeito que Juan Antonio sempre queria ficar com a Maria Helena, mesmo sabendo que eles não davam certo. Enquanto estava incompleto estava bom. Porque completar não é agradável. Completar não é agradável. Completar estraga a fantasia, torna o extraordinário rotineiro e banal. É o incompleto o objetivo e não o contrário. Espero ser sempre incompleta.

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