Nosso

Ana Luísa sempre ficava chateada comigo porque no intervalo do teatro eu sempre comprava um chocolate e nunca lhe dava um pedaço.

Nunca fui de compartilhar coisas. Na minha casa sempre cada um ganhou algo, por exemplo, quando um ganhava um pacote de bolacha o outro ganhava outro, assim cada um podia comer o seu pacote por inteiro. Tudo bem separado, para evitar brigas. E as brigas eram evitadas, até que em um momento minhas comidas começaram a sumir. Era incrível, eu ganhava um doce, guardava no armário e quando ia comer não estava mais lá! E aí eu surtava e brigava com todo mundo e fazia comprarem doce pra mim de novo. Descobri que era meu irmão que comia e comecei a esconder meus doces em lugares secretos. Escondo-os até hoje.

A tia da escola ficava brava e dizia que eu era egoísta porque tinha uma caixa de lápis de cor de trinta e seis cores e não dividia com ninguém. Eu achava injusto, porque foi muito difícil convencer meu avô a comprar aquela caixa para nós e mais difícil ainda convencer minha prima a deixar que eu trouxesse pra casa, mas na escola nada disso importava. Os outros não tinham e eu deveria emprestar. E isso me torturava, porque era meu. E tudo que era meu e eu emprestava voltava mordido, quebrado, destruído ou simplesmente sem parecer ser meu.

Meu irmão começou a namorar e eu não conseguia sequer olhar nos olhos dele, porque era como se ele tivesse me traído. Deixado de ser meu e passado a ser de outra pessoa. Eu ainda poderia chamá-lo de “meu irmão”, mas sabia que ele passaria mais tempo com uma desconhecida do que comigo. E isso era imperdoável. Assim como é imperdoável ver meus pais sendo legais com qualquer pessoa que não seja eu ou meu irmão. Assim como é imperdoável ver meu irmão chamando eles de “pai” e “mãe”, porque eles não são isso. São “meu pai” e “minha mãe”.

Sempre fui uma pessoa possessiva e ciumenta. Sempre gostei de marcar meu território e de saber exatamente quais são os seres que pertencem à mim. Sempre nomeei todas as coisas que tive, pois isso as torna mais minhas e é por isso que tenho apelidos secretos para todos os meus contatos do celular, porque eles são MEUS.

Essa semana eu resolvi tentar sarar e adentrar no espírito “comunista” – no sentido de compartilhar as coisas, socializando-as – que meu irmão tanto tenta implantar em casa. Eu já aprendi a dividir água, canetas, livros, roupas e até bolachas, mas é absolutamente impossível que eu consiga cogitar a hipótese de dividir meu chocolate. Esse é e sempre será apenas meu. Só meu e de ninguém mais.

Hoje eu vi uma pessoa que me aprece colocar no facebook que está “em relacionamento sério” e eu não senti ciúmes. Não senti ameaça à relação por mim estabelecida para com a pessoa. Não senti que por causa disso precisarei desapegar-me. Eu fiquei feliz. Eu sorri e pensei “nossa, que legal!” e fiquei com vontade de abraçar a pessoa e dizer que quero que ela seja muito feliz, por muito tempo. E isso nunca acontece comigo. Porque eu sempre acho que quando as pessoas acharem alguém mais legal vão me abandonar. Mas eu consegui fazer isso hoje.

Talvez um dia eu compartilhe chocolates. Os meus, não os que eu compro no intervalo, porque esses aprendi na marra a dar uns pedaços por aí.

0 thoughts on “Nosso

  1. Que coisa linda MayMay! Super me identifiquei, sério! Fico possessa quando pegam minhas coisas hahahaha imagino qual é meu apelido na sua agenda de contatos. Hm… Mas ai, te amo mais ainda depois desse texto ♥

  2. Ia dizer que não conheço seu lado ciumento, mas aí lembrei do chocolate. E você é a única pessoa que eu conheço no mundo que não divide chocolate. Acho isso lindo, uma coisa Mayra e apenas Mayra.
    Agora veja só. Uma grande amiga minha tem muito ciúme de você. E ela fica “vai lá com sua amiga do cabelo roxo”. E eu respondo “A Mayra agora é verde”. Aí ela escreveu num post-it “A Mayra agora é verde!” e colou na minha parede graças ao ciúme. Nossa fraternidade é forte. <3

  3. HAHAHAHA, olha que eu sou ciumenta! Mas nunca liguei de emprestar minhas coisas! Já as pessoas.. só divido porque, né? E eu fiquei muito bolada aquele dia que você me recusou o pedaço de chocolate.
    Beijo! <3

  4. Mas…chocolates são infinitamente diferentes de pessoas, concorda? Digo, se desapegar de alguém faz completo sentido, porque é feito para o bem do próximo (isso pra não dizer no nosso). Chocolates são degustados, unica e exclusivamente, para o nosso prazer. Se quisermos dividir teremos que comprar outro chocolate.
    >>Emilie Escreve

Comentários: