Eu não quero falar com você agora. Não é nada contra a sua pessoa, é apenas uma característica minha. Eu não gosto de conversar com as pessoas quando eu sei que não teremos algo útil a falar sobre. Não gosto de conversas que terminam depois do “tudo bem?”. Eu odeio que me perguntem se está “tudo bem”. Nunca vou entender o que a pessoa que inventou esse bordão tinha na cabeça. Se as pessoas não se importam com como você de fato está, para quê perguntar? Para quê tornar fútil uma pergunta que deveria ser útil?

Não gosto dessa coisa de me sentir obrigada a conversar com fulano ou ciclano ou beotrano quando eu sei que não tenho sobre o que dizer, mas deveria porque supostamente somos amigos e deveríamos ter assunto. Não é assim que as coisas funcionam. Irrito-me quando sobe em meu facebook a janela de uma pessoa completamente aleatória, que nunca falou comigo antes e já vem querendo saber como eu estou. É falsidade demais para a minha cabeça e olha que minha cabeça sabe muito bem como ser falsa. Quando uma pessoa dessas vem falar comigo eu tenho que abusar do meu auto controle para não soltar um “fala logo o que você quer” ao invés do esperado “tudo sim, e você?”.

Eu não consigo fingir que está tudo bem quando simplesmente não está. Não me sinto confortável dizendo pra pessoa que estou “ótima” quando na verdade passei a tarde chorando por algum motivo grave. Sempre fui do tipo que deixa  a máscara da tristeza mais visível que a da felicidade, embora saiba valorizar muito bem as alegrias quando as mesmas aparecem.

Com o passar do tempo, porém, minha angústia inaugurou em mim uma nova maneira de enxergar as coisas e eu percebi que consigo fazer a conversa ficar interessante a partir do “tudo bem”, basta dar uma resposta inesperada. Há pessoas que vão querer parar para ler todas as desgraças da sua vida, há outras que vão mudar de assunto ou fingir que você respondeu que “tudo está bem” e há outras que vão tentar entender a razão pela qual você simplesmente respondeu “sobrevivendo” à pergunta de “como você está?” quando o esperado é “bem, e você?”. A resposta inesperada gera um diálogo muito mais farto do que a esperada, afinal raramente as pessoas sabem o que dizer após o tal “tudo bem”. A não ser que, de fato, haja um motivo real para a conversa, algo extremamente raro nos dias atuais.

Entendo perfeitamente que em diversos momentos a gente se sente só e tudo que quer é sentar e conversar, independente do assunto. Entendo que faz parte de um contrato social assinado imaginariamente e involuntariamente por nós várias dessas regras completamente bestas quando paramos para pensar sobre. Entendo que, de fato, é divertido ficar horas e horas falando sobre nada. O que eu não entendo, caros colegas, é porque diabos as pessoas insistem nessa pergunta idiota quando elas não estão interessadas em saber como você está. É injusto perguntar isso. Ainda mais para pessoas como eu, que tiveram um imenso trabalho cerebral para compreender que nem sempre o que se diz tem significado literal.

Eu queria que todo mundo entendesse o meu jeitinho aleatório de chegar com um link de algo que vi por aí e me remeteu à pessoa e a partir disso fazer um gancho para uma conversa e só perguntar se está tudo bem quando realmente for relevante e usar o velho “o que você almoçou hoje?” para casos de falta de assunto. Eu queria poder chegar na janela facebookiana de quem me desse vontade e dizer “oi gatinh@ quer tc?” e ver a pessoa rir e embarcar na brincadeira comigo. Eu queria poder chegar na janela de alguém muito importante e dizer “ei, faz tempo que a gente não conversa! Conte-me sobre a sua vida.” e poder passar horas  e horas apenas lendo sobre as desventuras alheias. Eu queria que as conversas internéticas fossem fluidas como um dia foram, que a gente tivesse a liberdade de outrora. Eu queria que houvessem gifs dos emotcons que usávamos há alguns anos, só pra gente ficar se enviando e rindo. Eu só queria um mundo mais leve, mais sincero e menos falso e repleto de frivolidades. Eu sei que talvez isso nunca exista e é por isso que reservo-me no direito de manter conversas diretas apenas com aqueles que já entendem o meu jeitinho. Eu juro que não é nada contra vocês, é contra o querido sistema mesmo.

No fim é isso que acontece com quase todos nós, quase sempre.

0 thoughts on “Não.

  1. Concordo em tudo que disseste. É horrível mesmo. É lógico e faz parte das exatas esse assunto.
    A pessoa começa: _ Oi tudo bem?
    Respondemos: _ Sim, tudo e com você… (por respeito)
    E ela retruca: _Tudo ótimo.
    Pronto, e ela fica parada. O assunto pára dando a impressão de que nós é que somos antipáticos já que seria a nossa vez de falar.
    Lí 2 vezes e meia o seu texto. Nota 1.000.

  2. Sabe que eu vivo parando aleatoriamente para refletir sobre essa questão do “tudo bem?”? Isso virou tão rotineiro, e eu sempre penso que as pessoas nunca querem saber realmente como as outras estão. E quantos “TUDO” já não respondi, com um sorriso no rosto quando tudo o que eu queria era desabar. Tão rotineiro quanto a pergunta é a resposta afirmativa. E se torna inconsciente mesmo! Quantas conversas minhas com grandes amigas não começaram com um “tudo!” por parte das duas, e no fim acaba todo mundo chorando e contando das mágoas? Sei lá. Essa pergunta virou apenas uma parte do “oi”. HAHAHA
    Beijos!

  3. Ai, May, é bem assim mesmo. Tenho agonia de conversar com semi-conhecidos porque sei que só vou perguntar tudo bem e olhe lá. Por isso acho tão bom ter aquelas pessoas que são as SUAS pessoas, sabe? As pessoas com quem você pode ficar em silêncio se o assunto acabar sem ficar constrangedor. Porque assuntos acabam! É normal! Mas só é bom quando é com aquelas pessoas confortáveis.
    Assumo que quando encontro alguém que não vejo há muito tempo, apelo pro “tudo bem” que é uma tremenda falsidade. O que faríamos se alguém respondesse “não, tá tudo uma merda. meu cachorro morreu, fui despedido, meu namorado me traiu com a minha prima e eu acabei de ser assaltado”? No mínimo consideraríamos a pessoa socialmente inapta.
    Fico mais feliz por saber que você compartilha das minhas neuras e se eu quiser posso falar com você sobre elas até o assunto morrer e ficarmos falando da unha do pé da minha vizinha ou absolutamente nada e ser bom.
    Beijo! <3

  4. Da série: posts seus que poderiam ser meus.
    Eu sinto TANTO isso! Muitas vezes as pessoas me acham grossa ou anti-social porque não sou dessas que conversa o tempo todo, mas isso porque eu sei que eu não tenho assunto com aquela pessoa e inevitavelmente o papo vai acabar pr’aquelas reticências que vem depois do tudo bem. Pra que começar? E o que me dá mais tristeza é que tem muitas pessoas com as quais eu nunca conversei direito, mas que sinto que a gente tinha TUDO pra falar por horas, mas não tenho coragem de chegar assim na cara dura e chamar prum papo. E o medo de acabar no tudo bem? Ai que terrível.

    E eu entendo seu jeitinho, tá? <3
    beijo

  5. E tem como dizer mais (e melhor) do que tudo isso que vc disse? Ah, mas não tem!!
    Concordo muito com o que escreveu, quisera eu ter conseguido me expressar assim. Hoje mesmo fiquei pensando nesse tal de “tudo bem?”. Não me parece que alguém queira, de fato, saber como você está. Essa pergunta acabou se transformando em rotina, coisa chata mesmo pra iniciar conversa – e que nem sempre faz sucesso. Eu prefiro que não me perguntem nada. Apareça, sim, mas venha, como você diz, me enviando um link que a fez se lembrar de mim ou coisas do tipo. Não consigo me dar bem com essas convenções sociais.
    =*

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