Essa última semana de aulas é direcionada à revisão de conteúdos, porém nas aulas de produção de textos assistimos a um filme. “Time to Kill”, é um filme estadosunidense que trata essencialmente do preconceito. Carl Lee é um negro operário que trabalha exaustivamente para sustentar sua família, enquanto sua esposa fica em casa cuidando de seus filhos. Sua filha de nove anos é estuprada por dois homens brancos, bêbados e racistas que a maltraram mesmo. Então Carl Lee age como a maioria dos pais agiria, procura os homens e os mata. Aí o conflito é iniciado. Por Carl Lee ser negro, o julgamento tem dificuldades maiores que o normal, mas ele consegue um bom advogado e então o enredo se desenvolve, mostrando as artimanhas de tal advogado para tentar salvar o pobre Carl Lee. Enquanto isso, reune-se um grupo de racistas extremistas, que se mascaram e saem agredindo os apoiadores de Carl Lee, gerando assim uma série de conflitos internos que faz com que o advogado pense muitas vezes em abandonar o caso.

Com um elenco muito bom e um tema extremamente polêmico, o filme prendeu minha atenção durante todas as aulas. Me fazendo gritar desesperadamente “Free Carl Lee!” e chorar com o final. É um show de argumentação e uma crítica explêndida à sociedade racista da época. Recomendo a todas as pessoas que tiverem tempo e como estamos em Julho e a maioria está de férias, vocês terão tempo.

No entanto, não vim aqui falar apenas sobre o filme.

Analisando tal obra percebi que o preconceito racial era tanto há alguns anos que se tornava até grotesco. Percebi também que nunca vi um negro como um ser inferior, como um animal irracional, para mim são apenas pessoas. Lembro de ter seis anos e ter uma empregada doméstica negra. Uma vez minha mãe não pôde me levar à escola e tive que ir com ela. Não encostei na mão dela porque a achava suja, impura ou qualquer coisa assim. Não sei como surgiu isso em mim, minha mãe nunca me ensinou isso, mas eu era assim. No outro dia mamãe veio conversar e me perguntou porque eu não havia encostado na mão da Eliete, eu fiquei com vergonha, abaixei a cabeça e disse que nunca mais faria aquilo e não me lembro de ter feito. Acho que aquele pequeno ato mudou minha mentalidade para sempre.

Na primeira série do ensino fundamental, havia uma negra na minha sala e ninguém falava com ela porque ela era pobre e não penteava o cabelo direito, falavam mal dela e eu olhava, achava errado, mas não fazia nada. Então a professora Macilene estava dando aula de matemática e resolveu contar um trecho da história de Jesus, em que ele deixava de se sentar com os ricos na mesa de jantar e ia se sentar com Lázaro, que era leproso. Ouvi aquela história e imediatamente lembrei-me da menina, a vi como “Lázaro”, excluída por não ser igual a todos e então comecei a conversar com ela, dividir meu lanche e meus brinquedos, ajudava ela a arrumar o cabelo e com as matérias aprendidas na escola e aos poucos as pessoas passaram a aceitá-la um pouco melhor.

Depois desses dois casos nunca mais tive contato com negros, contato o suficiente para perceber que eles sofriam algum tipo de preconceito e poder ajudá-los de algum modo, passei a vê-los como pessoas iguais a todas as outras e hoje se não gosto de um negro é pelos mesmos motivos que não gosto de algum branco.

Esteriótipo atual de beleza ocidental.

Não vejo diferença e me dói pensar na quantidade de injustiças que eles já sofreram por causa dessa maldita coisa chamada “preconceito”. Tudo porque a cultura Ocidental foi essencialmente desenvolvida pelos europeus, sendo altos, loiros, brancos e com olhos claros, sendo esse o esteriótipo de beleza vigente até hoje. Eles chegaram e colonizaram a América, nos escravizaram e martirizaram e ao invés de hoje considerarmos os negros e índios nossos herois por terem sobrevivido mesmo em meio a tanta injustiça, os brancos são os herois, “sem eles não haveria civilização”, como se os europeus fossem uma raça superior a todas as outras e nosso objetivo de vida devesse ser idolatrá-los e lutar para ser como eles.

Acho que foram casos como o de Carl Lee que fizeram com que essa “diferença” fosse extinguida aos poucos. Por causa de coisas assim hoje podemos frequentar os mesmos lugares que negros, estudar com eles e comer das comidas que eles inventaram e produziram. Porém, olho para hoje, 2011, e percebo que a sociedade não evoluiu tanto assim. Podemos ter aprendido a conviver com os negros e podemos agir normalmente perto deles, mas ainda há uma grande quantidade de pessoas desfavorecidas por aqui. Eu poderia citar os judeus, muçulmanos, árabes e até asiáticos, mas resolvi citar algo muito mais visível no nosso dia-a-dia, o preconceito contra os homossexuais.

Vi aquele filme inteiro pensando que não agimos desse modo com os negros, mas fazemos exatamente as mesmas atrocidades com os homossexuais.

Utilizo a terceira pessoa nesse texto apenas porque não sei escrever de outra maneira, não sei me excluir do texto, mas gostaria de ressaltar que pessoalmente nunca cometi uma atrocidade a algum homossexual. O máximo foi quando, na terceira série do ensino fundamental, resolvi chamar um menino da minha sala de gay porque a escola inteira fazia isso e realmente zoava ele por achá-lo gay, até que um dia ele disse que eu era lésbica, porque andava de mãos dadas com as minhas amigas, e então eu fiquei brava e contei para a professora, ela contou pra diretora que me chamou na sala dela pela primeira vez na vida e ficou conversando comigo por muito tempo, até ver que não conseguiria tirar da minha cabeça  a ideia de que ele era gay e que isso era engraçado, então ela chamou a minha mãe na escola, elas conversaram e no fim das contas, tive que ir até o garoto, pedir desculpas e ajudá-lo a ser considerado hétero novamente pelo contingente escolar. Lógico que ele não pediu desculpas para mim, ou qualquer coisa assim, mas isso não importa. Eu aprendi a nunca zoar alguém que considerasse gay. Mas aquela diretora não me disse que era certo ser gay, ela deixou implícito que era errado quando me pediu para ajudá-lo a ser considerado hetero. Aprendi a aceitar os gays muitos anos depois, quando estava conversando com um grande amigo e ele resolveu me contar que era bissexual e eu, achando um absurdo e pensando seriamente em parar de falar com ele depois disso, resolvi perguntar as razões que o levaram a ser assim, tive uma conversa extremamente comprida, filosófica e reflexiva e percebi que porra… eu era completamente idiota. Então parei de achar os gays errados e hoje em dia tenho um discurso pronto pra quem vier tentar me convencer de que eles são errados.

Voltando ao assunto, percebi que hoje em dia cometem atrocidades ENORMES com os homossexuais, os consideram uma outra classe de pessoas, como se eles não fossem gente, não fossem normais. Eles não são anormais só porque amam. Ninguém deve ser considerado anormal por amar. O amor é lindo não importa como ele seja, desde que ele seja. Então fiquei pensando… como seria o julgamento de um menor de idade gay estuprado por heteros, iam dizer o quê? “Está relcamando porquê? O agressor era bonito e você deve ter gostado, era homem!”? Se assassinarem um travesti durante a noite e justificarem o crime pelo fato de a pessoa ser um travesti, vai ser tão errado quanto matar um empresário que está voltando de uma reunião de negócios? Pra que tanta injustiça e desamor? O que os homossexuais fazem de errado para serem tão açoitados pela população? E é agora que surgem os filmes à respeito, os personagens gays nas novelas e seriados, tudo para tentar conscientizar a população de que são apenas pessoas, mas de que vai adiantar uma campanha anti-homofobia nas escolas se as palavras “viado” e  “gay” continuam sendo consideradas xingamento por todas as pessoas? Será que é papel somente da escola transformar as mentes jovens?

Não dá para exigir que nossos avós olhem para um casal homossexual e sintam-se confortáveis, porque isso não é condizente com a sociedade em que eles viviam. É a mesma coisa que dizer para a filha de um grande senhor de engenho que o pai dela vai ser tratado por um médico negro. Não dá para impor uma mudança na visão da sociedade, mas ela acontece, mesmo sem que alguém influencie isso. Aos poucos as pessoas passam a perceber que estão apenas sendo idiotas e julgando outras pessoas por motivos completamente bobos e desnecessários. A maturidade a respeito de certas coisas não é atingida tão rapidamente, mas ela acontece.

Sei que hoje os negros ainda sofrem muito preconceito, menos do que no passado, mas ainda é significativo. Sei que com os homossexuais será a mesma coisa, mas pelo menos é um sinal de evolução, de humanização e de respeito aos valores humanos. Afinal, se todos são iguais perante a Lei, que sejam realmente iguais, não só perante a Lei, mas perante a tudo.

A pessoa vai deixar de ser inteligente e maravilhosa apenas por que gosta de dormir com alguém no mesmo sexo?

Vai deixar de ser linda e interessante apenas por que é negra?

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